“Let it Be” e o segredo revelado no Anthology.

De como os Beatles quase tiveram Eric Clapton como guitarrista!

O filme ‘Let It Be’ (1970) contém cenas daquele longínquo 10 de janeiro de 1969, porém o episódio da saída de George Harrison foi mantida em segredo e omitida na edição final do filme, e somente o livro ‘The Beatles: Anthology’, lançado em 2000, revela os detalhes do episódio, nas palavras dos próprios Fab Four.

Naquela tarde Yoko Ono assumiu os vocais e a atmosfera ficou cinza. A banda se preparava para o que seria seu último show, mas agora estava incompleta.

Qual seria a solução?

“Vamos colocar o Eric”, bradou o impulsivo John Lennon. Clapton mantinha amizade com toda a banda e principalmente com o próprio George, e aquilo seria no mínimo desconfortável…
“Se o George não voltar até segunda ou terça (13 ou 14 de janeiro de 1969), chamamos Eric Clapton para tocar”, disse John naquele fatídico dia. O relato está publicado no site da revista Where’s Eric!, mantida pelo fã-clube britânico de Clapton desde 1992, com assinantes em mais de 30 países.

John teria ido além, dizendo que Clapton saíra do “Cream” porque eram “todos solistas”; que os Beatles “lhe dariam liberdade total para tocar sua guitarra” e que a banda deveria continuar com ou sem George.

Os Beatles queriam registrar uma apresentação ao vivo para encerrar o filme “Let It Be”, que retratou o cotidiano da banda no estúdio. Com o cronograma apertado, o show tinha que acontecer antes do fim do mês. Isso contribuiu para a extrema ansiedade de John. Tratava-se do “Rooftop Concert”, na cobertura do prédio da Apple em Londres.

De acordo com a publicação, a conversa daquela noite entre John, Ringo Starr e Michael Lindsay-Hogg (diretor do “Let It Be”) foi inteiramente gravada. O áudio não está disponível, mesmo porque valeria milhares de dólares nas mãos de colecionadores. Mas as intenções de John são confirmadas no best-seller “The Beatles: Anthology”, lançado pela própria Apple Corps em 2000 (Editora Cassel & Co – UK).

Na página 316, Paul McCartney recorda:

Depois que George foi embora tivemos uma reunião na casa do John e acho que o primeiro comentário dele foi “Vamos chamar o Eric”. Eu disse “Não!”. Acho que o John estava de brincadeira. Pensamos, “Não, peraí, o George foi embora e não vamos aceitar isso – assim não tá bom”.

George deixou a banda após um tenso diálogo com Paul, e foi tudo registrado pelas câmeras!

Os diálogos:

Ringo:

“Paul e George não estavam se dando bem naquele dia e George decidiu partir, mas não contou nem para John, nem para mim ou Paul. As discussões sempre aconteciam, então até irmos almoçar nenhum de nós percebeu que George tinha ido para casa. Quando voltamos ele continuou ausente, então começamos uma jam violenta. Paul tocou seu baixo contra o amplificador, John estava ‘viajando’ e eu toquei umas batidas estranhas que nunca tinha feito antes. Eu não toco daquela maneira regularmente. Nossa reação foi muito, muito interessante naquele momento. Yoko entrou no meio, claro; ela estava lá.”

Paul:

“De fato George saiu do grupo. Não tenho certeza do motivo exato. Penso que eles achavam que eu estava sendo muito dominador. É fácil para alguém como eu, que faz as coisas acontecerem, ter uma abordagem forte demais. Revendo o filme, vejo que pareço alguém com uma postura um pouco pesada demais, particularmente por ser apenas um membro da banda e não um produtor ou diretor. De minha parte era apenas entusiasmo, mas levou a alguns arranca-rabos, e num deles George disse:_ ‘Certo. Não vou aturar isso!’.
Provavelmente eu estava sugerindo o que ele poderia tocar, o que é sempre algo complicado numa banda.”

George:

“Eu tinha estado com Bob Dylan e a The Band no Woodstock e me diverti muito. Voltar para o ‘inverno do descontentamento’ com os Beatles em Twickenham foi algo infeliz e nada saudável. Um dia houve uma discussão entre Paul e eu. Está no filme: você pode vê-lo dizendo ‘bem, não toque isso’. Eu digo: ‘tocarei o que você quiser, ou nem vou tocar se você não quiser. Qualquer coisa que for te agradar, é o que vou fazer’. Estavam filmando nossos desentendimentos. A coisa não chegou a explodir, mas pensei ‘qual o sentido disto? Sou bem capaz de ser relativamente feliz por mim mesmo e não dá para ser feliz nesta situação. Vou embora daqui’.
Todos tinham passado por isso. Ringo já tinha saído num dado momento. Eu sabia que John queria dar o fora. Foi um período muito, muito difícil e estressante, e ainda ser filmado discutindo foi terrível. Levantei e pensei: ‘Não vou mais fazer isso. Estou fora’. Então peguei minha guitarra, fui para casa e compus Wah Wah naquela mesma tarde.”

Wah Wah, de 1970, foi composta por George no dia em que ele deixou os Beatles, sendo a faixa 3 do primeiro álbum triplo lançado por um artista solo na História:

George_Harrison-All_Things_Must_Pass-Frontal - Foto 1

John:

“Em suas ‘viagens’, Paul achou que era hora de outro filme dos Beatles ou algo assim, ou queria que voltássemos para a estrada, ou que simplesmente fizéssemos algo. Como de costume, George e eu dizíamos ‘oh, não queremos fazer isso’. E ele armou as filmagens. Havia muitas discussões sobre o que fazer. Eu apenas acompanhava, já tinha Yoko comigo e estava “nem aí” para tudo ( “didn´t give a shit about nothing”). Estava chapado o tempo todo também, heroína, etc. Eu simplesmente estava “nem aí” para aquilo, mas todos estavam…”

Paul:

“Num grupo as coisas são democráticas e ele não precisava me ouvir, então acho que ele ficou puto comigo por eu ficar trazendo ideias o tempo todo. Provavelmente, para ele, era apenas uma tentativa minha de dominar. Não era o que eu estava tentando, mas era assim que soava, e isso, para mim, foi o que eventualmente separaria os Beatles: comecei a sentir que ter ideias não era uma boa ideia.”

Ringo:

“Fomos visitar George em sua casa e lhe dissemos que o amávamos. Houve um entendimento e ele voltou.”

Paul:

“Quando tocamos ‘Hey Jude’ pela primeira vez, cantei o primeiro verso e George respondeu ‘nanu nanu’ com sua guitarra. Continuei assim: ‘Don’t make it bad…’ e ele respondeu: ‘nanu nanu’. Ele estava respondendo cada verso – e eu disse ‘Ei! Espere um pouco, não acho que seja isso que queremos. Talvez você devesse entrar com respostas de guitarra depois. Por ora acho melhor começarmos da maneira simples’. Insisti, pois aquilo era importante para mim, mas é claro que, se você diz isso a um guitarrista, e ele não gosta da ideia tanto quanto você, parece que você o está tirando da jogada. Acho que George sentia isso. Era algo do tipo “desde quando você vai me dizer o que devo tocar? Estou nos Beatles também’. Consigo entender seu ponto de vista. Mas isso me afetou, e aí eu não conseguia mais ter ideias livre e expontâneamente. Comecei a pensar duas vezes sobre tudo o que ia dizer – ‘espere um minuto, será que vai parecer que estou forçando?’ Enquanto que, no passado, era só ‘bem, é isso aí, isso parece uma boa ideia. Vamos tocar esta música chamada Yesterday. Ficará tudo bem’.”

George:

“Chegou uma hora, provavelmente na época do Sgt. Pepper’s (talvez por isso eu não tenho curtido ele tanto assim), em que Paul tinha uma ideia fixa sobre como gravar suas músicas. Ele não estava aberto a sugestões de mais ninguém. John sempre foi muito mais aberto quando o assunto era tocar uma de suas canções. Isso levou a situações das mais inusitadas.
Eu abria o case da minha guitarra e Paul dizia: ‘não, não vamos fazer isso ainda. Vamos fazer uma pista de piano com Ringo, e depois faremos isso’. Chegou a um ponto em que havia muito pouco a fazer, a não ser ficar sentado lá ouvindo ele cantar ‘Fixing a Hole’ com Ringo mantendo o tempo. Aí ele adicionava o baixo e tudo o mais. A coisa se tornou sufocante. No ‘Let It Be’ deveríamos nos livrar desse tipo de gravação; voltamos a tocar juntos. Mas ainda era a mesma situação, em que ele já tinha na cabeça o que queria. Paul não queria que ninguém tocasse em suas músicas até ele decidir como deveriam ser. Para mim foi algo como ‘o que estou fazendo aqui? Isto é doloroso!’.

Paul:

“Depois que George foi embora tivemos uma reunião na casa do John e acho que o primeiro comentário dele foi “Vamos chamar o Eric”. Eu disse “Não!”. Acho que o John estava de brincadeira. Pensamos, “Não, peraí, o George foi embora e não vamos aceitar isso – assim não tá bom”.
George saiu porque sentia que estavam dizendo-lhe o que fazer (acho que foi esse o motivo).
Ringo tinha saído antes porque não achava que gostássemos dele como baterista. Essa não foi tão difícil de resolver como talvez tenha sido o lance do George. Ao mesmo tempo, John estava procurando se esquivar da situação. Acho que todos sentíamos que algumas rachaduras estavam aparecendo no edifício.”

Paul & George - Foto 2

John:

“Quando os Beatles chegaram ao seu auge, estávamos diminuindo uns aos outros. Limitávamos nossa capacidade de compor e tocar ao termos que encaixar tudo em algum tipo de formato. Por isso aconteceram os problemas. Quando chegamos ao ‘Let It Be’, não conseguíamos mais jogar o jogo. Podíamos enxergar as disposições uns dos outros, e logo ficou desconfortável, porque até ali acreditávamos intensamente naquilo que fazíamos e no que lançávamos. Tudo tinha que estar na medida. De repente não acreditávamos mais. Chegamos a um ponto onde não existia mais magia criativa.”

Beatles - Foto 3

Fontes:

1. http://whiplash.net/materias/curiosidades/084722-beatles.html

2. http://www.riffola.org/georgeleaves.html

3. Texto original do livro “Anthology”, enviado a mim pela Lizzie Bravo:

“PAUL: After George went we had a meeting out at John’s house, and I think John’s first comment was, “Let’s get Eric in”. I said “No!” I think John was half joking. We thought, “No, wait a minute, George has left and we can’t have this – it isn’t good enough”.

Depois que George foi embora tivemos uma reunião na casa do John e acho que o primeiro comentário dele foi “Vamos chamar o Eric”. Eu disse “Não!”. Acho que o John estava de brincadeira. Pensamos, “Não, peraí, o George foi embora e não vamos aceitar isso – assim não tá bom”.

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3 respostas em ““Let it Be” e o segredo revelado no Anthology.

  1. Nem acho que foi uma atitude intenpestiva do John, foi uma piada mesmo, coisa de humor típico de Liverpool. Os Beatles sempre foram e serão John, Paul, George e Ringo.

  2. É complicado ter uma banda de Rock ou qualquer tipo de relacionamentos com pessoas Os caras se Aturaram por muito tempo deixado seus legado para todos que tudo de bom um dia tem fim , e um novo ciclo de vida Acho que a convivencia entre eles desgastaram cada um inventava algum pretesto para terminar o ser humano é complicado coloca-se 4 pessoas em algum lugar fechado é problema .

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