“In His Own Write” e “A Spaniard in The Works”, as obras de John Lennon como Escritor

Hoje me lembrei destes livros de John Lennon, ao ver a foto da minha amiga Evelize, que conseguiu um exemplar de “Um Atrapalho no Trabalho”, depois de muito garimpar.

Um atrapalho no Trabalho - livro de JLennon nas mãos da EvelizeLENNON, John. Um atrapalho no trabalho. [Apresentação: Paul McCartney; Transcriação e Posfácio: Paulo Leminski. Edição bilíngüe, inclui os títulos originais: Lennon in his own write (1964) & A spaniard in the works (1965)]
São Paulo : Brasiliense, 1985.

Certa vez, em 2009, meu amigo Marcelo Xavier havia escrito no site Rabisco que a edição do livro estava esgotada, então realmente foi um achado para a minha amiga Evelize!

“Os dois primeiros livros de poemas e textos de John Lennon, In His Own Write e A Spaniard In The Works, foram lançados num mesmo volume no Brasil pela Editora Circo em 1980, em uma edição bilíngüe, chamada Um Atrapalho no Trabalho. A tradução é de Paulo Leminski. Infelizmente, Um Atrapalho no Trabalho (uma tentativa frustrada de traduzir o nome do segundo livro) está esgotado há décadas, mas pode ser encontrado em livrarias de volumes usados, os sebos.”

Em 2008 havia dois exemplares no sebo da passagem subterrânea da Rua da Consolação, esquina com o final da Avenida Paulista em São Paulo, hoje não sei se ainda estão lá…

John Lennon publicou estes dois livros de contos, se é que se pode chamar assim, uma coisa muito espontânea e que deixou claro seu talento pelas letras.
Esses dois livros, ‘In His Own Write'(64) e ‘A Spaniard in the Works'(65), fora “transcriados”, segundo suas palavras, pelo saudoso Paulo Leminski e publicados no Brasil numa edição única em 1980.

O interessante também nesta obra, é que a introdução do livro “In His Own Write” foi de Paul McCartney, com tradução de Paulo Leminski.

Eis aqui a tradução da introdução escrita por Paul McCartney, seguida de um dos contos de Lennon, tradução de Lemisnki, agradecendo ao amigo Dado Macedo:

A Introdução

“Foi na feira da cidade de Woolton que eu o conheci. Eu era um estudante gorducho e, quando ele apoiou um braço no meu ombro, percebi que ele estava bêbado. A gente tinha doze anos na época mas, apesar das costeletas que ele usava, acabamos amigos por toda nossa adolescência.

Tia Mimi, que estava cuidando dele já que ele estava tão tocado, costumava me contar como ele era mais esperto do que dava a entender, e coisas assim. Ele tinha feito um poema para a revista da escola sobre um eremita que dizia:
“como respirar é minha vida, de parar não ouso ousar”.

Aquilo me deixou pensando: “será que ele é profundo?” Ele usava óculos, de formas que era possível, e mesmo sem eles nada o detinha.
-Qual foi a graça?, ele respondia aos uivos de riso que o julgavam.

Ele foi para a Quarry Bank High School para rapazes e mais tarde entrou no Art College de Liverpool. Abandonou a escola e tocou com uma banda chamada os Beatles, e aqui está ele com um livro. Continuo perguntando, “será que é profundo?”, “será que é sofisticado, culto ou por dentro?”

Não vão faltar os cabeças-duras que vão ficar pensando por que partes dele não fazem sentido, e outros que vão ficar escarafunchando sentidos secretos.

– Que é um Líbrio?
– Há mais coisas entre o céu que esses olhos que a terra há de comer.

Nada disso tem que fazer sentido e se parecer engraçado isso é o que basta.

Paul McCartney

P.S. Gosto dos desenhos também.

Conto: ‘Papai’

“Fazia pouco tempo
Que papai andava um saco.
O velho sacou o lance
E deu no pé do barraco.

– Não me querem por aqui,
Estou velho e aleijado.
Ninguém teve a coragem
De dizer, sim, apoiado.

Levou um tempo e mais um tanto
Pra fazer a maleta.
E a gente tossindo na porta,
Vai, vai, careta.

– Não sirvo pra coisa alguma,
Ele disse, bem papai.
– É por isso mesmo, velho,
Vamos lá, panaca, cai.

A gente olhou suas rugas
E um pedido no olhar;
Lhe demos uns cinco dólares
E depois vai pastar.

– Por favor, não leve a mal.
Todo mundo olhou pra baixo.
– É com o maior prazer,
Vai te foder , seu palhaço.

Enfim, tudo arrumado,
O velho com seu pertences.
E quem disse que esquecia
De levar seu velho pênis.

– Não esqueçam de escrever,
Ele falou – nós choramos.
E cada um começou
A lista do super-mercado.

– Adeus, meus filhos e filhas,
Não culpo ninguém por isso,
A culpa é toda da mãe,
Eu estava de serviço.

– Não bota mamãe no meio!
Foi o grito quase unânime,
– Pelo menos ela trabalha,
Há mais de duzentos anos.

– Melhor morrer que ser puta!
O velho disse, raivoso.
– Dinheiro sujo eu não quero,
É disso que eu tenho nojo.

– Lava a roupa todo dia,
Dissemos quase em conjunto.
– E você, seu velho porco,
Prefere mudar de assunto?

Chegou na porta, afinal.
Virou e deu-nos adeus,
Boas Festas, Bom Natal,
Extensivos aos seus.

– Boa sorte, amor de pai!
Dissemos com ironia,
– Nós te veremos na fábrica.
(Ele não conseguiria).

– Foi-se enfim o farsante,
Suspiramos de alívio,
E fomos para o quarto
Examinar os seus livros.

– Que sorte a gente tivemos,
O velho deixou dinheiro.
Seguros, salários, vales,
E um talão de cheque inteiro!

Vamos dar aquela festa
Convidando todo mundo.
Mesmo que seja ninguém
Alguém há de ser, no fundo.

Nunca mais soubemos dele
Espero que nunca mais
Ficará em nossas vidas
Como o melhor dos papais.”

Outro conto de John/Leminsky: ‘Me Sentei Tão Só’

“Falso, feio e infeliz,
me sentei tão só.
A dama cantou pra mim
Eu nem sei onde ela está.

Olho pra cima, pro céu,
em busca daquela voz.
O que é, o que não é,
vocês vão ver bem depois.

– Vem, fala, diz que sim,
gritei em verde pimenta.
– Eu sei que você está aí,
Como é que você se aguenta?

Cantar assim eu dormi
umas horas ou duas ou mais
Acordo e meninos eu vi
mas a dama jamais.

Então num devagalhinho
pensei ter visto alguém,
Um porco, um pouco, um porquinho,
cantando como ninguém.

– Então não era uma dama.
Eu disse – quem não diria,
Ela, porém, se derrama,
E vai cantar em outra freguesia.”

Sobre John Lennon como escritor, Marcelo Xavier teceu o seguinte comentário para o Site “Rabisco” em 2009, onde ele comenta sobre os dois livros escritos por John Lennon, que agora transcrevo abaixo:

“Um dos perfis bem pouco conhecidos do cantor e compositor John Lennon (1940-1980) é o do seu lado escritor. Mais conhecido por baladas e canções memoráveis dos tempos dos Beatles ou hinos pacifistas como “Imagine”, Lennon tinha um estilo peculiar, tanto que poderíamos separar o escritor do compositor.
Em março de 1964, ou seja, em pleno auge da chamada “Invasão Britânica” catapultada pelos Beatles, ele publicou o seu primeiro livro, “In His Own Write”. Para a maioria dos ingleses, incluindo fãs da banda ou críticos de plantão, aquilo pareceu muito estranho, ainda mais partindo de um jovem músico que cantava canções açucaradas como “I’ll Get You” ou “This Boy”. Pelo menos, os leitores do jornal “Mersey Beat” não destoavam daquilo que estavam acostumados a ler na coluna “Beatcomber” (paródia de Beachcomber, humorista inglês da época), assinada por John. Sem nenhum “yeah-yeah-yeah”, In His Own Write era uma coletânea de contos absurdos e poemas surreais a amalgamar temas como assassinato, ódio racial e canibalismo.

Lennon e sua obra In His Own WriteAlguns textos evocam, longe e certamente a despeito da tradição literária modernista inaugurada por James Joyce do Portrait, ou Lewis Carroll de Alice no País das Maravilhas, o uso de neologismos, idéias extravagantes e humor nonsense. O livro também traz desenhos (também absurdos) de sua autoria. Na época do lançamento, vendeu perto de 300 mil exemplares. Com efeito, a tiragem foi obviamente guindada pelo sucesso dos Beatles, e as suas respectivas fãs ululantes (que comprariam qualquer coisa deles, até fios de cabelo) devem ter considerado “aquilo” mais ou menos interessante do que a crítica do Times, que achou que o livro “merece a atenção de quem quer que tema pelo empobrecimento do idioma inglês e da imaginação britânica”. Mesmo que não fosse ao menos digno de menção ou não tenha saído da cabeça do compositor de “A Hard Day’s Night”, In His Own Write fere pelo picaresco e pelo cômico, pela galhofa e pela surpresa, como nesse pequeno texto:

Sobre o terrível

Eu fui estorvado num 9 de outubro fim 1940 quando, penso eu, os Nojentistas nos nasciam por Madalf Heatlump (quem teve somente um). Em todo o caso, não me pegaram. Estive em várias escolas em Liddypol. E ainda não satisfiz as minhas tias todas. Como o membro do grande refugado Beatles e eu (Paul, George e Ringo) os registros puderam parecer mais engraçados a alguns de vocês do que este livro, mas tanto quanto eu compus esta correção de escrevinhada breve é a maioria de que da maravilha falta que eu tenho sempre pronto.

Que Deus os ajude e alimente-os todos.

É possível perceber, no meio do absurdo, alusões autobiográficas, embora a tradução não permita entender os trocadilhos diversos em que Lennon se dispunha a inventar palavras ou justamente colocar alguma informação dentro destes neologismos. Já o poema “Good Dog Niegel” traz onomatopéias que lembram a vaquinha mu-mu de James Joyce:

Bom Cão Niegel

Arf, Arf, lá vai alegre
O nosso amigo peludo
Arf, Arf, sob a luz do poste
Bufando pela curvatura
Bom cãozinho, como baba o garoto
Mexe o rabinho o cachorro inteligente
Pula de alegria porque
Nós o botamos a dormir às três da manhã.
Niegel.

A crítica da Revista NewsWeek, na época, avaliou que o livro sugeria que, quando John queria cantar “eu quero pegar na sua mão”, na verdade o que ele queria era mordê-la. De fato, se ele era roqueiro-romântico na dupla com Paul McCartney, como escritor, Lennon corria o risco de frustrar os Beatlemaníacos de ocasião. É certo que o livro saiu guindado pelo sucesso do quarteto, mas era um trabalho absolutamente à parte. Este conto, escrito como um roteiro, é um exemplo clássico do nonsense do livro. Um diálogo entre o dentista e sua paciente:

No dentista

Senhora: Tenho um dente enraizado que me faz dor.
Senhor: Se jogue sobre o traseiro, senhora, e escancare a sua vala. Oh, seu interior está completamente nu!
Senhora: Puxa vida! Só fiquei com oito dentes!
Senhor: Então você perdeu oitenta e três!
Senhora: Descrente!
Senhor: Cadacão diz que temos quatro decisivos, dois felinos e dez polares, que, juntos, fazem 32, à sombra.
Senhora: Fiz tudo para salvaguardar o dente!
Senhor: Ele se apodreceu sem sentido!
Senhora: Por que não o insultei antes?
Senhor: Muito tarde. Ou é agora ou só em Marienbaad.
Senhora: Você vai me arrastar até lá?
Senhor: Não, mandinga, vou examiná-la
Senhora: Isso vai me fazer sofrer muito.
Senhor: Deixe-me ver. CRACK! Lá está ele, madame.
Senhora: Mas, Senhor, eu gostaria (estava ansiosa pra conservar) conservar este último dente.
Senhor: Ele estava negro e triste, como os outros estavam.
Senhora: Misericórdia, assim não poderei comer!
Senhor: Um denteiro para a Massistência social é bom, e você parece trinta anos mais moça.
Senhora: (à parte) Trinta anos mais moça (berrando) senhor, não sou católica, arranque-me todos os cacos, aqui ou em Marienbaad!
Senhor: OK. Colgate.

“A Spaniard In The Works”, o segundo livro.

O segundo livro de John, A Spaniard In The Works, foi publicado um ano depois, em 1965, no auge da popularidade dos Beatles, na época em que o quarteto recebia a medalha da Ordem Britânica. Enquanto estavam em turnê, o livro chegou às livrarias e se tornou best-seller, o que não passaria pelos olhos da crítica, que associou a grande vendagem à marca Beatles.
A Spaniard In The Works se diferencia de In His Own Write por ser mais escatológico, com referências sexuais e personagens com vida própria, como um certo Jesus El Pífco, “pequeno fascista comedor de alho, gorduroso e amarelento”. Segundo o biógrafo da banda, Geoffrey Strokes, A Spaniard in the Works, “parecia monótono, sem o elemento de surpresa que tornou In His Own Write tão especial”.

De qualquer maneira, aos olhos da crítica, o fato de ser um livro de John Lennon dos Beatles poderia dar à sua obra uma aura oportunista. É nesse fato que cabe analisá-la num contexto mais afastado do seu trabalho como letrista com a banda. E, conhecendo mais ou menos qual era a mentalidade da maioria esmagadora das fãs ululantes dos cabeludos de Liverpool, ninguém esperaria ansiosamente por mais um livro. Porém, parte da inspiração do Lennon escritor estava embotada pelo compositor, cujo mercado fonográfico exigia letras de rock. Com o passar do tempo e com a influência do psicodelismo, John passaria a utilizar todo aquele imaginário nonsense nas suas letras. É possível que, nesse momento histórico em que ele pôde compor suas canções sozinho, esse lado de seu talento tenha vazado para as letras, principalmente em momentos como no White Album (1968), em músicas como “Glass Onion” ou “The Continuing History Of Bungalow Bill”.

Metade Davi

Já era uma vez um cara que era meio Davi – ele tinha uma missão na vida.

– Sou meio Davi, ele bufava de manhã, meio puto da vida.

No café, lá ele de novo dizendo sou meio Davi, o que dava nos nervos da Betty. Isto não é vida, Davi, uma voz dizia no caminho do serviço, que não era nada mais nada menos que um condutor de alguma cor. “Legal pra você”. Davi costumava pensar, pouco cagando para o problema da cor.

Meio Davi era um vendedor que você tinha que ver, com o dom de ser bom, o que sempre dava nos nervos da Mary. “Parece que eu perdi o ônibus, Cobber”, disse Davi sem compreender bem. “Desça do ônibus então” disse Basubooo uma voz de bater as botas, não sacando o problema da cor realmente ele. “O.K.” disse meio Davi, humilde sem querer ofender. “Mas você gostaria que tua filha casasse com um deles?”

Uma voz parecia dizer quando ele saltou do ônibus como um dividido Davi.

Outros escritos de Lennon:

Depois dos Beatles, Lennon continuaria a sua produção como escritor, porém bissexto. Seus escritos após A Spaniard In The Works seriam reunidos num único volume, intitulado Skywriting By Word Of Mouth, concluído em 1975 e publicado apenas em 1986, ou seja, seis anos após sua morte. Misto de poesia, conto e memorialismo, o livro fala de sua vida com Yoko e historietas cômicas e desenhos distantes dos monstrengos dos seus primeiros livros. No texto abaixo, de Skywriting By Word Of Mouth, percebe-se, na primeira frase, uma paródia dos primeiros versos de “Lucy In The Sky With Diamonds”, do álbum Sargeant Pepper’s Lonely Heart Club Band (1967):

Uma razão para respirar

Me imaginei num barco num rio, com árvores de tangerina e displasia. Este devia ser o capítulo final em minhas economias da vida. Eu puxei a tomada e embarquei num barco para lugar algum. Sofri de insônia toda a minha vida, mas, como Isaac Newton, tive que derrubar todas as maçãs. Era hereditário (como minha testa). Quis permanecer anônimo num mundo de filadelfianos. Eu tiquetaqueei eu mesmo fora e pus-me em meu lugar, uns dois camados o marrompedra do meu ilustre doente. Eu fui convencido que eu estado aqui antes. Chame isso o que quiser, eu chamo de Rudy. Eu tinha andado nestes mesmos campos de primavera empoeirados antes? Ou era eu justo uma circunavegação da vítima? Sim, pois que eu ando através de Rudy Valle, mim não temerá nenhum Evel Knievel. O alimento da sucata fêz-me tolo; o alimento rápido retardou-me para baixo; Eu tive que começar fora no batente seguinte. Eu me alinhei ao som de um bando militar. “Você faz exame desta mulher em qualquer lugar no detalhe”, que a voz soou para fora. Eu apavorei-me lentamente e me recolhi ao exercício de minha discrição.
(Texto de Marcelo Xavier)

Eu não li os livros, e tive oportunidade somente de ler estes contos publicados pelo Dado Macedo e pelo Marcelo Xavier, mas o Paul elogiou a obra de Lennon escritor!
Paul sempre esteve ao lado de John, não só na época do conjunto e da parceria Lennon & McCartney, mas os dois se completavam, eram “anam cara”. Impossível a gente querer separar esses dois ou ficar tentando saber quem deles era o melhor…

Os dois juntos formavam o maior talento que o mundo já conheceu!

Lennon e McCartney

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Uma resposta em ““In His Own Write” e “A Spaniard in The Works”, as obras de John Lennon como Escritor

  1. Querida amiga Lucinha, que honra heim, obrigado….
    Não sabia que ia ser desse jeito não.
    Mas estou muito feliz mesmo, por ter conseguido comprar esse livro.
    Linda postagem essa, parabéns amiga!

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