Jovem Guarda 50 anos – Homenagens

Neste ano em que a Jovem Guarda completa 50 anos, muitas homenagens estão sendo prestadas, como este belo texto do escritor Fred Rossiter Pinheiro, publicado ontem no grupo Eterna Jovem Guarda no Facebook.

COMO FOI A JOVEM GUARDA NA MINHA CIDADE – JOVEM GUARDA 50 ANOS

Por Fred Rossiter Pinheiro, escritor.

Jovem Guarda e origens do Rock em Natal

Assistir filmes nos cinemas de Natal nos anos 1960 era um agradável exercício de provincianismo. Ao surgir na tela “a Condor Filmes apresenta…”, a plateia em delírio gritava “xô, xô, xô, urubu!” e o condor solitário ia embora…
A estudantada toda se conhecia, além da troca de gibis na calçada do cinema Rex, antes do filme principal tinha o Canal 100 de Herbert Richers onde havia uma grande expectativa pela cobertura do futebol no Maracanã.
Quando passavam os traillers de filmes interessantes, sempre alguém gritava “Esse eu venho !!!!”. E aí vinha a réplica”… “de besta” ou “e traga a irmãzinha….”, não é preciso dizer que haviam tréplicas em nível bem mais pesado…
Eventualmente cenas do filme eram cortadas interrompidas por falhas do projetor, em consequência o menor palavrão era “Ladrãããããooo !”. Enquanto o operador tentava colar a fita, todos ficavam batendo os pés e gritando.
Essa geração de garotos, que odiava os vozeirões da MPB (Vicente Celestino, Nélson Gonçalves, Cauby Peixoto…), foi amadurecendo e, além das artimanhas para assistir filmes censura 14 anos (sem ter ainda essa idade), passou a ter alguma curiosidade pelas músicas cantadas por Cely e Tony Campello.
O Cinema Rio Grande começou a passar os filmes de Elvis Presley, que atraiam principalmente as meninas, elas chegavam a gazear aulas do Atheneu para assistir o emergente charme do Rei do Rock, desespero da Diretora Angélica de Almeida Moura que acionava suas fiscais para trazer de volta as alunas rebeldes. Os meninos, acostumados com a dinâmica dos filmes de faroeste e de Tarzan, achavam essas fitas muito “água com açúcar”, mas não deixavam de frequentar o RG, sempre caprichando no penteado com a brilhantina glostora. Afinal, nos domingos à tarde, o cruzamento da Avenida Deodoro com a Rua Assu apresentava a maior densidade de meninas bronzeadas, bonitas e cheirosas por metro quadrado de Natal. O chiclete do “Bolão” e o drops “dulcora” completavam o clima das domingueiras no início dos anos 60.

JG 50 anos - Natal 3 (2)

Nesse contexto, a onda americana do Twist chegou também a Natal. As meninas que brincavam de bambolê nos intervalos de aula, à noite começavam a experimentar a dança ao ritmo de Chubby Checker e Rita Pavone, era a chamada “Dança louca”.
Em 1964, as músicas dos Beatles começaram a rodar discretamente nas rádios da cidade (só existam AM). Mas, a base principal para curtição inicialmente foi a Sociedade Cultural Brasil Estados Unidos (SCBEU), primeira escola de língua inglesa da cidade. Lá os primeiros discos dos Beatles e de Elvis Presley eram escutados com enorme curiosidade. Os irmãos Eustáquio e Afonso Lima, juntamente com Gileno Azevedo e José Bezerra Marinho começaram a fazer dublagens do Rock. A estudante Ivone Freire foi a primeira garota a possuir uma guitarra em Natal. Os estudantes passaram a se interessar mais pelo estudo do inglês para traduzir “Yesterday”, “Help!” e “Twist and Shout”.

Nesta foto podemos ver o futuro ídolo da Jovem Guarda, Leno, que formaria a dupla com a amiga Lílian. Está encostado na parede do grêmio do colégio marista de Natal, de camisa listrada.  Foto do livro de Fred Rossiter Pinheiro.

Nesta foto podemos ver o futuro ídolo da Jovem Guarda, Leno, que formaria a dupla com a amiga Lílian. Está encostado na parede do grêmio do colégio marista de Natal, de camisa listrada.
Foto enviada por Eustáchio Lima ( o da guitarra) ao Fred Rossiter Pinheiro.

Ainda em 1964, Tony e Cely Campello se apresentaram no Ginásio Sílvio Pedroza em evento beneficente organizado pelo Rotary Club. Tony lembra que foi a última apresentação da dupla em uma longa turnê por diversas cidades brasileiras e que eles cobraram cachê reduzido a pedido do pai deles que também era rotariano em Taubaté SP. Não havia bons hotéis em Natal e os músicos ficaram na Casa de Hóspedes de Ponta Negra.
Após o surgimento do Programa Jovem Guarda na TV (cujo sinal era captado com deficiência em Natal), a rádio Poti lançou um musical com o mesmo nome no horário de 13H a 14 H comandado por Liênio Trigueiro.Foi um sucesso !
Os ventos oriundos de Liverpool esfriaram de vez as tradicionais serestas em Natal. O ritmo excessivamente meloso dos boleros e sambas dos cantores tradicionais que enalteciam o luar e a dor de cotovelo foi, para os jovens, substituído pela contagiante batida do pop rock e da Jovem Guarda. Nas festinhas caseiras do Barro Vermelho, do Tirol, da Cidade Alta, do Alecrim e de Petrópolis, o volume mais alto do som assustava os vizinhos que eram obrigados a dormir mais tarde. Esses embalos barulhentos na base de vitrola, LPs, compactos e Cuba Libre passaram a ser chamados de “Assustados”. Bebida barata, petisco era raro, mas muita dança ao som de “Era um Garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, “I want to Hold your Hand” ou até o Twist “Datemi um Martello”, amores atômicos ou platônicos. No final, ainda rolavam improvisações ao violão, nem sempre bem afinadas.

Vulpiano Cavalcanti, filho do médico e mais famoso comunista de Natal, formou um pequeno grupo musical improvisado com o “Galêgo Solon” e mais Sérgio Lima “Sapo” e Eduardo Esperança. As apresentações eram restritas aos aniversários de amigos e pequenas confraternizações, eram chamados de “Beatles Natalenses”.

É uma brasa mora! Era o grito de guerra insuflado por Roberto Carlos que tomou corpos, corações e mentes fora de tempo e lugar, dançar o Iê Iê Iê (surgido na música “She Loves you” dos Beatles) e namorar era tudo que importava. A rebeldia dos cabelos longos, vestidos curtos e ritmo quente das músicas era adornada por letras ingênuas de amores adolescentes.
“O Exército do Surf” (versão de “L`Esercito Del Surf”) com Wanderléa surgia como uma espécie de hino para os garotos e garotas que atingiam a adolescência.

Os playboys (classe média/alta) natalenses faziam “pegas” pelas poucas ruas asfaltadas de Natal e adoravam se exibir em frente aos colégios femininos. Chegaram a ocorrer algumas corridas oficiais de carro pelas ruas de Natal, que empolgavam a população. As ruas eram isoladas e havia limitação de velocidade em alguns trechos (nem sempre obedecidas). Todos os playboys natalenses participavam, com direito até a torcida organizada. Amador Lamas, Ari Alecrim Filho, Rodolfo Pinheiro, Luzenildo, Roberto Lira, Sandra Elói e Burití eram os líderes da “Juventude Transviada” natalense.

A JG e o Rock anglo-americano deram uma nova voz à juventude ao som das guitarras que enlouqueciam as garotas e causavam calafrios nos pais de família. De repente, começaram a aparecer inúmeras bandas de Rock na cidade (eram chamados Conjuntos), quase todas formadas por estudantes: The Shouters (liderada por Prêntice Bulhões e Gileno Azevedo, foi a primeira delas no Marista), depois vieram: Os Vândalos, The Funtus, Os Gênios, Os Primos, Os Monges, Os Terríveis, The Jetsons, Os Tremendões (em Mossoró), As Luluzinhas (meninas do Colégio imaculada Conceição) , Conjunto Primavera (meninas do Colégio Maria Auxiliadora) , O Sempre Alerta (Macau) e TheVictors (banda surgida em Recife, que migrou para Natal). Os Shouthers iniciaram apresentações públicas na Lagoa Manoel Felipe (atual Cidade da Criança).

JG 50 anos - Natal 2

Gileno migrou para o Rio de Janeiro, se transformou em Leno e juntamente com Lílian explodiu com sucessos na Jovem Guarda. Os Gênios se transformaram em Impacto Cinco, gravaram diversos LPs e fizeram a trilha sonora da juventude universitária nas inesquecíveis Matinês do ABC nos anos 70.
As minissaias (algumas protegidas com meia-calça que permitiam mostrar as pernas, mas não a pele) faziam sucesso e obrigaram alguns colégios mistos que tinham escadas a abolir os vestidos e adotar as calças como farda feminina. Cabelos longos, fita no cabelo, botas, vestidos e camisas muito coloridas, calças “Lee” desbotadas às vezes remendadas com minúsculos “corações” no traseiro e nas pernas. Era a contracultura jovem, que alcançou o ápice com a influência do movimento hippie/ flower power.
Era comum os mais velhos e conservadores nos questionarem: “onde você comprou essa camisa tinha pra homem?”.
Roberto Carlos cantou no Cinema São Pedro e no Palácio dos Esportes, Os Brazilian Bitles estiveram na Assen e no palácio dos Esportes, Renato e seus Blue Caps no Cinema Potí e The Clevers no ABC F.C, outros cantores da JG estiveram por aqui nos anos 60.
As Boites “Hippie Drive In”, “Psiu” e do Forte introduziram a “Luz Negra” nos embalos natalenses dos sábados à noite. A sensualidade se destacava nas mini e micro saias brancas. Todo mundo foi assistir “Barbarella”, “Na Onda do Iê Iê Iê” e “Easy Rider” no Rio Grande e ninguém perdeu a inauguração do Cinema Panorama com “007 e o Satânico Dr. No”, auge de James Bond (Sean Connery) com o famoso biquíni de Ursula Andress.

Festivais de música lotavam o Palácio dos Esportes, a juventude participava intensamente torcendo,aplaudindo e vaiando. Roberto Lima, Mirabô Dantas, Iaperí Araújo e Nadja Maria, os destaques da MPB natalense passaram a enfrentar a ousadia das composições pop de Ivanildo Cortez e Napoleão Paiva, conduzidas pelas bandas The Funtus e Impacto Cinco. “Mística”, ‘Homo Sapiens” e “Quero talvez uma Nêga” eram as músicas preferidas dos estudantes e foram premiadas no final dos anos 60.

JG 50 anos - Natal 1

As Luluzinhas – Banda formada só por garotas do Colégio das Neves em Natal/RN

 

Música não tem prazo de validade. Quem nasceu nos anos 50 e até meados dos anos 60 teve na agitação da JG a agradável trilha sonora da sua (nossa) adolescência e disso não esquecemos.
Paz e Amor, Bicho!

Uma resposta em “Jovem Guarda 50 anos – Homenagens

  1. Fantástico este resgate, da história de nossa adolescência, feito pelo Fred Rossiter. Gostaria muito de saber onde anda João Bruno Pereira, que fazia parte dos Vândalos, assim como Marta Scavuzi de Alencar que cantava todas as músicas de Rita Pavone e se vestia como ela. Foi gratificante ler o texto do Fred.

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