“My Sweet George”

No dia 14 de Novembro, quando estava internado em Nova York, George Harrison foi avisado de que já não teria muito tempo de vida… “Onde vou morrer?”, perguntou ele.

Postas de parte as hipóteses de morrer na sua casa em Londres ou no Staten Island University Hospital, de Nova York, onde estava internado, George Harrison combinou com Gavin De Becker que morreria protegido por este em Beverly Hills, afastado dos olhares do mundo, depois de ter ponderado a hipótese de sua casa no Havaí.

“George Harrison não queria a sua fotografia num caixão como epitáfio”, disse um amigo.

No dia 17 de Novembro foi dado alta de Nova York ao Beatle.
Harrison tinha pouco tempo para se despedir da família e dos amigos. Entre outros, chamou a irmã, Louise, que dirige o Hotel “A Hard Day”s Night”, em Illinois, e os amigos de sempre, Paul McCartney e Ringo Starr.

George e Louise estavam de relações frias, depois de Louise ter aberto o hotel com o nome de uma canção/álbum/filme dos Beatles, o que não agradou ao irmão.

A um Paul McCartney de lágrimas nos olhos, George disse que “já não estaria aqui no Natal”.

Ringo, que estava em Boston à cabeceira da filha, também com cancro, voou de imediato e disse que não sairia de ao pé de George “até ao fim”, adiando para isso a digressão no Canadá. “Não adies. Eu estou em paz”, respondeu-lhe George Harrison.

Sem publicidade, no dia 17 de Novembro, George Harrison voou no jacto privado de Gavin De Becker para Santa Monica, Califórnia, tendo depois sido transportado de ambulância descaracterizada até ao UCLA Medical Centre, em Los Angeles para tratamentos.

No dia 20, a situação clínica do Beatle deteriorou-se, pelo que George Harrison foi transferido para casa de Gavin De Becker, em Beverly Hills, onde ficou isolado. A única visita exterior permitida foi a de Ravi Shankar que lhe tocou cítara.

A morte viria a ocorrer às 13h30 locais (21h30 em Lisboa), (15h30 em Brasília) de quinta-feira, 29 de Novembro.

Segundo o “News Of The World”, além da família, dois dos seus melhores amigos indianos, Shayam Sundara e Mukunda, entoaram cânticos Hare Krishna, enquanto o Beatle desfalecia.

Segundo o site Netparque,26 “Quando, às oito da manhã de sexta-feira, 30 de Novembro, o Mundo soube da morte de George Harrison, já o seu corpo tinha sido cremado e as suas cinzas a caminho de um rio sagrado da Índia…

Em homenagem póstuma a George Harrison, a crônica “My Sweet George” escrita pela jornalista gaúcha Martha Medeiros saiu publicada na Coluna do Jornal Zero Hora de 05/12/2001, de Porto Alegre.

MY SWEET GEORGE

George Harrison tornou-se mais ex-beatle do que nunca: saiu de cena aos 58 anos, vítima de um câncer que já o estava corroendo há algum tempo. Por ser uma morte anunciada, não tivemos a mesma surpresa como quando recebemos a notícia da morte de John Lennon. Lembro que seu assassinato caiu como uma bomba na cabeça de todos. Na minha, ao menos.

Nessas horas, entendo o significado da palavra fã. Eu nunca fui ao velório de alguém que não conheci, jamais entrei numa fila para dar um último adeus a uma figura pública: sendo o morto alguém que se admira, o luto instala-se do mesmo jeito, silenciosamente. Os Beatles fizeram parte da minha história, compuseram a trilha sonora da minha infância, então não é exagero sentir, com a morte de Harrison, que perdi alguém.

O que diferencia a morte dele da morte de Ayrton Senna, por exemplo, é que Harrison participou da minha formação. Senna era um ídolo e lamentei também seu desaparecimento, mas com um pesar patriótico, não como uma dor individual. Eu não compartilhei nada com Senna, mas com o guitarrista dos Beatles eu troquei confidências, eu o deixei entrar no meu quarto.

Acho que é uma sensação parecida com a de perder amigos da mesma geração. Eu senti muito a perda de alguns tios e avós, mas nada me deixou mais atônita do que quando, anos atrás, perdi um amigo da mesma idade que eu, que trabalhava junto comigo, com quem já havia trocado gargalhadas e segredos daqueles que a gente promete levar para o túmulo, e leva. Esse amigo conviveu menos comigo do que tios e avós, mas e daí ? Era a morte me dando o recado que a vida é frágil e que a juventude não é onipotente como parece. A morte não estava recolhendo um galho de minha árvore genealógica, ela estava capturando alguém do meu presente, do meu instante. Levava um pouco de mim também.

O George Harrison que se foi não é esse George Harrison que eu via nas fotos atualmente, grisalho, apático, já meio inativo. Perdi o Harrison de uma época que também estou perdendo, é a confirmação da passagem do tempo. Parecia que eu e ele tínhamos a mesma idade anos atrás. Parecia que não havia muita distância. Os Beatles moravam lá em casa.

Não é bom perder nada que nos seja contemporâneo. Sente-se duas vezes, por eles e por nós.
Que Ringo e Paul resistam bravamente no passar de nossos dias…

George Harrison

Uma resposta em ““My Sweet George”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s