MY SWEET LORD – A HISTÓRIA DEFINITIVA DO PLÁGIO

Por Cláudio Teran (Pop Go The Beatles 01)

My Sweet Lord tornou-se um clássico tão logo chegou às paradas de sucessos e lojas de discos pelo planeta. Não por acaso. Seu arranjo simples, vigoroso e envolvente, aliado à mensagem pacifista e divina arrebatou um mundo que estava assistindo o final de um doce sonho. A canção chegou num momento em que as lágrimas teimavam em não secar. Chorávamos o fim de Jimmy Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin, ao mesmo tempo em que lamentávamos o the end da maior de todas as bandas, Os Beatles. Estaria o rock and roll também nos estertores, indagavam os pessimistas? My Sweet Lord veio como resposta e lamento. A inspiração chegou para George Harrison ao ouvir atentamente o trabalho do grupo Edwin Hawkins Singers para Oh! Happy Day. Naquela composição o ponto central estava nos vocais gospel. George foi compondo ao seu estilo, munido de um violão. Com a letra alinhavada passou a avaliar como o mundo receberia uma canção que falasse de Deus. Temia reações negativas, sobretudo porque jamais compunha voltado diretamente para esse tema. Por outro lado Harrison sentia que tinha um hit para ganhar o mundo e pressentia que quando My Sweet Lord chegasse ao mercado modificaria algo em sua carreira. Estava certíssimo.

My Sweet Lord

Recording Session

George Harrison alterou a letra original de My Sweet Lord quando já estava em estúdio, incluindo as expressões, “aleluia” e “hare krishna” via backing vocal. O produtor Phill Spector e os músicos que participaram da gravação não paravam de repetir que aquele seria um sucesso mundial. Apesar dessa expectativa George teve um gesto de desapego ao entregar seu maior êxito da carreira-solo para Billy Preston gravar primeiro. Felizmente para Harrison nada aconteceu com o compacto editado por Billy Preston, que optou por fazer uma versão funkeada e bem equivocada da grande composição. Quando o single cantado por George Harrison saiu o solo de slide guitar virou marca registrada de um clássico instantâneo. Nas rádios a faixa foi o êxito que conhecemos, sucesso em todo o mundo, número ‘1’ em dezenas de países e a grande alavanca de vendas do álbum triplo All Things Must Pass. Não demoraria, entretanto, para o início de um drama paralelo. A cabeça de George Harrison passou a ser martelada com informações que partiram inicialmente de amigos, e – depois – ganhou a mídia: a famosa composição era acusada de plágio. E era mesmo.

“He’s So Fine” entra em cena.

He’s So Fine é de 1963 e foi composta por Ronnie Mack – já falecido – e gravada originalmente pelo grupo negro americano, The Chiffons. A faixa não foi um hit e, na realidade só virou objeto de curiosidade e execução depois da acusação de plágio envolvendo My Sweet Lord. Os direitos autorais pertenciam à Bright Tunes Editora. Em termos de qualidade também não se pode comparar “He’s So Fine” com “My Sweet Lord”, mas George sentiu o drama ao escutar. Compreendeu que havia copiado algumas notas da canção dos Chiffons, e percebeu que teria problemas. O caso ganhou repercussão, e a Editora Bright Tunes entrou com uma ação na justiça. George veio a público e defendeu-se. Admitiu o plágio, mas afirmou que não era intencional. Penitenciou-se em programas de rádio e TV. E repetiu muitas vezes que teria bastado um pouco mais de atenção para promover pequenas modificações no arranjo para evitar as comparações. E complicações. George também disse que My Sweet Lord era uma western song que adaptava para o popular, o “Maha Mantra” cântico sagrado que ele costumava entoar em suas meditações.

Motif A, Motif B

Em 7 de setembro de 1976 aconteceu o desenlace em torno do caso. Irritadíssimo, George Harrison precisou ir à corte defender-se das acusações de plágio. Em seu livro I Me Mine ele revela sarcasticamente que o juiz dividiu a questão em dois pedaços: “Motif A and Motif B.” O tal “Motívo A” indicava plágio nas notas iniciais e no trecho onde ele canta o título, “my sweet Lord.” O “Motivo B” apontava plágio em cerca de cinco notas do trecho em que canta, “really want to see you.” George conta que cansou de ouvir no tribunal repetidas vezes as gravações de “My Sweet Lord” e “He’s So Fine” para comparações. Em sua defesa ele disse ao juiz que 99 por cento da música popular vinha de uma ou outra nota ou acorde que já havia sido criado. Não adiantou nada e ele foi condenado por plágio não consciente. Valor da indenização 587 mil dólares. George recorreu para não pagar, e o caso estendeu-se por anos, nos tribunais. Todas as batalhas foram perdidas, e em 26 de fevereiro de 1981 – quase dez anos após o lançamento de My Sweet Lord a indenização foi finalmente paga.

Onde Allen Klein entra na jogada.

Não passa de lenda a afirmação de que Allen Klein sabia do plágio de My Sweet Lord e que teria enganado George Harrison de maneira vil. É igualmente inverídica a história de que Harrison teria pedido a Klein que verificasse sua suspeita de que outra composição com aqueles acordes havia sido feita antes. Mas Allen Klein efetivamente participou do episódio, ainda que por caminhos acidentais. O ex-empresário dos Beatles era uma figura queimada no show-biz e junto aos Fab Four em 1980. Havia até passado uma temporada na cadeia por sonegação de impostos e respondia uma penca de processos na justiça – alguns dos quais movidos pelos quatro Beatles. Naquele ano, porém, a empresa de Allen Klein, ABKCO, comprou a quase falida editora Bright Tunes, detentora dos direitos de He’s So Fine.

Conta paga

Em 26 de fevereiro de 1981, quando George Harrison pagou a indenização de 587 mil dólares da condenação por plágio contra My Sweet Lord, quem recebeu – ironicamente ou não – foi Allen Klein! E, detalhe, não havia mais nada que George pudesse fazer, já que legalmente a Bright Tunes havia sido adquirida pela ABKCO. Há mais: o caso teve muitas idas e vindas até novembro de 1990, quando finalmente foi ‘encerrado’ pelo juiz da corte federal americana, Richard Owen. Ele definiu que George Harrison ficaria com os direitos autorais de My Sweet Lord assegurados para execução e vendagem nos EUA, Reino Unido e Canadá. Allen Klein permaneceria com os direitos de He’s So Fine e sem poder de intervenção contra George Harrison nos países citados. Decidiu também que Harrison teria de pagar royalties à ABKCO do senhor Allen Klein no valor de 270.020 dólares, como indenização simbólica pelas execuções de My Sweet Lord ao longo do processo por plágio fora do Reino Unido, EUA e Canadá. Ambas as partes aceitaram o veredicto e o assunto chegou ao final com perda financeira total de 857.000 mil dólares para George Harrison.

Os porquês de ‘My Sweet Lord 2000’

Na histórica entrevista à Playboy em 1980, John Lennon falou do plágio de My Sweet Lord e criticou George. Para John, pequenas mudanças no arranjo teriam resolvido o problema. Estava certo. E George sempre martelou a própria cabeça com essa ideia. Tanto que reouvindo as fitas de All Things Must Pass durante o processo de remasterização do álbum achou que estava na hora de acertar as contas com um erro do passado. Iniciou os trabalhos de rearranjo para My Sweet Lord na brincadeira. Imaginava que podia fazer uma slide guitar melhor e coisas assim. Mas a retirada dos acordes que o condenaram plágio era a meta.
É basicamente por isso que existe ‘My Sweet Lord 2000’. George Harrison retirou acorde por acorde plagiado de He’s So Fine e lançou essa nova versão como faixa bônus da versão remasterizada de All Things Must Pass. Foi também um dos últimos projetos tocados por ele. George ainda teve tempo de comentar esse assunto no CD promocional “A Conversation” feito no dia 15 de fevereiro de 2.001 para a Capitol americana. “Espero que as dúvidas em torno da questão My Sweet Lord tenham ficado definitivamente dissipadas”, disse…

Cláudio Teran, jornalista, radialista e gestor empresarial

My Sweet Lord vs. He’s So Fine

My Sweet Lord 2000

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3 respostas em “MY SWEET LORD – A HISTÓRIA DEFINITIVA DO PLÁGIO

  1. Gostei dessa reportagem, eu já tinha lido a respeito desse caso e do fechamento, achei interessante foi o vídeo do You tube com as 2 músicas simultaneamente, apesar que só de ouvir He’s so fine ja se percebe a semelhança….essas coisas acontecem direto porém quando é com um mega artista o “buxixo” é mega também…..

  2. Muito boa a matéria!! Então foi por isso que George lançou uma compilação de demos e trocou o nome da música Beware of Darkness por Beware of ABKCO ( Allan B. Klein Company )

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