A História dos Megatons, uma banda de Rock dos anos 60!

Em 1964, ao constatar que seus companheiros do conjunto The Jet Black’s lhe puxaram o tapete, quando do seu retorno a São Paulo, após passar meses internado em um Sanatório em Campos do Jordão, em tratamento, Joe Primo decide criar um novo conjunto, que chamou de Os Megatons.
O primeiro LP da banda foi exclusivamente instrumental, lançado pela gravadora Phillips em 1964.

Alfredo Borba, respeitadíssimo diretor artístico da gravadora Phillips, lançador de inúmeros artistas de renome mundial, deu seu aval para que Joe Primo gravasse com seu novo conjunto na gravadora, e o conjunto ainda teria que ser formado, instrumentos musicais comprados, repertório de 12 músicas escolhido, local para ensaios, mas a gravadora estava garantida.

Foi assim que Joe Primo falou com seu irmão Luizinho, que morava na Vila Nossa Senhora das Mercês, e o convidou para ser integrante do novo conjunto de rock, tocando a guitarra. Luizinho tinha contato com Renato, também ótimo guitarrista, que foi convidado para fazer uma dupla de guitarras com ele, que aceitou o convite. Faltava somente o baterista e Renato lembrou-se de um amigo que morava na Mooca, de nome Edgard. Este foi convidado e também aceitou, então estava assim formado a nova banda de rock, como conta Primo Moreschi em seu livro, “O Protagonista Oculto dos Anos 60”, nas Páginas 133 a 161.

Os Megatons

“Renato tinha uma guitarra, uma tenor elétrica de cinco cordas, que, no frigir dos ovos, acabou virando contrabaixo. Bastou apenas trocar as cinco cordas de guitarra tenor por cordas de contrabaixo para aflorar um som com características totalmente dissonantes, vindo ao encontro do que idealizei. Nossos instrumentos, de uma forma geral, primaram pelo improviso. O que interessava naquele momento era aprimorar o desempenho das guitarras para que, quando estivessem executando uma peça juntas, dessem ao ouvido a impressão de ser somente uma guitarra. Com essa inovação, nosso som seria um misto de The Byrds com Beatles, estilizado, procurando explorar ao máximo a agilidade manual invejável dos nossos guitarristas. Em comum acordo, escolhemos o nome do conjunto de rock: Os Megaton’s. Durante esses ensaios, por se tratar de duas guitarras que, na maioria das vezes, faziam o papel de uma, havia a necessidade de uma guitarra base para fazer os acompanhamentos. O neto da dona da pensão, um rapaz de 16 anos, mais ou menos, brincalhão e companheirão nosso, vivia mexendo com os instrumentos, propondo-se até ser nosso carregador de instrumentos para poder frequentar o meio artístico. Entreguei o contrabaixo em sua mão e passei a tocar provisoriamente a guitarra base. Agora, o som estava começando a atingir o que almejávamos. Passamos, então, a utilizar para nossos ensaios o salão da Empresa de Transportes Estrela do Norte, gentilmente cedido pelo meu grande amigo comendador José Morgado. E muitos ensaios.
Dentre as músicas que mais ensaiávamos, destacava-se o “Voo da abelha”, por se tratar de ser uma peça cuja execução requer muita agilidade nos dedos, o que muito credencia e qualifica o artista que a alcança. Eu a escolhi dentre as demais porque, quando de nossa aparição de estréia em público, com certeza iríamos ser questionados quanto à capacidade técnica e artística dos integrantes. Eu acreditava que a qualidade de sons diferenciados dos demais conjuntos de rock existentes na época nos dissociaria das mesmices, o que realmente aconteceu, e o público nos elegeria – como nos elegeu, um grupo sui generis. Pensando em todos esses detalhes, que pesquisamos exaustivamente, ensaiamos as 12 músicas escolhidas, aceitando sempre que possível a opinião de Serginho de Freitas e Bobby de Carlo, nossos maiores incentivadores, que, volta e meia, estavam nos vendo ensaiar e nos dando seus abalizados conselhos. Levamos praticamente 30 dias para preparar os arranjos. Feito isso, disse para Serginho que estávamos prontos para entrar em estúdio e gravar. Passamos nos escritórios da gravadora Phillips e conversamos com Lessa. Ele entrou em contato com o diretor artístico Alfredo Borba, que autorizou Serginho de Freitas ser o produtor do nosso disco. O estúdio de gravação que usamos, por coincidência, foi o mesmo em que eu gravei com o Jet Black’s no início. Quando estávamos iniciando as gravações, Alfredo Borba entrou no estúdio, deu uma olhada geral e passou o bastão para Serginho continuar com as gravações. Quem estava na técnica de som, manipulando aquela infinidade de controles operacionais top de linha daquela época, era Ghaus, profissional respeitadíssimo por artistas e gravadoras. Com a colaboração de Ghaus, só não fazíamos chover, mas sons diferentes extraíamos a nosso bel prazer – isso com apenas dois canais –, coisa que o público jovem sabia reconhecer e à qual dava valor. Tudo foi gravado na maior tranquilidade, sem necessidade de playback. Terminadas as gravações, fomos diretos para a sessão de fotos que comporiam a capa do LP dos Megaton´s. Várias fotos foram tiradas, em diversos lugares, tanto para o disco como para fins promocionais.
Passados alguns dias, soube por meio de Edgar, nosso baterista, que alguém de sua amizade disse-lhe ter ouvido uma emissora de rádio tocar o “Vôo da Abelha”, com o conjunto de rock Os Megaton’s. Quase não acreditei. Imediatamente, fui até a casa de Serginho de Freitas, pois ele morava a três quadras de minha pensão, procurar saber se ele tinha conhecimento daquela notícia. Com a maior naturalidade, Serginho mostrou-me uma relação enorme de emissoras de rádio, inclusive com os horários em que seus programas de rádio iriam executar o “Vôo da Abelha” com Os Megaton´s. Com um radinho portátil em sua mão, sintonizou a Rádio Bandeirantes, que transmitia naquele momento o programa de Luís Aguiar denominado “Os Brotos Comandam”. Ele estava acabando de anunciar Os Megaton’s tocando o “Vôo da Abelha”. Ao fim da execução, o apresentador deu um “alô” para mim, mais ou menos nesses termos: “Ôôôô, Joe Primo, parabéns pela excelente gravação! Isso vem demonstrar que quem foi rei nunca perde a majestade. Nós estamos com saudades de você e de nossas brincadeiras. Traga Os Megaton’s para batermos aquele papo. Alôooo, Nassura! Como vai a gordura?” Essa é tanto para o Luís quanto para o Nassura – empresário de shows de Mato Grosso, sempre tratado com carinho por Aguiar –sentirem saudades. Serginho me disse que a Gravadora Phillips não brincava em serviço. Quando de um lançamento, como no caso d’Os Megaton’s, o novo conjunto de rock do Joe Primo, que o meio radiofônico estava ansioso por conhecer, nada melhor que distribuir a todas as emissoras de São Paulo a “bolacha” do grupo, porque o trabalho de divulgação havia sido feito antecipadamente por nós.
À medida que “O Vôo da Abelha” ia sendo executada, os elogios à técnica e agilidade empregadas por Luizinho se tornaram comuns entre guitarristas de conjuntos de rock. Alguns chegaram a pensar que fosse montagem de gravação. Quando nos apresentávamos em programas de televisão, eram raras as vezes que alguém não questionasse se aquela agilidade de nosso guitarrista era real. Certa vez, ainda na TV Excelsior, fomos convidados a participar de um dos programas do Chacrinha, no qual também se apresentou Roberto Carlos, entre tantos outros artistas da época. Estávamos atrás da coxia aguardando o apresentador dar a deixa para entrarmos no palco para tocar, quando um ajudante de cenografia forçou uma passagem em cima de Renato, que praticamente estava se equilibrando tal qual malabarista, devido à falta de espaço, derrubando-o. Sua guitarra bateu a parte das cravilhas na madeira lateral de um tapume, e ele bateu com a boca na quina do instrumento. Até aquele exato momento, tinha pra mim que Renato fosse uma pessoa calma e pacata, mas eu estava tremendamente enganado. Ao perceber que sua guitarra desafinou e havia se machucado, nosso guitarrista partiu para cima do ajudante de cenografia dando-lhe bofetões. Outros funcionários da emissora intervieram em defesa do cenógrafo, obrigando-nos a também entrar em defesa do Renato, criando com isso o maior tumulto atrás dos cenários, sobrando sopapos até para o lado do auditório. Devido à maneira de Chacrinha apresentar seu programa, praticamente no improviso, o público pensou que fazia parte do show costumeiro. Mesmo assim, nós nos apresentamos, sendo chamados pelo apresentador como “o maior conjunto de rock do Brasil” e recebendo o maior carinho da plateia ali presente. Pensei que fôssemos ter algum revide na saída da televisão, mas errei, não ouve nada. Essas cenas devem estar nos arquivos dos programas do Chacrinha.
No sábado seguinte, fomos convidados a participar do programa de Ayrton e Lolita Rodrigues, “Almoço com as Estrelas”. Comparecemos trajando smoking, gravatinha borboleta e tudo mais que tínhamos por direito e obrigação, por conta do prestígio e liderança de audiência que o programa do Ayrton e da Lolita desfrutava no horário, com transmissão todas as tardes de sábado pela P.R.F.3, TV Tupi, canal 3. Tocamos nossa música de trabalho, “O Vôo da Abelha” e recebemos muitos elogios por parte de Ayrton Rodrigues, que valorizou demais a agilidade de nossos guitarristas. Os elogios tornaram-se uma constante em nossas apresentações, enchendo-nos de orgulho e satisfação por termos cumprido nosso “dever de casa”. Dentre as pessoas (fãs) que gentilmente acercavam-se de nós para pedirem autógrafos, um senhor, dono de um boliche, atividade que estava muito em moda em São Paulo, convidou-nos para tocar em seu estabelecimento. Achei um tanto esquisito tocarmos num boliche. Mas, como a proposta de pagamento por nossos serviços era relativamente boa, aceitamos. Assim, iniciamos outra modalidade de atração, ou seja, boliche com música ao vivo. Quando começamos a tocar no local, ficamos até meio receosos, devido a não haver praticamente ninguém. Qual não foi meu espanto, porém, quando, no começo da segunda música, olhei a nossa volta e notei que não parava de chegar cliente, aumentando a platéia a ponto de atrapalhar o trânsito na rua, para nos ver tocar! E o público participava, cantando conosco. Foi uma consagração. Desse dia em diante, a moda pegou. Todo boliche passou a ter um conjunto de rock.
Havia vários cantores que queriam gravar com acompanhamento d’Os Megaton’s. Só não nos dispúnhamos a gravar com a maioria porque Renato somente tocava conosco se respeitado o quesito de não interferir em seu emprego, que ele priorizava. Não dependíamos da música para viver, ou seja, tínhamos o conjunto praticamente como um hobby – cada músico tinha outro meio de sobrevivência – e procurávamos não ser antipáticos com quem quisesse gravar com Os Megaton’s. Na medida do possível, nós o fazíamos com o maior prazer. Em certo dia de ensaio, passando diante da casa de Serginho de Freitas, ele me disse que estávamos agradando com essa inovação de tocar e cantar. Disse-me também que havia uma pessoa que eu iria gostar de conhecer. Foi assim que me apresentou uma figura, com quem, de cara, simpatizei. Falava mais do que a boca. Tão magro, que, de frente, parecia estar de lado; de lado, parecia ter ido embora. Serginho cochichou ao meu ouvido, usando aqueles seus trejeitos característicos de falar com as pessoas: “Conhecias o bom Bitão?” Estranhando o nome, mas concordando, estendi a mão. Ele disse se chamar Wagner Tadeu Benatti, vulgo Bitão. Serginho, com a mão em volta de meu pescoço, perguntou-me: “Deixa o amiguinho assistir aos ensaios dos Megaton’s?” Respondi: “Oh, Serginho! Você manda, não pede, vamos lá!” No caminho, o amigo me informou que Bitão cantava, tocava e compunha. Quase chegando ao local de ensaio, encontramos Bobby de Carlo e seguimos todos juntos.
Depois das apresentações, começou um festival de gozações costumeiras que os integrantes dos Megaton’s, normalmente, costumavam fazer, imitando bêbado. Bitão também pegou a mania e, daí pra frente, se algum estranho nos visse, pensaria que estávamos todos embriagados. Após nos divertirmos pra valer, o novo amigo mostrou algumas de suas composições, ao mesmo tempo acompanhando-as, demonstrando muita versatilidade e desenvoltura. Cativou todos os componentes dos Megaton’s. Convidei-o para participar do conjunto. Serginho de Freitas perguntou para Bobby di Carlo se ele gostaria de gravar uma das músicas de Bitão. Bobby logo disse que sim. A música de que Sérgio mais gostou, tendo-a sugerido a Bobby que a ensaiasse para gravar, comigo na segunda voz, chamava-se “Tijolinho.” Naquele dia mesmo, começamos a fazer os arranjos. Ensaiamos até a exaustão, procurando criar um som nas guitarras que nos diferenciasse de todos os conjuntos existentes na época. Conseguimos um som que lembrava em muito o The Byrds. Tendo encontrado o que procurávamos para nos distinguir, restava-nos testá-lo em gravações e em público, o que não demorou a acontecer. Em contato com a gravadora Odeon, Serginho de Freitas, recebeu de Tony Campello, em meados de agosto ou setembro de l966, a informação de que queria gravar com Os Megaton’s cantando duas composições de Bitão. Ficamos muito contentes, principalmente, por termos sido lembrados e convidados a gravar por Tony Campello, produtor da gravadora.
Em meados de setembro de l966, entramos em estúdio e gravamos “Tarzan” e “Viajando”, pela Odeon, com produção de Tony Campello. Quatro meses antes, ou seja, em maio de l966, a gravadora Polidor havia lançado uma coletânea com Os Megaton’s, The Fevers, Os Vickings, Os Inocentes, Os Santos, Roberta, Roberto Rei, Os Golden Boys, etc. Como não sabíamos desse lançamento, deixamos de trabalhar esse LP; não fomos avisados em tempo hábil. Acabamos gravando outro compacto pela gravadora Odeon quase simultaneamente ao lançamento do disco coletivo da Polidor. Se tivessem me avisado, eu adiaria a gravação do compacto para me debruçar sobre a divulgação primeiramente do LP “O Fino para a Juventude”. Ter amigos no meio artístico era comigo mesmo. Sem querer me gabar, artistas renomados praticamente imploravam para gravar um disco, ao passo que eu recebia convites e mais convites para gravar, que tanto vinham das gravadoras como também dos cantores que queriam o acompanhamento d’Os Megaton’s.
Mal tínhamos gravado nosso compacto pela Odeon e já estávamos fazendo os arranjos musicais com Bobby de Carlo para gravar “O Tijolinho”, de Wagner Tadeu Benatti, no qual eu faria a segunda voz. Em alguns dias, estávamos com os arranjos prontos. Serginho de Freitas foi o produtor. Entramos em estúdio e regulamos, como de costume, o volume das guitarras para conseguir o som que durante nossos ensaios elegemos como o melhor. Logo na primeira, para teste, todos acharam que já era a boa, – fala de técnico de gravação. Todos os presentes eram só elogios à qualidade de arranjo, bem como ao som que conseguimos extrair das guitarras. Os elogios se estenderam por todo o meio artístico. Quase todos os cantores diziam que queriam gravar com Os Megaton’s. Dentre eles, Marcos Roberto, que chegou a compor uma música exclusivamente para nós gravarmos, intitulada “Cuidado”. Essa canção foi registrada num disco em cujo verso gravamos “Só penso em meu bem”, de um compositor amigo, do bairro do Canindé, gente da nossa patota, que apelidamos Lhe, por ele ser filho de libanês. Também gravamos o – acompanhamos – quando gravou seu compacto de estréia. Antes, gravamos “Meu machucadinho” e “Nelma”, composições de Bitão.
Certo dia, apresentando-nos no programa do Luiz Aguiar na Rádio Bandeirantes, “Os Brotos Comandam” nosso baterista, Edgar, começou com aquela brincadeira de imitar bêbado, caindo nas graças do apresentador, que deu corda e também acabou, sem querer, fazendo a entrevista como se também estivesse embriagado. A alegria tomou conta de todos, tanto dentro dos estúdios, quanto entre a assistência. Dos que estavam do lado de fora do estúdio, davam boas risadas Odair Batista, Umberto Marçal, José Paulo de Andrade e outros integrantes do elenco milionário que fazia parte da Rádio Bandeirantes, naquela época começando também como emissoras de TV. Nos corredores que levavam aos departamentos recém construídos, cruzávamos com todos que trabalhavam lá e recebíamos um carinho fora do comum dos que se dirigiam a nós, o que retribuíamos. Por ocasião de nos apresentarmos nos vários programas da época, Luizinho já ficava sentado ao lado do José Paulo de Andrade, dentro do estúdio. Nos intervalos que normalmente o apresentador tem, entre uma e outra gravação, conversavam e contavam causos, esquecendo que estávamos ali para entrarmos no ar de uma hora para outra. Isso nos obrigava, ás vezes, a sair correndo pelos corredores, dando trombada com todo mundo. Tudo isso era encarado pela “família Bandeirantes de Rádio e TV” com uma alegria e efusividade, que, desde o porteiro até João Sahad, só faltavam estender um tapete vermelho para que passássemos. Tempos que trazem muita saudade.
Como Serginho de Freitas também era disc-jóquei da Rádio América, que nessa época funcionava ao lado do estúdio da Rádio Bandeirantes, no mesmo prédio recém-construído, nosso contato era freqüente, facilitando nossa agenda de compromissos de gravações ou de apresentações, que recebíamos por seu intermédio. Certo dia, Serginho me avisou que tínhamos um convite para o programa “Pequeno Mundo de Ronnie Von”, junto com Bobby di Carlo. Foi a primeira vez que Os Megaton’s se apresentaram na televisão acompanhando Di Carlo tocando “O Tijolinho”, de Bitão, com o autor acompanhando o criador do arranjo e eu fazendo a segunda voz, conforme a gravação original. Nem Ronnie Von sabia disso. O produtor do programa era o Randal Juliano, apresentador do “Astros do Disco”, que tempos atrás me apresentou, defendendo o compacto mais vendido do The Jet Black’s, quando eu ainda fazia parte do conjunto. Por coincidência, ele apresentou em seu programa os verdadeiros organizadores e lançadores do The Jet Black’s, que o fizeram por força de um compromisso moral com o radialista Antônio Aguilar. Agora unidos em um novo grupo, com sucesso crescente nas paradas de sucesso, recebíamos o reconhecimento dos fãs das inovações de sons extraídos das guitarras e dos arranjos d’Os Megaton’s. Vez em quando, convidavam-nos a nos apresentarmos no “Pequeno Mundo de Ronnie Von”, que comumente cantava ao som do conjunto Baobás. Lá tivemos o prazer de conhecer também uma cantora de nome Decalaf, que tinha tudo para ser um grande sucesso, mas, de quem, sem explicação, nunca mais tivemos notícia no meio artístico.
Durante uma das apresentações no programa do Ronnie Von, fomos convidados a participar do programa da Hebe Camargo. Para a costumeira entrevista que a apresentadora fazia com seus convidados, ela chamou a mim e ao Bitão, que, muito novo, com apenas 15 anos, tornava-se um prato cheio, uma grande atração. Inteligentíssima, Hebe tirava o máximo proveito dos ímpetos e trejeitos de Bitão, transformando cada pergunta em um festival de gargalhadas. Depois de explorar ao máximo aquela entrevista, ela nos disse: “Como vocês dois fazem também composições às vezes em parceria, hoje, vocês terão que demonstrar isso. Entrem lá numa sala especial, totalmente indevassável, na qual vocês irão compor uma letra e música, para, em seguida, cantá-la aqui em público. Ah, vocês concorrerão com outro compositor, que ficará em outra sala. Lá fomos nós para aquela “boca torta”. Digo isso porque nem de leve poderíamos imaginar que seríamos expostos daquela maneira, sem ninguém ter nos avisado antes. Compor e cantar em dueto sem tempo de decorar um mínimo da melodia recém-criada? É um verdadeiro furo n’água, que só não recusei movido pela euforia daquele momento mágico. Só o fato de estarmos nos apresentando no programa da Hebe Camargo já provava aos meus desafetos que, como fiz com o Jet Black’s em tempos idos, estava novamente fazendo, agora com Os Magaton’s, sendo visto e entrevistado no programa de maior audiência da TV brasileira. Era uma vitória em nossa carreira, com a qual todo artista daquela época sonhava. Quanto ao concurso, perdemos.
Devido ao sucesso de “O Tijolinho”, entramos novamente em estúdio para gravar agora mais 12 faixas com Bobby De Carlo, dessas 12, duas comigo fazendo a segunda voz, “A Boneca que diz não” e “Teimosa”. Enquanto gravávamos o LP de Bobby, aproveitamos para gravar outro compacto contendo uma composição de Marcos Roberto, intitulada “Cuidado”, e, na outra face, “Só penso em meu bem”, de autoria de Lhe, inclusive um acompanhamento musical de Marcos Roberto cantando “Vai Embora Daqui”, composição sua que se tornou praticamente seu carro-chefe, devido ao sucesso. Toda vez que Marcos Roberto se apresentava em uma rádio com esse disco, nunca se esquecia de dizer que Os Megaton’s tinham feito tanto os arranjos quanto o acompanhamento. Sempre que podia, ele procurava nos enaltecer, dando-nos qualidades até além do que merecíamos. Marcão, aceita um abração do amigão? Então, sinta-se abraçado. Uuupa!
No segundo semestre de 1967, urante uma apresentação dos Megaton’s cantando “Meu machucadinho” na TV Bandeirantes, Sérgio Galvão e Débora Duarte convidaram-nos para fazer laboratório, nome usado pelos artistas, principalmente atores e comediantes, quando querem testar algo antes de ser exposto ao público. Elaboramos pequenas aparições com a intenção de fazer graça no meio das músicas que tocaríamos durante um programa com direção do renomado Caetano Zama. Até hoje, quando me lembro, quase não acredito que tivemos como diretor, colaborador, incentivador e orientador, para que pudéssemos lançar um programa com tantos altos e baixos; esse monstro sagrado respeitado e cultuado pelos seus dotes artísticos e culturais invejáveis. Só para se ter uma idéia do espírito criativo dessa fera, naquela época ele pesquisou a área e idealizou Os Megaton’s fazendo aparições, tocando e cantando, em diversos lugares sui generis, tais como, em cima de um ônibus andando, em cima do prédio da TV Bandeirantes, sobre postes de transmissão de energia elétrica da empresa Light, mil e um lugares quase impossíveis de enumerar. Isso tudo era feito por um cinegrafista que passava os dias inteiros filmando em table tops, modalidade de filmagem na qual o cinegrafista filma takes de dois segundos em dois segundos, com pausas para mudar de local, numa seqüência sincronizada. Ao ser exibida a gravação junto à música, vê-se uma movimentação numa rapidez extraordinária; não se consegue acompanhar e imaginar como pode alguém cantar a mesma melodia em lugares tão diferentes ao mesmo tempo. Na época, essa inovação de Caetano Zama nos colocou como o centro das atenções do programa “Quadrado e Redondo”, o que nos mantinha ocupados de quatro a cinco dias da semana com filmagens, boa parte dentro da própria TV Bandeirantes, nos altos do bairro do Morumbi, em São Paulo, outras em externas em algum lugar pitoresco sugerido por nós ou a mando de Zama. Quando terminávamos de gravar o que seria exibido aos sábados à tarde pela TV Bandeirantes, mal tínhamos tempo de jantar e já estava na hora dos ensaios, na Transportadora Estrela do Norte.
Os ensaios não se resumiam a nosso próprio repertório. Zama dava-nos compactos importados dos Monkey´s (Bus Stop), Rollyng Stones, Beatlles, etc., para que tocássemos suas músicas. Bitão e Sodinha (Antônio Carlos) tiravam praticamente de letra quase todas, porque almoçavam, jantavam e dormiam ao som desses discos. As gravações das músicas no estúdio da TV Bandeirantes tinham no som o técnico Índio, que sabia tudo de recursos de gravações e conseguia realizar o que idealizávamos. Deve-se também a sua colaboração técnica o sucesso que alcançávamos nas gravações iam ao ar nas tardes de sábado, conseguindo um ibope que a emissora jamais havia pensado que conseguiria alcançar. Quando circulávamos pelos corredores da TV Bandeirantes em dias que não estivéssemos gravando, maquiladores, maquinistas e operadores de boom (corpo técnico que cuidava do programa “Quadrado e Redondo”), sem exceção, davam aqueles tapinhas de satisfação em nossas costas, dando-nos parabéns pela audiência alcançada. Recebíamos aqueles elogios com muita humildade, mas, no fundo, sabíamos que havíamos feito por merecer, portanto, nada mais justo do que, pelo menos, o reconhecimento do público, para confirmar que estávamos no caminho certo. Só faltou mesmo uma compensação financeira.
De repente, surge Serginho de Freitas com um monte de compactos importados em baixo do braço em direção ao seu programa pela Rádio América. Chamou-me de lado e, em tom de voz bem baixo, disse-me que tinha um carinha que queria aparecer nos nossos ensaios no Canindé. Perguntei quem era, mas ele fez questão de não dizer. No dia seguinte, no momento em que ensaiávamos uma das músicas que gravaríamos para o “Quadrado e Redondo”, eis que aparece Serginho, com dois rapazes. Nas apresentações, um disse se chamar Antônio Marcos, e o outro, Mário Marcos. Serginho me falou que ele queria gravar um disco com arranjo e acompanhamento dos Megaton’s. Respondi que sim e perguntei qual seria a música. Antônio e Mário, então, cantarolaram um pouco da canção “Um amor melhor que o seu”. Passamos aquela noite inteira de ensaios procurando criar um arranjo que tivesse algo de diferente, como era nossa marca registrada. Naquele momento, ainda não estava bem ao meu gosto. Disse ao Serginho que precisávamos de mais alguns ensaios com o Antônio Marcos para encontrarmos um som e balanço que ficassem a contento tanto do conjunto, quanto do compositor. Como o estúdio que usaríamos para gravar – RGE, na Rua Paula Souza – estava com a agenda lotada, aproveitamos para ensaiar de dois em dois dias, determinados a lapidar seu arranjo tal qual uma jóia. Quando terminavam os nossos ensaios, acompanhávamos Antônio Marcos até o ponto de ônibus. Nessa época, ele morava na vila Matilde, tinha de tomar duas conduções para chegar a sua casa. Nas brincadeiras que surgiam enquanto esperávamos o ônibus, certa vez, Serginho pegou no pé dele, fazendo-o mostrar um dos sapatos que estava usando, com um pequeno furo na sola. Serginho, segurando o pé de rapaz, dizia pra mim: “Primão, o Marquitcho está desviando de ponta de cigarros, meu! Nós precisamos gravar esse disco dele de-pres-si-nha, senão o amiguinho vai vir ensaiar de chinela!” Antônio Marcos pegava-o pelo pescoço, fingindo enforcá-lo, chacoalhava-o, rindo e dizendo: “Ô, rapaaaz! Você está me es-cu-la-chan-do?” E continuava a brincadeira dando uma gravata com o braço em volta do pescoço de Serginho, até que ele pedisse desculpas. Os dois depois se abraçavam, e a turma d’Os Megaton’s quase morria de tanto rir. Assim, nesse clima de amizade e alegria, criamos um arranjo para acompanhar Antonio Marcos em seu primeiro disco solo e, ao mesmo tempo, marcar época, tanto no jeito de bater com a palheta nas cordas das guitarras, como na maneira diferente de tocar o contrabaixo. A exemplo de “O Tijolinho”, com essa gravação fizemos escola, que foi seguida por outros conjuntos.
Gravamos nos estúdios da gravadora RGE, naquela época situada na Rua Paula Souza. Quem estava na técnica de som, por coincidência, era o Ghaus, que tempos atrás foi técnico no estúdio da Gravodisc, onde gravei com o The Jet Black’s. Depois, eles apagaram a gravação e a refizeram, com outro em meu lugar, demonstrando cabalmente o quanto eram frios e calculistas, minando sob todos os aspectos a hipótese de que qualquer benefício pudesse me advir. Como meus princípios sempre foram de trabalhar com honestidade e responsabilidade, nunca enganando ou me aproveitando de ninguém, sempre acreditando e confiando nas pessoas, fui vergonhosamente passado para trás. Vi todo um projeto de vida que batalhei para conseguir ser usufruído por outros. Os louros e lucros que seriam meus por direito foram consumidos pelas cobras criadas por mim. Acho que só criei cobras para me picar.
No caso da música de Antônio Marcos, entramos em estúdio, gravamos algumas vezes até ficar sem defeito nenhum e, em cima dessa gravação, eu ainda pus um playback tocando órgão, ou seja, toquei contrabaixo e órgão no acompanhamento. Nós, d’Os Megaton’s, não ganhamos nem um centavo para fazer o arranjo nem para acompanhar a canção “Um amor melhor que o seu”, que acabou se tornando o primeiro sucesso que Antônio Marcos obteve em sua carreira de cantor, abrindo-lhe todas as portas para sua ascensão meteórica no estrelato. Infelizmente, Antônio Marcos nem ao menos uma vez, dentre tantas e tantas entrevistas, citou meu nome ou o d’Os Megaton’s, o que nos daria o prazer de ver e ouvir, pelo menos uma vez, o reconhecimento de nosso desempenho como arranjadores e conjunto instrumental que gravou seu primeiro sucesso.
Durante as gravações diárias do programa “Quadrado e Redondo” pela TV Bandeirantes, num dos poucos momentos em que parávamos de gravar os table tops que seriam exibidos no sábado, como era de costume, Sérgio Galvão e Débora Duarte, também partes integrantes do programa, ficaram eufóricos porque recebemos a notícia de que a atração ganhara mais tempo de duração, devido à audiência alcançada. Bitão virou-se pra mim e disse: “Joe Primo, se o Serginho ainda tivesse o conjunto dele, Os Mutantes, nós poderíamos chamá-los para participar de nosso programa.” Resolvemos ir até a casa de Sérgio, que gostou do convite e ficou muito satisfeito. Disse que fazia algum tempo que estava sem se apresentar em TV e costumava assistir ao “Quadrado e Redondo”, considerando-o “super pra frente”. Desse dia em diante, Os Mutantes passaram também a participar do programa, que também já contava com Tim Maia, naquela época ainda batalhando por um lugar ao sol.
Num dos programas, com Tim Maia já diante das câmeras para começar a cantar, Luizinho viu-se em palpos de aranha para conseguir acalmar os ânimos de uma senhora que se dizia ser dona da pensão que o cantor morava. Ela queria a todo custo invadir o programa justamente quando estivesse se apresentando, para lhe cobrar um aluguel. Luizinho conseguiu segurá-la. Imaginem o estrago que ele conseguiu impedir. Ao término da apresentação, Tim não tinha palavras para agradecer o favor recebido. Como a amizade reinava entre todos os integrantes do programa, esse foi mais um dos casos corriqueiros que se passaram entre nós.
Havia um rapaz, de nome Natan, que se uniu a nós como fã e amigo, ajudando a carregar instrumentos e entrando em estúdio de gravação conosco. Às vezes, acabava até gravando uma pequena participação nos programas, chegando a dar a impressão de que fazia parte do conjunto. Ele tinha um DKW, que se prestava a nos transportar para quase todos os lugares onde tivéssemos compromissos artísticos; nós colaborávamos com o combustível. O carro muitas vezes tinha de transportar até sete pessoas, porque Antônio Carlos, o Sodinha, integrante dos Megaton’s, namorava a Débora Duarte. Como a única condução que tínhamos era o DKW, não havia outro jeito, enfrentávamos essa verdadeira “boca torta” do bairro do Morumbi até o bairro do Pari. Somente quem conhece São Paulo pode avaliar a duração do aperto. Outra pessoa que convivia muito conosco era Alberto Luiz, um menino magrinho, com idade entre l8 e 20 anos, que tinha uma voz muito parecida com a do Roberto Carlos. Várias vezes eu o aconselhei a imitá-lo. Naquela época, ainda não havia aparecido essa legião de imitadores, portanto, quem o fizesse seria sucesso. Alberto Luiz também compunha, mas, devido a seu pouco conhecimento no meio artístico, encontrava muita dificuldade de mostrar suas composições. O que mais impedia que isso se realizasse era sua timidez e o receio de receber uma desfeita por parte de algum artista. Às vezes, cantarolávamos nossas composições um para o outro, durante os intervalos das gravações do nosso programa Quadrado e Redondo. Na sua humildade, ele demonstrava esse lado tímido, que aos poucos foi diminuindo, graças ao jeito brincalhão de todos os integrantes d’Os Megaton’s. Aquela nossa maneira de brincar com as pessoas, fingindo falar como quem estivesse bêbado, contagiava a quase todos da Rádio e TV Bandeirantes. Nos corredores da emissora, bastava qualquer um dos membros do conjunto cruzar com quem quer que fosse que já começava, tanto um como o outro, a falar como embriagado, praticamente como se fosse uma saudação.
Certa vez, Luiz Aguiar nos apresentou a Nalva Aguiar, dizendo-nos de seus dotes vocais. Naquela época, ela nem ao menos sonhava que iria gravar um disco, o que, aliás, não tardou a acontecer, e a cantora transformou-se num dos grandes sucessos fonográficos da época. Nesse dia, estávamos parados diante de um vidro que dividia o corredor dos estúdios da Rádio Bandeirantes, que naquele momento tocava a música “Coração de papel”. Eu disse para Luiz Aguiar que quem havia feito essa produção foi o mesmo produtor do nosso disco pela Gravadora Odeon, ou seja, Tonny Campello, que produziu nosso compacto simples “Tarzan”. Mal acabei de falar, Aguiar respondeu: “E quem canta está vindo ali”, apontando para Sérgio Reis, que parecia um bezerro desmamado, de tanto que chorava. Serginho de Freitas, brincando, pôs a mão no ombro de Sérgio Reis e, dirigindo-se a mim e a Luiz Aguiar, disse em tom de gozação: “Vocês sabem por que o amiguinho está chorando? É porque ele não encontrou a Lanna!” Nesse instante todos caíram na gargalhada, contagiando também Sérgio Reis, que ria e chorava ao mesmo tempo. O motivo da piada era que, tempos atrás, eu devia gravar mais um disco para cumprir meu contrato com a Gravadora Continental, cujo diretor artístico, Palmeira, sugeriu que eu gravasse a versão de uma música de nome “Lanna”. Passado algum tempo, essa mesma música foi lançada com gravação de Sérgio Reis, que a trabalhou muito, cantando e pedindo para tocá-la. Bem no começo da letra, diz-se: “Procuro por Lanna, que é meu amor, que se foi, sem adeus.” Já o motivo do choro de Sérgio Reis era porque sua mais recente gravação, “Coração de papel”, tinha entrado nas paradas de sucesso, consolidando com isso seu nome em letras maiúsculas (à altura de seu tamanho) no cenário nacional, abrindo-lhe todas as portas para o estrelato. Choro de alegria, de quem conseguiu se realizar naquilo que se propôs a fazer, diga-se de passagem, com louvor. Depois de todas as brincadeiras, todos começaram a dar os parabéns para Sérgio Reis, enaltecendo seu trabalho incansável, com Luiz Aguiar levando para o ar, em “Os Brotos Comandam”, toda aquela rasgação de seda.
Jorge Helau – disc-jóquei da Rádio América – gostava muito de jogar conversa fora com os integrantes de Os Megaton’s. Chegava, às vezes, com cara de poucos amigos para o nosso lado, e começávamos a indagar qual foi o bicho que o havia mordido. Depois de muita insistência de nossa parte, acabava dizendo que não estava legal porque havia se desentendido com a namorada. Nesse ponto, entrava Luizinho, dando uma de consultor para assuntos amorosos, e dizia: “Mas, Jorge, isso é um fato comum entre duas pessoas que se amam. Sabe como você deve fazer? Peça desculpas a ela e etc., etc., etc., entendeu?” Responde o Jorge: “Rapaz, não é que você está certo?” E lá iam os dois discutindo o sexo dos anjos pelos corredores afora. A moral que tínhamos por causa do programa “Quadrado e Redondo” colocava-nos num pedestal tão alto, que eu próprio não acreditava. Mesmo tendo sido meu objetivo, vendo-o se realizar, sentia não ser merecedor de tantos privilégios, bem como tudo o que estava se passando comigo. Achava ter ainda muita coisa para explorar, oferecer e levar ao encontro de todos que confiaram em mim e acreditaram em minhas idéias, quer como colaborador ou espectador. Ainda nesse clima de euforia, Sérgio Reis, chamando-me de lado, convidou a mim e aos Megaton’s para acompanhá-lo em shows. Era um convite irrecusável se não tivéssemos o compromisso do programa “Quadrado e Redondo”, que absorvia quase todo nosso tempo, principalmente aos sábados, quando se realizam 90% dos espetáculos nos quais teríamos de acompanhá-lo. Expliquei a ele e lamentei não poder aceitar. “Que pena, Serjão, fica para outra, tá?” Nessa, deixamos passar o cavalo encilhado.
Aproveitando o ensejo de fazer uma apresentação no nosso programa, eis que ao meu lado, pondo a mão em meu ombro, surge Jerry Adriani, com uma carinha de quem quer “tirar uma casquinha”, e me diz, sarcástico: “Oh, Joe Primo, você se lembra de quando me rejeitou nos testes que você fazia para o programa ‘Ritmos para a Juventude’, do Antônio Aguilar? Olha eu aqui. O que você tem a me dizer?” Respondi: “Tenho a dizer que você continua cantando pelo nariz e, mesmo depois de ter gravado um disco, não sei como, está dependendo de se apresentar em meu programa, como no início, para se alavancar artisticamente, ao passo que eu fiz o The Jet Black’s e agora também Os Megaton’s, estamos estourando com o programa “Quadrado e Redondo”, e o nosso sucesso você comprova pela audiência que a emissora recebe nas tardes de sábado, quer mais?” – “hoje… (desculpando-me) reconheço ter ido longe demais nos meus conceitos sobre o Jerry, deixando passar despercebido suas múltiplas qualidades”. – Exatamente nesse instante, chamaram-me, porque entraríamos no ar naquele momento para aguardar em cena a exibição do table top que havíamos gravado durante a semana. Em seguida, ao vivo, acompanharíamos Biquinho (Ed Carlos) cantando a música “Estou feliz”, que também estava nas paradas de sucesso. O apelido de Ed Carlos foi dado por Edgar, nosso baterista. A referência era a “bicão”, pessoa que entra sem ser chamada num ambiente, festa ou conversa, mas Carlos era um menino de aproximadamente 13 ou 14 anos, por isso, Biquinho.
De vez em quando, enquanto Sérgio Galvão, Débora Duarte e Caetano Zama finalizavam os preparativos para que o programa entrasse no ar, nós do conjunto sentávamos nas poltronas do auditório, aguardando a deixa de entrada e, ao mesmo tempo, curtindo umas gozações costumeiras com os artistas que ficavam ao nosso lado. Quase sempre, Serginho, dos Mutantes, que já faziam parte do programa, vinha se juntar a nós nas poltronas, pondo mais lenha na fogueira da bagunça que normalmente fazíamos. Rita Lee, depois que se entrosou conosco, fingia ser uma dessas menininhas sem educação e simulava cuspir em Luizinho, fazendo as birras que normalmente uma garotinha malcriada costuma fazer na frente de uma visita.
No meio de uma dessas brincadeiras, Caetano Zama me chamou para subir até o 1º andar da TV Bandeirantes. Chegando lá, o maestro Potcho, juntamente com sua orquestra, estava gravando uns jingles. Caetano Zama me pediu para ouvir atentamente a orquestra tocar. Havia um instante em que ela dava uma ligeira parada e continuava a tocar a música; lembrava um pouco aquele fundo musical que se ouve na apresentação dos desenhos animados do Pica-pau. Após ouvir atentamente, Zama me disse que, como eu fazia isso e os sons diferentes nas gravações d’Os Megaton’s, ele se lembrou de mim para extrair um som que lembrasse uma mola sendo esticada e depois solta, para entrar exatamente naquele intervalo no qual a orquestra do Potcho dava a parada. Imediatamente fui buscar uma das nossas guitarras, no térreo, e pedi para o técnico de som Índio que a ligasse. Potcho começou tocando aquele jingle e, em dado momento, parou e apontou a batuta em minha direção. Nesse exato momento, afrouxei, através da alavanca da guitarra, as duas últimas cordas (si e mi), dei um toque forte de palheta nas duas ao mesmo tempo e soltei a alavanca, tremendo com a mão na mesma. O efeito que extraí agradou em cheio a Caetano Zama, bem como a todos os músicos da orquestra de Potcho. Esse jingle passou a ser usado em quase todas as transmissões de jogos de futebol da TV Bandeirantes. Com o passar do tempo, ouvi esse mesmo som, que criei e gravei, ser usado e copiado em várias propagandas comerciais e situações engraçadas, como, por exemplo, uma pancada na cabeça ou um tombo em programas de “vídeo-cacetadas”, cujo desfecho requer som de mola tremulando. Isso, no entanto, não era nenhuma novidade para mim. Quando nós d’Os Megaton’s nos debruçávamos sobre a tarefa de um arranjo para gravar um disco, pensávamos exatamente nesse detalhe: fazer escola, o que conseguimos, pois nossas inovações foram seguidas por vários conjuntos. Na gravação de “O Tijolinho”, com Bobby de Carlo, o som das guitarras, bem como o efeito que uma delas executa logo no início, foram copiados por vários músicos, inclusive duplas sertanejas. Já na gravação que fizemos acompanhando Antônio Marcos no sucesso “Um amor melhor que o seu”, composição de Roberto Carlos, a sequência de palhetadas dada nas cordas das guitarras – tal qual fossem baquetas sendo batidas numa caixa de fanfarra ou caixa de escola de samba – e o balanço que o contrabaixo e a bateria executam, passaram a ser imitados por quase todas as bandas de rock. Em agosto de 2005, na novela “Se a Lua Falasse”, exibida pela TV Globo, ouve-se claramente no início e nos intervalos, a introdução melódica que Os Megaton’s criaram para os acompanhamentos da música “O Tijolinho”. Isso tudo se deveu às pesquisas que, incansavelmente, fazíamos durante os ensaios para extrairmos um som diferente, que acabou sendo reconhecido e imitado, numa prova evidente de que todo o trabalho que tivemos não foi em vão, servindo, portanto, de contribuição à música, ainda que discreta, levando-se em consideração um universo de sons exóticos e arranjos que podem e devem ser criados para o deleite dos aficionados e amantes dos sons.
Basta nos atermos a criar, não a copiar – fica aqui o recado.” (Primo Moreschi, o Joe Primo)

Ouçam algumas gravações da banda e também Os Megatons acompanhando o cantor Bobby di Carlo:

1. Cuidado – Mocambo 1297

2. Só penso em meu bem – 1967

3. Voo do Besouro – 1964

4. Meu Machucadinho – 1967

5. Cuidado

6. Nelma – 1967

7. Não vou me entregar – 1967

8. Infinito

9. Bobby de Carlo – A Boneca que Diz Não – 1966

10. Temptation – 1964

11. Bobby di Carlo – Tijolinho

12. Bobby di Carlo – Não vou me entregar

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Uma resposta em “A História dos Megatons, uma banda de Rock dos anos 60!

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