E “Raymond Jones” era Alistair Taylor!

Em 28 de outubro de 1961, um certo Raymond Jones perguntou na loja de discos de Brian Epstein se ele tinha um compacto gravado por um grupo local (de Liverpool) conhecido como The Beatles. Embora o Mersey Beat, que sempre publicava alguma coisa sobre o grupo, estivesse à venda em sua loja, Epstein provavelmente não o lia, pois não era um fã de música pop. Aparentemente ele não tinha noção de que aquele quarteto tocava quase todo dia na hora do almoço no Cavern, que ficava apenas a alguns metros de sua loja. Quando Epstein descobriu isso, ele foi ao local (Cavern) para perguntar ao grupo que gravadora havia lançado o compacto. A data está na história como tendo sido em 09-11-1961. Com o problema solucionado, ele resolveu pedir uma quantidade grande de discos, cerca de duzentos, que acabaram vendendo bem…

Brian Epstein

Mas quem seria Raymond Jones, se até hoje nunca se viu uma foto do famoso garoto?

Quando Brian Epstein foi ao Cavern Club em 09/11/1961, local onde os Beatles tocavam na hora do almoço, quem o acompanhou naquele dia em que ele foi pela primeira vez ver o conjunto que havia gravado o disco My Bonnie, foi seu assistente pessoal, Alistair Taylor.

Alistair Taylor também exerceu a função de Gerente Geral da Apple por curto período, tendo sido despedido em dado momento, sem nenhum reconhecimento.

Em seu livro Lyddypool, David Bedford afirma ter sido Alistair Taylor o verdadeiro Raymond Jones, o rapaz que em 28 de outubro de 1960 foi à loja de Brian e pediu o disco My Bonnie, mesmo havendo registros em Liverpool da existência de uma pessoa com esse nome na época…

Liddypool - livro by David Bedford

Segue um trecho da entrevista a qual consta do livro, uma conversa entre o autor e Alistair Taylor.

David Bedford conta que em maio de 2004 ele teve a sorte de passar algumas horas com Alistair Taylor em uma viagem de sua casa em Matlock, Derbyshire até Liverpool. Alistair era conhecido como “Mr. Fix it” dos Beatles e foi uma peça fundamental na operação do dia-a-dia da NEMS Enterprises. Ele era o Assistente Pessoal de Brian e o homem a quem John, Paul, George e Ringo recorriam quando precisavam de algo.
Quando eles se aproximaram, Mr. Fit-it disse que estava cansado e que eles não ficassem ofendidos se ele se recostasse para dormir durante a viagem. “Sim, certo, Alistair!”, respondeu David Bedford.
O autor conta que pelas próximas duas horas apreciou demais a companhia de um dos homens mais simpáticos que ele poderia esperar encontrar. Ele era muito divertido, além de humilde e cheio de histórias. Ele não via a necessidade de falar sobre a sua parte na historia dos Beatles e sobre algo do qual ele tivesse sido acusado. Ele falou carinhosamente de sua esposa Lesley que tinha sido diagnosticada com câncer terminal, e seu casamento longo e feliz. Infelizmente, em questão de semanas, Alistair faleceu, e foi logo seguido por sua amada Lesley.
Alistair nasceu em Runcorn, Cheshire, ao sul de Liverpool, em 21 de junho de 1935. Depois de um breve período em Londres, onde ele conheceu Lesley, voltou para o norte para trabalhar para um comerciante de madeira, William Evans, em Widnes, embora isso não o satisfizesse.

Então, Alistair, como você chegou a trabalhar para Brian?

“Eu vi um anúncio no jornal local pedindo um Assistente de Vendas na NEMS (North End Music Store), cargo que responderia a Brian Epstein. Naturalmente, eu rapidamente respondi ao anúncio. Quando eu encontrei Brian, nós nos demos muito bem e conversamos sobre música em todos os aspectos. Meu amor era sempre para o jazz, o que era diferente para Brian que adorava música clássica. No final da entrevista, que durou duas horas, Brian disse que minhas qualificações eram superiores ao cargo anunciado e que ele não poderia me pagar o suficiente para a posição oferecida. Meu coração quase parou.

Mas depois ele disse que gostaria de me empregar como seu assistente pessoal, por £10 por semana. Na verdade eu não entendi o que ele queria, mas claro que disse sim! Foi o começo de um grande relacionamento com Brian, que tinha seus altos e baixos. Ele me demitiu quatro vezes, e eu renunciei algumas vezes também!

Brian era gay. Eu sabia disso. Ele sabia que eu sabia, mas isso não importava. Ele sabia que eu não era gay, e que estava feliz no meu casamento. Isso nunca interferiu no nosso relacionamento de negócios.”

A voz de Alistair subitamente tornou-se mais séria.

“Neste ponto, eu quero dizer algo que tem sido editado e ficado fora das entrevistas no passado. Eu amava Brian. Isso não deve ser entendido com conotações homossexuais. Não era isso. Eu o amava. Ele era estranho, irritante, chato e frustrante, mas eu o amava. Ponto final.

Certa vez quando eu já tinha começado a trabalhar lá, Brian e eu fizemos uma pequena aposta sobre cada grande gravação que saia. Nós teríamos que dizer se seria um sucesso ou não. Desnecessário dizer, mesmo que ele não gostasse de música pop, ele podia reconhecer um sucesso a milhas de distância. Eu raramente acertava; não consigo lembrar de alguma vez ele ter se enganado, nunca! O prêmio da aposta era somente um Gin e Tônica, mas ele era incrível.

Ele introduziu este sistema notável de pedidos de gravação com essas pequenas etiquetas de forma que sabíamos quando tínhamos que renovar o pedido. No final, se Brian colocasse uma grande encomenda para uma gravação específica, os outros varejistas deviam pedir aquelas também. Brian era impressionante, e sua opinião era seguida com frequência”.

E sobre Raymond Jones, Alistair?

“Eu era o Raymond Jones. Os jovens estavam chegando na loja e pedindo pela gravação My Bonnie, com os Beatles. Nós não tínhamos aquilo e, até que alguém colocasse um pedido real, Brian não poderia fazer nada. Veja você, Brian tinha esta alegação de que se você fizesse um pedido de uma gravação por alguém, em qualquer lugar, ele descobriria. Contudo, não importava quantas pessoas haviam pedido, se ninguém tivesse pedido e feito um pagamento em depósito. Particularmente, como era uma importação da Alemanha, tornava-se muito mais importante.

Eu sabia que nós iríamos vender muitas cópias, então eu preenchi o formulário do pedido e paguei o depósito do meu próprio bolso em nome de Raymond Jones, um dos nossos clientes regulares.

Agora nós tínhamos um pedido, Brian e eu fizemos o rastreamento. Claro, o disco havia sido gravado na Alemanha, e havia sido gravado sob o nome de Tony Sheridan e os Beat Brothers. Brian recebeu o primeiro lote e ele se esgotou em pouco tempo.

Foi assim que há poucos anos atrás, eu anunciei que era Raymond Jones. E é isso, era eu.”

Fonte: The Beatles – Dito e Não Dito, de Arthur Davis

– Trecho do livro Liddypool , traduzido por Lucinha Zanetti

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3 respostas em “E “Raymond Jones” era Alistair Taylor!

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