Há 45 anos, McCartney anunciava o fim da banda The Beatles!

Daily Mirror - Sexta-feira, 10 de abril de 1970

Daily Mirror – Sexta-feira, 10 de abril de 1970

 Folha de São Paulo de 10 de Abril de 1980. Uma página inteira é dedicada aos Fab Four. A manchete diz que foi John que split The Beatles! (foto do acervo de José Antonio Bueno da Silva, grupo We Love the Beatles Forever no Facebook))


Folha de São Paulo de 10 de Abril de 1980, 10 anos depois do anúncio do fim da banda, uma página inteira é dedicada aos Fab Four. A manchete diz que foi John quem encerrou (split) The Beatles!
(foto do acervo de José Antonio Bueno da Silva, grupo We Love the Beatles Forever no Facebook))

Notícia de 10 de abril de 1970

Em 10 de abril de 1970, Paul McCartney anunciou o fim oficial desta que é considerada a maior banda de todos os tempos: The Beatles! O dia 10 de abril pode ser considerado uma péssima data para muitos que têm pelos Beatles o carinho de fã, pois é a data em que há exatos 45 anos, Paul McCartney anunciava ao mundo o fim da banda fundada por John Lennon. A partir daí, cada integrante poderia trilhar outros caminhos, direcionando força e talento a seus projetos solo. Paul McCartney, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison, por seu trabalho em conjunto, foram responsáveis por canções de grandiosidade inquestionável, agregando fãs de todos os cantos do mundo e mesmo com a passagem de 45 anos daquele fatídico dia, sua música ainda é reverenciada, provando que quando a música é boa, não tem prazo de validade, é eterna! The Beatles - 45 anos do anúncio

Por que o Sonho Acabou

Os bastidores da saga dos Beatles – e as forças que esfacelaram a maior banda de todos os tempos. (Reportagem de Mikal Gilmore, Revista Rolling Stone – Edição 36, Set/2009) Era um dia frio, em janeiro de 1969, e os Beatles estavam sentados em um grande (e ainda mais gelado) estúdio no Twickenham Film Studios, em Londres, acompanhados das piores pessoas com quem poderiam estar: os próprios Beatles. A banda havia passado dias tentando escrever e ensaiar novo material para um show ao vivo já pré-agendado – o primeiro desde agosto de 1966 – mas as coisas não iam bem. O único entre eles a demonstrar algum tipo de senso de urgência era Paul McCartney. “Não sei por que qualquer um de vocês se envolveu nisso se não há interesse”, disse aos outros Beatles. “Para quê? Não pode ser que seja pelo dinheiro. Por que vocês estão aqui? Eu estou porque quero fazer um show, mas não vejo nenhum tipo de apoio.” Paul olhou para seus companheiros de banda, seus amigos de longa data – John Lennon, George Harrison e Ringo Starr – e os olhares que recebeu de volta não tinham expressão alguma. “Há duas opções: fazemos ou não fazemos; e eu quero uma decisão”, disse ele instantes depois. “Porque não estou nem um pouco interessado em perder a porra do meu tempo aqui, de bobeira, enquanto todo mundo tenta resolver o que quer fazer.” Paul esperou, mas não teve resposta. De novo, os mesmos olhares vazios. E esse estava longe de ser o pior momento pelo qual o grupo viria a passar naquele período. Em seus últimos momentos de vida, os Beatles protagonizaram uma das mais misteriosas e complicadas histórias de fim de romance do século 20. E também a mais triste delas. Os Beatles não fizeram apenas música – eles influenciaram sua época com o mesmo peso de qualquer força política e com resultados mais benéficos que a maior parte delas. Por que, então, os Beatles se separaram? Muitos culpam as maquinações de Yoko Ono, lendária paixão de John Lennon, e a maléfica malícia de Allen Klein, então empresário da banda, queridinho de Lennon e desafeto de McCartney. Mas não era tão simples. “Não acho que alguém seria capaz de abalar quatro pessoas fortes como eles”, declarou Yoko mais tarde, “mesmo que tentasse. Acredito que outra coisa aconteceu. Tenho certeza de que não foi nenhuma força externa”. De fato, as verdadeiras causas estavam mais próximas. Os quatro estavam juntos havia tempo, fazendo parte de uma história tão cheia de mágoas quanto de grandeza. Aquelas sessões de gravação – para o que viria a ser o filme e o disco Let It Be – começaram inspiradas, mas havia muita coisa errada acontecendo quando McCartney finalmente fez seu apelo. Desde o ano anterior, o sentido de parceria da banda vinha se desgastando. A longa amizade de John e Paul, em particular, passava por mudanças radicais. Lennon, fundador da banda, tinha, de certa forma, aberto mão da liderança do grupo; mais que isso, começava a sentir que não queria mais ficar confinado nos limites dos Beatles. McCartney, por sua vez, amava o grupo profundamente – era sua razão de viver. Esses dois homens haviam sido a força motriz da banda – era deles a melhor parceria da história da música pop – mas, no fundo, a aventura dos Beatles era forjada pelo temperamento e pelas necessidades de Lennon: ele tinha formado a banda para diminuir a ansiedade e a dor depois que sua mãe, Julia, cedeu sua custódia para a irmã dela, ao mesmo tempo que o pai também se afastava de sua vida. O John de 16 anos encontrou o Paul de 15 no verão de 1957, enquanto tocava com sua banda, The Quarrymen, em uma igreja próxima a Liverpool, e se impressionou com a facilidade de Paul ao tocar as músicas de Eddie Cochran e Gene Vincent. Tão importante quanto a afinidade musical, os dois também tinham em comum a dor da perda: a mãe de McCartney, Mary, morreu de câncer em outubro de 1956, enquanto a de Lennon sucumbiu após ser atropelada em julho de 1958. Trabalhando juntos, John e Paul encontraram um novo sentido para suas vidas. Por um bom tempo, os dois compuseram juntos, e, mesmo depois de começarem a escrever separadamente, um ainda contava com o outro para ajudar a aprimorar e concluir suas canções. Apesar disso, os dois tinham abordagens bem diferentes ao fazer música. McCartney era organizado, meticuloso e valorizava a habilidade; Lennon tinha poucas regras, era menos propenso a passar muito tempo em cima de uma única canção e, apesar da aparente autoconfiança, era menos seguro a respeito do próprio trabalho. O contraste tornou-se mais nítido com os anos. Paul passou a compor mais narrativas sobre o homem comum e canções de celebração; John compunha a partir de um ponto de vista que ele achava mais autêntico, pessoal e atormentado. “Paul dizia ‘Come and see the show’ (‘Venha ver o show’)”, declarou Lennon. “Eu dizia ‘I read the news today, oh boy’ (‘Li as notícias de hoje, oh cara’).” Como Lennon e McCartney dominavam tanto a composição quanto os vocais dos Beatles, eles, na prática, lideravam a banda – embora Lennon sempre tenha desfrutado de uma posição implícita de autoridade maior. Mesmo assim, os Beatles seguiam a política de um voto por cada integrante, algo que teve papel significativo em 1966, quando após anos de turnês, John, George e Ringo persuadiram Paul a aceitar a ideia de que eles deveriam parar de se apresentar ao vivo. Durante três meses, cada um seguiu um caminho distinto. Quando isso aconteceu, John ficou preocupado: “Pensei: ‘Bem, na verdade esse deve ser o fim. Não há mais turnês. Isso quer dizer que haverá um espaço vazio no futuro’ Foi então que comecei a pensar na possibilidade de uma vida sem os Beatles. E a partir daí foi plantada a semente da ideia de que eu de algum modo devia sair sem ser expulso pelos outros. Mas nunca consegui sair sozinho, porque era assustador demais”. Pouco tempo depois, a banda se reuniu, dessa vez para seu trabalho mais marcante, o disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – mas foi também nessa época que os assuntos internos dos Beatles se tornaram estranhamente complexos, até mesmo obscuros. O conceito do álbum tinha sido ideia de McCartney, mas foi Lennon o responsável pela melhor canção do disco, “A Day in the Life”. Mesmo assim, ele se referiu mais tarde às suas contribuições como reflexos velados do desespero: “Eu estava muito deprimido durante [as gravações de] Pepper, e sei que o Paul não estava. Ele estava se sentindo cheio de confiança. Eu estava na pior”. De certa forma, era assim que Lennon funcionava – suas crises faziam com que ele subisse ou descesse – mas naquele momento estava passando por uma fase de mudanças importantes. John acreditava estar acorrentado a uma vida doméstica entediante e sem amor – aliás, sem amor da parte dele, já que sua esposa, Cynthia, o amava profundamente – e se sentia muito distante de Paul, um homem famoso e livre, vivendo em Londres, participando dos eventos culturais e tendo contato com uma vasta gama de arte de vanguarda. Se Lennon não externou uma vida desse tipo, ele com certeza a viveu por dentro, tomando LSD diariamente, até chegar ao ponto em que alguns passaram a se preocupar com a hipótese de que ele pudesse estar apagando sua própria identidade. George Harrison disse posteriormente: “Assim como a psiquiatria, o ácido pode desfazer muita coisa – dava para ver o quão poderoso era. Mas acho que não percebemos o quanto John estava ferrado”. Em agosto de 1967, a liderança dos Beatles mudou de uma forma mais clara quando o empresário Brian Epstein foi encontrado morto, vítima de uma overdose acidental. Epstein passava por uma crise depressiva, mas continuava dedicado à banda. Muitos acreditavam que era ele quem os mantinha centrados e protegidos. “Ali, eu soube que estávamos ferrados”, declarou Lennon. “Eu não tinha ilusão a respeito de nossa incapacidade em fazer outra coisa que não fosse tocar, e fiquei assustado. Pensei: ‘Fodeu’.” Paul, por outro lado, não tinha a mesma opinião. Dias após a morte de Epstein, ele convenceu os outros a embarcarem em um novo projeto, o fantasioso Magical Mystery Tour. A banda passou meses filmando pirações visuais e gravando faixas que acompanhassem as cenas. Apesar de ser um esforço colaborativo e espontâneo feito pelos quatro, não havia dúvidas de que se tratava de uma criação de McCartney. O filme foi bombardeado pelos críticos. Dizem que John ficou, de certa forma, satisfeito em ver Paul tropeçar pelo menos uma vez. Em fevereiro de 1968, os Beatles foram estudar Meditação Transcendental no retiro de Maharishi Mahesh Yogi em Rishikesh, na Índia. A viagem foi, em parte, o resultado dos esforços de Harrison em ganhar mais influência na direção da banda – ele foi o primeiro dos Beatles a se interessar por música e filosofia indianas – embora, de cara, todos tenham sentido a necessidade de reavaliar o propósito do sucesso da banda. “Acho que estávamos meio exaustos espiritualmente”, disse Paul. “Éramos os Beatles, o que era maravilhoso Mas acho que havia aquele sentimento de ‘É ótimo ser famoso, é incrível ser rico – mas qual o sentido disso?'” Entretanto, o incômodo logo se estabeleceu. Quando Harrison começou a achar que Lennon e McCartney poderiam estar usando o retiro como inspiração para compor, ele se indispôs. “Não estamos aqui para falar de música”, reclamou. “Estamos aqui para meditar!” Ringo Starr e sua esposa, Maureen, desistiram duas semanas depois de chegarem (Starr, que tinha problemas estomacais, não aguentou a comida local) e McCartney, acompanhado da namorada, a atriz Jane Asher, foi embora duas semanas depois. Harrison e Lennon ficaram até que o segundo percebesse que não estava chegando mais perto de resolver os problemas que atormentavam seu coração – a necessidade de reavaliar tanto seu casamento quanto sua carreira. Após ouvir um boato de que Maharishi havia feito insinuações sexuais sobre uma jovem no retiro, John se irritou e exigiu que ele e George abandonassem o lugar. Alguma coisa naquela experiência transformou Lennon de um modo que ninguém conseguiu entender naquela época; depois da Índia, ele parecia estar sempre irritado. A verdade é que ele estava desesperado; a única arma que tinha para se salvar era sua arte, e mesmo ela não servia de alívio. “Estava meditando cerca de oito horas por dia e, mesmo assim, escrevia as músicas mais deprimentes da face da Terra”, contou, tempos depois. De volta a Londres, Lennon abandonou Cynthia para mergulhar em uma relação séria com Yoko Ono, que ele havia conhecido em novembro de 1966. Embora Yoko seja geralmente descrita como uma mulher ambiciosa que perseguia John obstinadamente, ela também teve sua parcela de dor e decepção durante os tempos difíceis que viriam, perdendo contato com sua filha, Kyoko, e deixando de lado sua promissora carreira artística por causa de Lennon. Como ela mesma contou mais tarde, “Sacrifiquei tudo por este homem”. A imprensa e os fãs a ridicularizavam: era chamada de “japa”, “china” e “amarela”, e Lennon às vezes precisava protegê-la de agressões físicas. Esse julgamento alimentou a raiva de Lennon, mas pareceu pequeno quando comparado ao que aconteceu quando ele levou Yoko ao “mundo” dos Beatles. O grupo raramente permitia que convidados aparecessem no estúdio, e nunca tolerou que ninguém – além do produtor George Martin ou talvez um engenheiro de som, como Geoff Emerick – desse opiniões sobre um trabalho ainda em produção (certa vez, Epstein tentou dar sugestões para uma gravação e Lennon o humilhou de forma tão intensa que o empresário saiu chorando). Mas Lennon não levou Yoko como convidada; levou-a como colaboradora. Em maio de 1968, quando os Beatles começaram a produção de seu primeiro disco desde Sgt. Pepper, ela ficava sentada com John no chão do estúdio; conversava com ele ao pé do ouvido e o acompanhava toda vez que ele saía da sala. Na primeira vez em que ela falou no estúdio, dando conselhos sobre o vocal de John, o silêncio imperou. Paul disse: “Caralho! Alguém falou alguma coisa? Você falou, George? Seus lábios nem se mexeram!” Lennon não era o tipo de pessoa que recuava. “Ele queria que eu fizesse parte do grupo”, contou Yoko depois. “John fundou a banda, por isso achava que os outros tinham de aceitar. Eu não fazia questão de fazer parte.” Em vez disso, ela gravou seus próprios discos com Lennon, como o famoso Two Virgins – um álbum de música eletrônica experimental, contendo fotos do casal nu. Embora alguns achassem as colaborações de Lennon e Yoko indulgentes ou ridículas, McCartney percebeu que ela deixava Lennon mais confiante. “Na verdade, ela queria sempre mais”, contou. “Faça mais coisas, faça o dobro, ouse mais, tire suas roupas. Ela sempre o persuadia a tentar coisas novas, e ele gostava. Ninguém nunca tinha feito isso com ele.” Mas McCartney provavelmente também entendia o verdadeiro significado de um disco como Two Virgins: John Lennon tinha uma vontade irrefreável, uma força que poderia salvar ou destruir sua vida – e os Beatles – se não fosse controlada. Quando o grupo percebeu que John e Yoko estavam usando heroína, nenhum deles soube o que fazer a respeito. “Foi um grande choque para nós”, disse Paul, “porque achávamos que éramos caras avançados para a época, mas meio que acabamos subentendendo que nunca iríamos tão longe assim.” A nova parceria de Lennon com Ono significava que ele e McCartney raramente voltariam a compor juntos. Mesmo assim, enquanto a banda começava a produção de seu único álbum duplo, The Beatles (mais conhecido como Álbum Branco), os estilos vocais e de composição dos dois estavam mais fortes e variados do que nunca. O que era uma produção esporádica e inconsistente em 1967, agora vinha com força total – a criatividade de Lennon parecia revivida graças à relação dele com Yoko (músicas como “Dear Prudence”, “Julia”, “Happiness Is a Warm Gun” e “Revolution” estavam claramente entre os melhores trabalhos dele). Harrison também havia florescido – até Ringo estava compondo -, mas nenhum estava disposto a deixar que os outros obscurecessem ou direcionassem seus esforços. Os quatro tinham tanto material para gravar – e tanta ojeriza um pelo outro – que chegaram a gravar em três estúdios diferentes, até doze horas por dia. Cada um tratava os restantes como se fossem seus músicos de apoio – o que gerava performances espetaculares e momentos explosivos: Lennon abandonando o estúdio irritado com o tédio ao gravar “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, de McCartney; Ringo saindo da banda por quase duas semanas, após Paul ter criticado a bateria de “Back in the U.S.S.R.”; Harrison trazendo seu amigo guitarrista, Eric Clapton, só para ouvir merecidos elogios por “While My Guitar Gently Weeps”; McCartney dando uma bronca agressiva no produtor George Martin na frente da banda; e o engenheiro Geoff Emerick se demitindo por conta do comportamento ofensivo e turbulento do grupo. Quando ficou pronto, o Álbum Branco foi considerado uma obra-prima desconjuntada, o som de uma banda no auge de sua forma, mas sem esperança alguma. Anos depois, Paul se referiria ao disco como “O Álbum Tenso”. Nesse meio-tempo, os Beatles lançaram uma gravadora, a Apple. Na verdade, a Apple começou como um investimento, mas aos poucos se tornou algo mais: uma corporação que tinha divisões nos ramos do cinema, artigos eletrônicos, imobiliário, educacional, editorial e da música – e, mais interessante, era também um experimento socialista. “Estamos na feliz posição de não precisar de mais dinheiro”, declarou Paul em maio de 1968. Na prática, a principal diretiva da companhia era cultivar novos talentos. A Apple de fato descobriu ou auxiliou músicos de valor – incluindo James Taylor, Badfinger, Mary Hopkin, Jackie Lomax, Billy Preston, Doris Troy (o selo também quase assinou com os Rolling Stones, Bob Dylan e Queen), mas, uma vez que os próprios Beatles não eram exatamente artistas da Apple, a gravadora não recebia os benefícios completos do que eles lucravam. Foi determinado que a estreia do selo seria em 11 de agosto de 1968, com quatro singles lançados naquele mesmo dia, incluindo “Those Were the Days”, de Mary Hopkin, e “Hey Jude”, dos Beatles McCartney tinha escrito a música como um hino dedicado ao filho de Lennon, Julian, por conta da separação de seus pais, mas a canção adquiriu outros significados também. Paul havia se separado de sua namorada de longa data, Jane Asher, depois que ela o flagrou com outra, e ele agora ingressava em uma relação séria com a fotógrafa Linda Eastman, a quem conhecia desde 1967; para Paul, a música se tornou um hino de fé no amor, sobre correr riscos. Lennon encarou “Hey Jude” como uma bênção de seu parceiro: “Na frase ‘go out and get her’ [vá lá e pegue-a], subconscientemente Paul estava dizendo: ‘Vá em frente, me deixe’. Em um nível consciente, ele não queria que eu fosse em frente”, John declarou, em uma entrevista pouco tempo antes de sua morte. “O anjo dentro dele estava dizendo: ‘Deus o abençoe’. Já o demônio dentro dele não gostava de nada daquilo, porque não queria perder o parceiro.” E aí os Beatles tocaram “Hey Jude” no programa Frost on Sunday em setembro de 1968 – a primeira apresentação ao vivo deles em dois anos. E conforme o público se juntava à banda cantando a última parte da música, “Hey Jude” tornou-se a expressão de algo maior, do que eles significavam em termos de união para o mundo lá fora. Inspirados por esse momento, os Beatles perceberam que tinham vontade de voltar a fazer shows – Lennon parecia empolgado com a ideia – e marcaram uma série de datas para janeiro, na Roundhouse londrina, palco de vários dos mais extravagantes shows de rock alternativo no verão de 1967. Também decidiram filmar os ensaios para o evento, a fim de exibi-lo na TV. Para isso, convidaram Michael Lindsay-Hogg, que já havia feito os vídeos de “Rain” e “Paperback Writer” com a banda, para ser o diretor. Havia algo a mais na ideia: os Beatles viam a ocasião como uma oportunidade para descartar as técnicas que haviam atingido seu ápice em Sgt. Pepper (desde o sucesso do disco, Lennon procurava um jeito de desaprovar o trabalho, já que o via como algo fútil, arquitetado por McCartney). Essa nova música anunciaria o retorno ao formato mais simples que havia inspirado o amor deles pelo rock. A música feita pela The Band, banda que acompanhava Bob Dylan vez ou outra, tinha grande influência no que os Beatles queriam fazer. Harrison tinha passado um tempo com Dylan e o grupo em Woodstock e voltou chapado com a espontaneidade e o espírito de coletividade que eles haviam alcançado nas gravações conhecidas como The Basement Tapes. Em busca daquele mesmo espírito, Lennon teria dito a George Martin: “Não quero nada dessas suas merdas de produção. Queremos um álbum honesto nada de edição, overdubbing. Vamos gravar, e o que sair, saiu”. Anos mais tarde, o repúdio de Lennon ainda incomodava Martin. “Eu achava que todos os álbuns deles haviam sido honestos”, comentou o produtor em The Beatles – A Biografia, livro de Bob Spitz. McCartney trouxe um segundo produtor, Glyn Johns, o que foi um consolo a Martin: para alcançar o tipo de performance natural que os Beatles queriam, eram necessários ensaios infinitos para que as músicas pudessem ser gravadas em uma única tentativa. Martin achava os ensaios tão entediantes que raramente comparecia. De cara, problemas atormentaram o projeto. Como a banda queria filmar os ensaios – que ficariam conhecidos posteriormente como “as sessões de ‘Get Back'”, nome original da ideia que seria lançada como Let It Be – a banda teve de se estabelecer no Twickenham Film Studios, o que significava que tinham de obedecer aos horários de trabalho determinados pelo sindicato (das 9h às 17h), que de maneira alguma coincidiam com o horário de trabalho dos Beatles. Nada disso teria sido tão ruim se eles tivessem conseguido manter o entusiasmo, mas na manhã de 2 de janeiro de 1969, quando os ensaios começaram, ninguém além de Paul parecia se lembrar do motivo de eles estarem lá. Embora as sessões tenham sido surpreendentemente produtivas – os Beatles tocaram 52 músicas novas naquele mês, muitas das quais acabariam entrando em Abbey Road ou ficando entre o melhor material dos álbuns solo dos membros da banda -, toda a mágoa acumulada viria à tona. Paul tentava manter os outros no rumo certo, mas essa era uma tarefa ingrata. Seus companheiros achavam seus esforços ofensivos e condescendentes. Para eles, tudo aquilo havia se tornado apenas outro projeto de Paul McCartney, com o baixista e vocalista dizendo a todos quais notas (e em que tempo) deveriam tocar – e chegando até a orientar o trabalho do diretor. “Paul queria que trabalhássemos o tempo todo”, relatou Ringo, “porque ele é viciado em trabalho”. George Martin sentia que McCartney não tinha outra opção. “Paul era mandão, e os outros caras detestavam”, diz ele. “Mas era o único jeito de mantê-los juntos era um processo de desintegração generalizado.” Há uma cena famosa no filme Let It Be na qual Paul se preocupa com o fato de seus palpites musicais estarem irritando George mais do que deveriam, e o guitarrista responde que tocaria o que Paul quisesse, mesmo que isso significasse não tocar nada. “Você não me aborrece mais”, diz Harrison, visivelmente aborrecido A cena representa o X do problema nos ensaios: McCartney era exigente e insensível demais, e Harrison se cansou daquilo tudo. Claro, as reclamações e preocupações de George eram legítimas. Há tempos ele havia sido relegado à posição de coadjuvante por Lennon e McCartney. Mas ele estava perturbado com outras coisas. A ideia de shows ao vivo o desagradava – e quanto mais a data se aproximava, maior era a intensidade de seus protestos. Àquela altura, a data marcada para os shows na Roundhouse já havia caído pelo caminho, e, quando o diretor Lindsay-Hogg sugeriu um cenário mais exótico ou maior para as apresentações – como um anfiteatro de Roma, por exemplo -, Harrison explodiu: “Ia ser muita sorte se conseguíssemos botar meia dúzia de imbecis lá dentro”, disse. As piores tensões, porém, ocorreram entre George e John. Depois de ser deixado de lado por anos, Harrison achava que Yoko tinha uma voz de maior peso que a dele nas decisões da banda. Pior que isso, o casal estava praticando o que era conhecido como “percepção elevada” – baseada na crença de que a comunicação verbal era desnecessária entre pessoas “em sintonia” com as grandes verdades do universo. Seu efeito prático era o de cessar qualquer interação prática ou significativa. Quando assuntos cruciais eram levantados, John não dizia nada, concordando com o que quer que Yoko achasse. McCartney terminou desenvolvendo certa tranquilidade sobre o assunto. Havia apenas duas opções: opor-se a Yoko e fazer com que os Beatles voltassem a ter quatro membros ou aceitá-la. Ele preferiu a segunda, porque não queria perder John. Além disso, como chegou a declarar, não se sentia à vontade para exigir que John deixasse Yoko em casa. Ainda assim, Paul se incomodava quando Yoko se referia aos Beatles sem usar o artigo “os” – como em “Beatles isso, Beatles aquilo”. Paul tentava corrigi-la – “Na verdade, se diz os Beatles, querida” – mas sem sucesso. Por fim, Harrison atingiu seu limite. Em 10 de janeiro, ele e Lennon começaram uma briga que teria chegado às vias de fato, apesar de negarem o ocorrido (já George Martin declarou ao biógrafo Phillip Norman que a discussão chegou ao nível físico, “com todo mundo se acalmando depois”). O confronto foi um dos poucos que Lindsay-Hogg não capturou para a posteridade. Mas ele filmou George aparentemente saindo dos Beatles. “Estou fora”, disse, guardando a guitarra. “Ponham um anúncio e vejam se conseguem chamar alguém. A gente se vê por aí.” Paul e Ringo fi caram chocados, mas John não se abateu e começou a tocar uma versão de “A Quick One, While He’s Away”, do The Who, tirando um barato da angústia de George. Naquele mesmo dia, Yoko sentou-se no lugar de George, pegou o microfone e começou a cantar um blues ininteligível, enquanto os outros a acompanhavam, sem saber o que fazer, com medo de que Lennon se irritasse e também partisse (curiosamente se trata de uma performance memorável). No mesmo dia, Lennon sugeriu que recrutassem Eric Clapton para substituir Harrison: “A questão é, queremos continuar a banda sem George? Eu com certeza quero.” Em 12 de janeiro, os quatro Beatles se reuniram na casa de Ringo para tentar resolver suas diferenças. Mas, quando Yoko insistiu em falar por John, George foi embora de novo. Os Beatles chegaram a um acordo, dias depois, mas Harrison impôs limites rígidos: nada de shows grandes e nada de voltar a trabalhar nos estúdios Twickenham. Yoko, entretanto, continuaria participando de todos os ensaios, ao lado de John. “Yoko só quer ser aceita”, disse Lennon. “Ela quer ser uma de nós.” Quando Ringo respondeu “Ela não é um Beatle, John, e nunca vai ser”, Lennon bateu o pé. “Yoko é parte de mim agora. Somos John e Yoko, estamos juntos.” Quase duas semanas depois da saída de George, os Beatles voltaram a tocar, dessa vez em um estúdio improvisado no porão da sede da Apple. Harrison trouxe então o organista Billy Preston, que eles haviam conhecido em Hamburgo (Alemanha) em 1962. Preston participou dos ensaios e sua habilidade no improviso trouxe a dignidade que eles tanto precisavam. Lennon achou a presença de Preston tão revitalizante que quis transformá-lo em membro fixo, um quinto Beatle. A resposta de Paul foi taxativa: “Já é ruim o suficiente com quatro”. O prazo do projeto estava terminando. Ringo já estava comprometido com o filme Um Beatle no Paraíso, que começaria a ser filmado em questão de dias, e ao fim de janeiro já estava bem claro que não havia tempo para planejar um show, onde quer que fosse. Ainda assim, os Beatles e o diretor Lindsay-Hogg queriam um final para o filme e, em 29 de janeiro, alguém – uns dizem que foi Ringo, outros dizem que foi Paul ou até Lindsay-Hogg – sugeriu que o show fosse feito na tarde do dia seguinte, no telhado do escritório da Apple. Na hora marcada, esperando na escada que dava para o telhado, George e Ringo de repente não tinham mais certeza se estavam a fim de embarcar, mas, no último instante, Lennon disse: “Ah, foda-se, vamos fazer” e os Beatles, acompanhados por Preston, subiram no palco improvisado. Foi o primeiro show dos Beatles desde agosto de 1966 – e o último. Também foi o melhor, o que diz muito sobre o poder coletivo da afinidade musical e do carisma que os quatro cultivaram, e que nem suas desavenças mútuas seriam capazes de apagar. Enquanto tocavam (por quase uma hora), triunfando graças a seus instintos incomparáveis, John e Paul trocando sorrisos a cada bom momento ou deslize, a verdade sobre eles ficou clara: os Beatles eram uma família com uma história em comum, com uma linguagem particular que nenhum deles jamais esqueceria. Aqueles momentos, no entanto, não seriam suficientes para evitar o que estava para acontecer – ou o que já havia acontecido, duas noites antes. Oficialmente, a briga anterior de George e John começou com uma observação que o segundo fez em 10 de janeiro para um jornal, dizendo que se a Apple continuasse perdendo dinheiro, ele – e por consequência, os Beatles – estaria falido até o meio do ano. Talvez tenha sido um exagero, mas era verdade que a Apple estava fora de controle, e tanto Harrison quanto McCartney não gostavam da ideia de Lennon espalhando a notícia. Como resultado das contratações de artistas, a compra do prédio na Savile Row e o pagamento de altos salários para amigos e executivos, as contas da Apple extrapolaram. Como todos os Beatles, McCartney era diretor da Apple, mas era também o único a se envolver diariamente com os negócios durante o primeiro (e crucial) ano do empreendimento (Harrison sempre o primeiro a se cansar de tudo, contou a alguns confidentes que odiava a Apple e suas “salas cheias de lunáticos e de todo o tipo de aproveitadores”). Naqueles primeiros meses, Paul tentou controlar a situação da companhia, mas esbarrou na resistência dos outros Beatles; eles não tinham noção alguma de economia, uma vez que se preocupavam apenas em gastar e deixar as contas para que a Apple pagasse. Paul os alertou, mas foi rebatido pela visão de que preocupações financeiras eram algo ultrapassado. “Era como se eu tivesse assumido uma postura de traidor”, contou. “Era algo totalmente não comunista… e tudo o que eu dizia soava errado.” McCartney tentou avisar a Lennon que ele, em particular, estava gastando demais. “Eu disse: ‘Olha, John, sei que estou certo’. E ele disse: ‘Claro que está! Você sempre está certo, não está?'” O assunto atingiu o ponto crítico quando um contador se demitiu, deixando apenas um memorando bem direto: “Suas finanças pessoais estão uma zona”. Depois disso, tanto John quanto Paul concluíram que a Apple precisava de uma mão firme para conduzi-la – talvez fosse hora de contratar um novo diretor. Falaram com vários financistas e consultores, e McCartney logo decidiu qual seria a melhor e mais próxima opção: o pai de Linda Eastman, Lee, e seu irmão, John, eram advogados especializados em representações artísticas. McCartney achava que os Eastman poderiam administrar a Apple e salvar a fortuna da banda, mas os outros ficaram reticentes. Os três achavam que Paul já tinha influência demais no destino do grupo e não queriam pessoas tão próximas a ele supervisionando os negócios. John, em particular, acreditava que não podia deixar tanto poder concentrado na mão do parceiro. Durante anos, o advogado nova-iorquino Allen Klein procurou um meio de trabalhar com os Beatles. Homem rude e astuto, Klein era conhecido por ter resgatado os direitos de vários artistas. Mas também tinha a reputação de usar de táticas antiéticas e estava sob investigação do departamento fiscal norte-americano. Ainda assim, queria os Beatles mais do que tudo. Ele já havia se oferecido para Brian Epstein, dizendo que podia aumentar a fortuna da banda, mas ele não quis sequer apertar sua mão. Após ler os comentários de Lennon sobre o risco de falência dos Beatles, Klein conseguiu persuadir um relutante Peter Brown, um dos diretores da Apple, a marcar um encontro com Lennon. Em 28 de janeiro de 1969, dois dias antes do show no telhado, Klein encontrou-se com John e Yoko em um hotel em Londres, e encantou ambos. Ele conhecia a música dos Beatles profundamente, e sabia como agradar a Lennon: elogiando suas contribuições em várias canções (a despeito de seu ego enorme, John sentia-se inseguro, e precisava sempre de alguém que validasse seu trabalho) e valorizando a capacidade artística de Yoko. Tão importante quanto isso, Klein convenceu Lennon de que ambos partilhavam da mesma sensibilidade – eram homens das ruas que haviam vencido em um mundo cheio de dificuldades. No fim, o casal estava ganho: um acordo foi assinado pelas duas partes e Lennon informou a EMI e os Beatles: “Estou me lixando para o que vocês vão querer”, disse Lennon, “Mas eu escolhi Klein”. Esse foi o estopim para a morte dos Beatles. McCartney ainda tentava colocar Lee e John Eastman como representantes do grupo e marcou um encontro com eles. Mas Klein transformou a reunião em uma armadilha, provocando e ofendendo Lee Eastman, com a ajuda de Yoko. No fim, Eastman explodiu enfurecido, chamando Klein de “rato”, e abandonou a reunião com Paul. Quanto mais Klein se comportava de maneira inadequada e mais Eastman questionava seu caráter, mais Lennon e Yoko o defendiam como salvador dos Beatles e logo Harrison e Starr concordaram. “Por sermos todos de Liverpool”, disse George no meio dos anos 90, “preferíamos pessoas que fossem mais do povo. Lee Eastman era o tipo de cara preocupado com sua classe social. Uma vez que John ficaria com Klein, era bem mais fácil ficar com ele também”. Embora Mick Jagger, que não confiava mais em Klein, tivesse tentado convencer os Beatles – “Evitem esse cara”, escreveu em um bilhete para Paul – de nada adiantou. A discordância veio na pior hora possível. Em questão de meses, os Beatles perderiam a chance de comandar a ex-firma de gerenciamento de Brian Epstein, a NEMS (o que lhes custou uma fortuna), e, mais grave, Lennon e McCartney perderam seus direitos sobre a Northern Songs, companhia que distribuía as músicas da banda. McCartney se casou com Linda Eastman em 12 de março de 1969 e Lennon casou-se com Yoko em 20 de março, em Gibraltar. No dia do casamento de Paul, George e sua mulher, Pattie, foram detidos por posse de maconha (Lennon e Ono haviam sofrido a mesma acusação meses antes). Klein não havia resolvido nenhum dos problemas financeiros do grupo, apesar de suas promessas, e ainda assim John, George e Ringo continuavam apoiando-o. Na tarde de 9 de maio de 1969, durante uma sessão de gravação no Olympic Sound Studios, Klein esperava do lado de fora enquanto Lennon, Harrison e Starr, em seu nome, exigiam que McCartney assinasse um contrato de agenciamento de três anos com o empresário. Paul não quis. Justificou-se dizendo que os 20% que Klein pedia era muita coisa, mas a verdade é que ele não conseguia encarar a ideia de tê-lo como empresário dos Beatles. Os outros três ficaram furiosos, mas McCartney resistiu. “No meu ponto de vista, eu tinha de salvar a fortuna dos Beatles”, disse. “Eles disseram ‘Vai se foder!’ e foram embora bravos, me largando lá no estúdio.” Essa era uma batalha entre Lennon e McCartney; eram dois homens acostumados a vencer suas discussões, e ambos se recusavam a perder. McCartney acabou sucumbindo, mas não sem uma carta na manga: quando os Beatles assinaram seus contratos com Klein, McCartney se recusou a fazer o mesmo. Klein e os outros não acreditaram que aquilo faria alguma diferença – os três membros concordantes já completavam a maioria do grupo. Mas, naquele momento de dissidência, Paul se saiu com a única manobra genial na lamentável história do fim da banda: por não ter assinado o documento, ele mais tarde seria capaz de convencer a corte de que não estava mais contratualmente obrigado a permanecer com os Beatles e que nunca havia tido qualquer compromisso com Klein. Na época, Paul já estava desgostoso com a Apple, a companhia que tinha surgido majoritariamente de sua visão. De fato, ele agora odiava aquele lugar e havia parado de frequentar os escritórios. Quando Paul tentava falar com Klein, o empresário dos Beatles se recusava a atender. Apesar do suplício que haviam sido as sessões de “Get Back”, os Beatles se reuniram para fazer um novo álbum. Um mito criado mais tarde diz que o quarteto sabia que a banda estava terminando e por isso queria lançar um último disco à altura de sua reputação. Mas a verdade é que, a despeito de todos os seus problemas, os Beatles ainda gostavam da música que faziam juntos, mesmo não gostando mais uns dos outros. Eles já haviam trabalhado intermitentemente desde as gravações de janeiro, tendo produzido “The Ballad of John and Yoko” (só com Lennon e McCartney) e “Old Brown Shoe” (de Harrison, com a banda toda). Paul convenceu George Martin a voltar como produtor e também trouxe de volta Geoff Emerick, sob a promessa de que os Beatles se comportariam. Lennon teve de adiar sua presença nas gravações por conta de um acidente de carro envolvendo ele, Yoko, Julian e Kyoko, em 1o de julho de 1969. Quando Lennon chegou aos estúdios Abbey Road, pediu que fosse instalada uma cama para que sua mulher pudesse descansar e dar palpites. Nenhum dos Beatles ousou protestar. “Os três estavam meio assustados com ele”, relembrou o engenheiro da EMI, Phil McDonald. “John era uma figura poderosa, especialmente com Yoko – a força era dobrada.” Ainda havia desavenças, como quando Lennon invadiu a casa de McCartney, que havia perdido um ensaio, e furiosamente quebrou um quadro que havia dado ao amigo. Em outra ocasião, John queria que as músicas dele e as de Paul ficassem em lados diferentes do vinil. Fato ainda mais relevante: George finalmente teve sua importância reconhecida quando suas duas contribuições, “Something” e “Here Comes the Sun”, foram elogiadas como parte do melhor gravado pelos Beatles em 1969. O álbum resultante, Abbey Road, tornou-se não só uma amostra arrebatadora da maturidade da banda, mas também uma perspectiva sobre sua própria história, quer seus membros tenham tido essa intenção, quer não. Lennon mais tarde renunciaria a Abbey Road, dizendo que o álbum foi resultado de “uma malandragem” arquitetada por McCartney “para preservar o mito”, mas era costume de Lennon não apreciar a profundidade de ninguém além de si mesmo. Paul assistia aos Beatles se esfacelarem e se sentia mal com isso. Ao comentar os últimos segmentos da suíte do disco com Barry Miles no livro Paul McCartney: Many Years From Now, ele disse: “Sou bem-humorado e otimista, mas há certos momentos em que há coisas demais acontecendo e fica impossível me manter positivo. E aquele era um desses momentos. Carregar todo aquele peso por tanto tempo [citação à letra de “Carry That Weight”]: tipo, para sempre! Foi o que eu quis dizer”. Quando Abbey road foi lançado, em 26 de setembro, a irmandade dos Beatles já havia terminado. Em 13 de setembro, Lennon e Yoko tocaram no Toronto Rock & Roll Revival, com um grupo de convidados que incluía Eric Clapton, e a experiência convenceu John de que ele não conseguiria mais conviver dentro do confinamento de sua velha banda. Uma semana mais tarde, durante uma reunião na Apple – com Klein, os Beatles e Yoko -, Paul tentou mais uma vez convencer seus companheiros a fazer uma turnê. “Vamos voltar aos velhos tempos, relembrar por que estamos nessa”, ele disse. Lennon respondeu: “Acho que você está doido. Não ia falar nada, mas estou terminando a banda. E me sinto bem. É como um divórcio”. As pessoas na sala não sabiam se ficavam chocadas ou se encaravam a afi rmação como mais um dos surtos de Lennon. Ninguém – incluindo Yoko – sabia que aquilo aconteceria naquele dia. “Ficamos de queixo caído”, conta McCartney. Pela primeira vez, ele e Klein concordaram em alguma coisa: os dois persuadiram Lennon a segurar qualquer tipo de anúncio por pelo menos alguns meses. Klein tinha acabado de fechar um negócio que aumentaria substancialmente a porcentagem dos direitos autorais dos Beatles, e ele não queria assustar a EMI com a ideia de que a banda estava se separando. Além disso, Klein e McCartney acreditavam que Lennon ainda poderia mudar de ideia; oscilar de um extremo ao outro não era algo incomum para John. Mas Yoko pressentia o que viria a acontecer e estava tão infeliz quanto qualquer um deles naquela hora. “Saímos de carro”, diria ela mais tarde a Phillip Norman, “e ele me disse: ‘Chega de Beatles. De agora em diante, somos eu e você. Ok?’ E eu pensei: ‘Meu Deus, esses três caras o mantinham entretido há tanto tempo. Agora sou eu quem vai ter que assumir essa função’.” Lennon passou a deixar sinais antagônicos nos meses que se seguiram. Em comentários na Rolling Stone e na revista New Musical Express, no começo de 1970, Lennon disse que os Beatles poderiam voltar a gravar ou poderiam participar de um festival de verão no Canadá. George também havia falado de uma possível turnê dos Beatles. “Seria provavelmente como um renascimento para todos nós”, declarou Lennon. Mas McCartney estava arrasado; a banda – a vida da qual ele havia feito parte desde os 15 anos – tinha sido tirada dele. “John está apaixonado por Yoko”, ele disse ao London Evening Standard, “e ao que parece não está mais apaixonado pelo resto da banda”. Paul ficou em casa com Linda, sua filha mais velha, Heather, e a mais nova, Mary, e começou a beber de manhã e de tarde. Parou totalmente de compor e passou a explodir de raiva com frequência. Enterrou-se em uma depressão paralisante, até o dia em que Linda percebeu que não suportava mais. “Aqui estou eu casada com um bêbado que não toma banho”, disse a um amigo, de acordo com Paul McCartney: A Life, de Peter Carlin. “Você não tem de aguentar isso”, disse ela ao marido. “Você já é um adulto.” No Natal de 1969, McCartney seguiu o conselho da esposa e começou a trabalhar em seu primeiro álbum solo. Ele ligou para Lennon em março de 1970 e o informou que também estava deixando os Beatles. “Ótimo”, respondeu seu parceiro de longa data. “Com você, somos dois a aceitar o fato.” Qualquer esperança de reconciliação foi demolida por uma série de tropeços cometidos por Lennon, Klein e Harrison nos primeiros meses de 1970. Os ensaios e as gravações de janeiro de 1969 já haviam sido editados, e Klein queria um álbum para acompanhar o filme, que agora se chamava Let It Be, título de uma música de Paul (embora Abbey Road tenha sido gravado depois de Let It Be, o álbum já havia sido lançado em setembro de 1969). Glyn Johns havia tentado juntar material para um álbum no ano anterior; Paul concordou, mas John odiou tudo o que ouviu. Ironicamente, o resultado havia chegado bem perto da crueza que Lennon havia originalmente insistido em atingir, e, no início de 1970, Klein queria algo com mais apelo comercial. Em março, John entregou as fitas de janeiro de 1969 – que descreveu como “o pior monte de merda já gravado” – para o lendário produtor Phil Spector, que havia trabalhado com Lennon no single de “Instant Karma!”, em janeiro (Klein e Spector não queriam George Martin envolvido. “Não acho que ele esteja no meu nível”, disse Spector. “Ele é um arranjador e não mais que isso”). As mudanças que Spector trouxe para Let It Be foram, na melhor das hipóteses, desastrosas, engessando tanto a canção-título quanto a emocionante balada intimista “The Long and Winding Road” com camadas excessivas de orquestra (as modificações que Spector fez em “The Long…” soavam tão radicais que Ringo, que acompanhava o processo, arrastou o produtor pelo braço até a parte de fora do estúdio para repreendê-lo). No período em que trabalhou, Spector jamais consultou McCartney sobre as mudanças que fazia, o que pode ter sido a intenção de Klein e de Lennon. Depois de ter acesso à nova mixagem, Paul solicitou algumas mudanças, mas Klein disse que era tarde demais (em 2003, Paul e Ringo lançariam uma versão chamada Let It Be Naked, livre dos arranjos de Spector). A afronta final veio quando Klein, Harrison e Lennon determinaram que McCartney não poderia lançar seu álbum de estreia em 17 de abril de 1970, como havia planejado originalmente, atrasando-o para 4 de junho para não atrapalhar o lançamento de Let It Be, previsto para 24 de abril. Quando John e George enviaram Ringo como emissário para a casa de Paul, com uma carta contendo o comunicado, ele reagiu com uma raiva incomum; antes que a discussão acabasse em pancadaria, Paul expulsou Ringo de sua casa. Quando o baterista reencontrou os outros, se sentiu mal pelo que haviam feito a Paul – “Ele é nosso amigo”, disse – e pediu que deixassem que McCartney mantivesse a data de lançamento planejada. Harrison e Lennon concordaram, adiando o lançamento do disco dos Beatles para maio, mas ficaram ressentidos com o ex-parceiro. O sentimento era mútuo. “Estamos todos falando de paz e amor”, Paul declarou a um jornal na época, “mas na verdade não estamos nos sentindo nem um pouco pacíficos”. Nenhum deles, entretanto, imaginaria o que McCartney acabaria fazendo. “Não podia deixar que John controlasse a situação”, disse, tempos depois. Em abril, quando lançou seu primeiro trabalho solo, McCartney, Paul também liberou uma autoentrevista em que deixava algumas coisas bem claras: P: Sente falta dos Beatles? R: Não. P:Planeja um novo álbum ou single com os Beatles? R: Não. Muito antes de John Lennon dizer ao mundo que “O sonho acabou”, Paul McCartney já tinha dado a notícia. Lennon encarou a declaração do parceiro como um ato de usurpação inaceitável. “Era o que eu queria e deveria ter feito”, disse Lennon. “Fui idiota de não ter feito o que Paul fez, que foi usar o fato para vender discos.” Mas o ressentimento ia mais fundo. Os Beatles eram originalmente a banda de John, e, no fundo, ele achava que o futuro dela dependia dele. “Eu fundei a banda, eu terminei com ela”, disse. Lennon, ao que parecia, estava bravo com McCartney porque dava-se a entender que era ele quem havia deixado Lennon, e não o contrário. “Acho que era só inveja”, Paul declarou a Barry Miles. Na época, Paul disse a um jornal: “Ringo saiu primeiro, depois George, então John. Eu fui o último a sair! Não fui eu!” Mas o fi m dos Beatles estava apenas entrando em uma nova e estranha fase, que duraria anos. McCartney não queria ter mais ligação alguma com a Apple – não queria que Allen Klein tivesse envolvimento com sua música ou direito a parte dos lucros -, mas, quando ligou para Harrison procurando consentimento para abandonar o acordo, George respondeu: “Você vai fi car na porra do selo. Hare Krishna”. Paul escreveu longas cartas a John, implorando para deixar a empresa dos Beatles, mas Lennon respondia em apenas uma ou duas linhas, sem tomar partido no caso (Klein mais tarde admitiria que ele havia sido pego totalmente desprevenido). Os outros três deram a mesma resposta no tribunal: não havia necessidade de encerrar o grupo – as coisas não estavam tão ruins e eles ainda podiam fazer música juntos. O único problema era a mania que Paul tinha de querer controlar tudo. O juiz decidiu que o pedido de dissolução feito por McCartney era válido, mantendo os lucros dos Beatles sob custódia até que todos os detalhes da separação – o divórcio que Lennon queria – pudessem ser determinados. Em 1973, o contrato dos Beatles remanescentes com Klein terminou e não foi renovado; eles tinham se cansado do empresário. Logo, George, John e Ringo viriam a processá-lo (Lennon admitiria em uma entrevista que talvez McCartney estivesse certo a respeito de Klein), e em outro processo relacionado à Apple Klein seria sentenciado a dois meses de prisão por fraude. Quando o problema com Klein foi resolvido, Harrison disse que não se importaria em reunir os Beatles. Quando chegou o momento de o quarteto se juntar para assinar o documento de dissolução da parceria, Lennon se recusou a comparecer – ele temia ficar com menos dinheiro do que os outros, e alguém próximo a ele disse que o músico entrou em pânico, porque aquilo significava que os Beatles realmente haviam terminado. Talvez a intenção dele nunca tivesse sido acabar com o grupo, no fi m das contas. / Apesar disso, foram seus caprichos e raiva que acabaram por destruir a banda. Na mesma reunião em que anunciou sua saída dos Beatles, Lennon também jogou na cara de McCartney os anos de insegurança e descontentamento que guardava. Ele sentia que Paul o havia eclipsado desde sempre, levando mais tempo para entender os sons que ele queria no estúdio, ganhando mais a aprovação de George Martin por fazer músicas de melodias fáceis. Além disso, Paul tinha simplesmente composto demais, pela avaliação de John. Na época das gravações de Magical Mystery Tour, Lennon disse: “Você já tinha cinco ou seis músicas, então eu pensava: ‘Foda-se, não consigo acompanhar esse ritmo’. Por isso não me importava mais se eu estava dentro ou não. Convenci a mim mesmo disso, e por certo tempo, se você não me convidasse para estar no disco, se vocês não chegassem e dissessem ‘Componha mais porque gostamos do seu trabalho’, eu não iria insistir”. Mas Lennon completou: “Não havia sentido nenhum em compô-las – eu não tinha forças para compor e ainda tentar incluí-las no disco”. Foi uma confissão notável. John Lennon – que até Abbey Road e Let It Be havia escrito a maior parte das obras-primas dos Beatles e definido a profundidade do trabalho da banda – não suportava mais dividir seu brilhantismo com Paul McCartney. Os Beatles seriam capazes de sobreviver a qualquer tensão que Yoko pudesse ter trazido. Sobreviveram a Klein. Mas os Beatles não conseguiram sobreviver a Lennon. Sua ansiedade era grande demais. E então os Beatles terminaram. Lennon, Harrison e Starr tocaram juntos em várias formações no decorrer dos anos, embora raramente tenham gravado com McCartney; uma vez, quando Eric Clapton casou-se com a ex-esposa de Harrison, Pattie Boyd, Paul, George e Ringo tocaram ao vivo por alguns minutos. Uma vez, John e Paul também tocaram juntos, em 1974, no estúdio de alguém em Los Angeles. E Paul teve papel importante na reconciliação de John e Yoko quando os dois se separaram. Lennon e McCartney, a dupla de compositores mais importante da história, reatou sua amizade no decorrer dos anos, embora tenham permanecido distantes e circunspectos e nunca tenham voltado a escrever juntos. Lennon foi assassinado em 1980. Paul, George e Ringo voltaram a se reunir como os Beatles no meio dos anos 90 para tocar em faixas inacabadas de John, lançadas na série Anthology. Harrison morreu de câncer do pulmão em 2001. Paul McCartney, com a ajuda de Lee e John Eastman, se tornou o homem mais rico do show business, e Linda McCartney morreu de câncer de mama em 1998. Tudo isso lembra uma história de amor? O amor perde todo o seu valor quando tudo termina? Talvez sim, embora finais não apaguem a história; em vez disso, a concluem. A história dos Beatles sempre foi, de certa forma, maior que os próprios Beatles, tanto a banda quanto os indivíduos que a formaram: foi a história de uma época, de uma geração que buscava novas possibilidades. Foi a história do que acontece quando você encontra essas possibilidades, e o que acontece quando suas melhores esperanças vão por água abaixo. Sim, foi uma história de amor – e o amor quase nunca é uma bênção simples. Porque, por mais que os Beatles possam ter amado o que faziam juntos, o mundo em volta deles os amava ainda mais. Foi esse amor que, mais do que qualquer outra coisa, exaltou os Beatles e os acorrentou juntos por tanto tempo. Algo que, por fim, nenhum deles conseguiu suportar. John Lennon, em particular, sentia que precisava acabar com o romance, enquanto Paul McCartney em especial odiava a ideia de vê-lo despedaçado. E, uma vez que estava feito, estava feito. Tudo o que eles criaram – cada uma das maravilhas – ainda reverbera, mas os corações responsáveis por tudo aquilo também foram responsáveis pelo seu fim, e nunca se recuperaram totalmente da experiência. “Foi há tanto tempo”, George Harrison declarou anos mais tarde. “Às vezes, me pergunto se eu estava mesmo lá ou se foi tudo um sonho.” Eles estavam lá e foi tudo um sonho. Um sonho que nos elevou, que partiu nossos corações, que ainda perdura e que provavelmente jamais será igualado.

WE LOVE THE BEATLES FOREVER

Uma resposta em “Há 45 anos, McCartney anunciava o fim da banda The Beatles!

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