“That’s it. I’m not a Beatle anymore.” (É isso. Agora não sou mais um Beatle.)

Em 29 de agosto de 1966 os Beatles estavam no avião voltando de seu último show ao vivo em Candlestick Park, em São Francisco, quando George Harrison disse esta frase, que ficou na história! Em resposta, John Lennon sugeriu para seu promoter Arthur Howes, que enviasse quatro bonecos de cera dos Beatles sacudindo suas cabeças no momento certo, que as crianças não saberiam a diferença.
Mas pelo menos uma pessoa continuou sentimental nessa época, e foi Paul McCartney, que mantém a lista de músicas daquele dia do último concerto gravada em seu baixo Hofner.
A frase de George Harrison serve de título para esta matéria escrita por Gordon Thompson, que é Professor de Música da Skidmore College e autor do livro Please Please Me: Sixties British Pop, Inside Out.

Livro Please Please Me

Há quarenta e sete anos atrás, em 1966, os Beatles se separaram, não no sentido jurídico, mas no aspecto prático de ser uma banda que tocava ao vivo diante das platéias. Em 29 de agosto de 1966, eles tocaram seu último concerto ao vivo perante uma platéia no Candlestick Park, em San Francisco e, no avião de volta para a Grã-Bretanha, George Harrison virou-se para um repórter e suspirou: “É isso. Eu não sou mais um Beatle.”
Em setembro de 1966, cada um dos Beatles se separaram e tomaram cada um o seu caminho. George Harrison partiu para a Índia para estudar música indiana e a aprender a tocar cítara (sitar) com Ravi Shankar, passando parte do seu tempo flutuando em uma casa-barco no Lago Dal Kashmir.
Paul McCartney tornou-se uma esponja cultural, participando de eventos de artistas tão diferentes como Luciano Berio no Wigmore Hall de Londres e bandas como Brian Auger e a Trindade em clubes antes de embarcar em uma turnê do Vale do Loire (disfarçado) e num safari no Quênia.
Ringo Starr concentrou-se em sua família em Londres. E simbolicamente, em 6 de Setembro, John Lennon cortou o cabelo, adotou a aparência dos metaleiros do Serviço Nacional de Saúde, e quatro dias depois começou uma viagem à Alemanha e Espanha para desempenhar o papel do Mosqueteiro Gripweed no filme de Richard Lester, “Como Ganhei a Guerra”.
Em anos anteriores, o tempo após as turnês de verão os ajudava a rejuvenescer suas mentes e prepará-los para o próximo single de Natal e lançamentos dos álbuns. No outono de 1966, eles tinham uma opção diferente. Particularmente, o contrato deles com a gravadora EMI expirou deixando-os sob nenhuma obrigação legal de ter que lançar alguma coisa até o final de novembro. Após as rancorosas turnês de verão e as respostas positivas que eles receberam pelo álbum “Revolver”, eles aproveitariam o tempo para trabalhar no próximo projeto.
A questão então surgiu para os Beatles: Qual era o próximo? Como eles poderiam ultrapassar “Revolver”?
Parte da imprensa, ao saber que a banda não estaria mais agendando datas de shows e que Brian Epstein ainda não havia negociado nenhum novo contrato de gravação, previu que os Beatles estavam ultrapassados e iriam se dissolver em breve.

Beatles - post I`m not a Beatle anymore 2

De certa forma, eles estavam certos: a banda que havia balançado estádios e estádios de futebol já não existia. Em seu lugar, um coletivo assumiu a responsabilidade de reimaginar o papel de duas guitarras, baixo e bateria em um ambiente onde os sons eletrônicos, música indiana, e instrumentos de orquestra compartilhavam o “audioscape”.
O mundo estava mudando. As experiências daquele verão de serem perseguidos por repórteres a respeito dos comentários de Lennon de que “somos mais populares do que Jesus”, sendo guardados por policiais japoneses, militantes de direita raivosos por causa da influência da banda sobre a juventude, agredidas pela polícia filipina por terem ignorado Imelda Marcos, e insultados pela Ku Klux Klan nos Estados Unidos, convenceram a banda de que já não podiam continuar como estavam. Como crianças emancipadas das casas de seus pais, eles partiram para se redefinirem a eles próprios como algo além daquelas figuras bidimensionais sorridentes de penteado “mop top” das séries de desenhos animados.
As dramáticas mudanças políticas e sociais do mundo nos anos pós guerra levaram em 1966 a uma ascenção das forças reacionárias conservadoras que encontraram quase tudo, desde a bomba de hidrogênio à ameaça do controle de natalidade. Mas talvez o mais difícil de tudo foi o amadurecimento em massa dos baby boomers, os mais velhos dos quais estavam prestes a completar 21 anos e, portanto, com o potencial de aumentar os direitos políticos. Seus números inteiros significavam que seus experimentos com drogas e música traziam o que teria sido contra-cultural em meios de comunicação e no discurso social. Talvez sem saber, os Beatles tinham estado na linha de frente dessa guerra cultural (portanto, as suas experiências em turnê) e, mesmo que eles não quisessem mais excursionar, eles ainda queriam muito fazer parte deste debate cultural, para lançar sua imagem de “fab four”, e criar experimentos.
Em setembro de 1966, cada um dos Beatles individualmente começou a moldar novas identidades individuais e explorar interesses musicais individuais. Na Espanha, John Lennon escreveria “Strawberry Fields Forever”, uma de suas canções mais imaginativas e uma releitura de sua infância e identidade pessoal. George Harrison retornaria da Índia com a técnica de tocar o instrumento indiano “sitar” melhorada e a auto-confiança para gravar sem seus companheiros de banda. E Paul McCartney teria uma epifania, pois naquele instante ele teve um pensamento único e inspirador, de uma natureza quase sobrenatural dentro do avião de volta de África sobre como os Beatles poderiam reinventar a eles mesmos com “A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sgt. Pimenta”, um grupo imaginário com nenhuma das complicações legais e sociais da vida real.

Texto original: “That’s it. I’m not a Beatle anymore.”, by Gordon Thompson

Tradução: Lucinha Zanetti

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3 respostas em ““That’s it. I’m not a Beatle anymore.” (É isso. Agora não sou mais um Beatle.)

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