“Minha Vida com o Rock”, por Paulo Ribeiro (The Flemings)

Já contamos aqui a historia do conjunto “The Flemings”, que foi um conjunto de Rock dos anos 60, um relato feito por um dos integrantes, o baterista Paulo Mendes.

Dando continuidade ao registro histórico desta banda de Rock, agora é a vez do fundador do grupo também dar seu depoimento.
Quem nos conta sua vida com o Rock, é o músico Paulo Ribeiro…

The Flemings - Paulo Machado

Os Fundadores do conjunto The Flemings foram quatro garotos que na época tinham 14 anos. São eles: Paulo Machado Leite Ribeiro, Paulo Mendes, Luiz Carlos e Luiz Antonio. Paulo Ribeiro criou o nome e juntou a todos. Nesta foto tirada na Foto da Revista do Rádio – Paulo (batera) Mendes é o único que está sentado e o Paulo Ribeiro é o mais alto.

 

Cara Lucia,

Gostaria de contar também meu convívio com os artistas da década de 60, a “Jovem Guarda”.
Primeiro eu cantava em dupla com Horácio Ramasine (depois participante dos Canibais e Sunshines); também cantávamos com o Roberto “Rei” Marcio Montarroios (Pistom), Claudio Caribé (bateria), Erasmo (Carlos) Esteves, Paulo Sergio, que nos apresentou ao Pedrinho dos “Fevers” e o Tião depois Tim Maia. Os Batistas incentivavam a musica e tinham um grande auditório e diversos eventos musicais.
Depois de cantar com Horácio participei do conjunto “The Flemings“ e do ”Star”, outra vez com Horácio.
Por me acidentar, passei um ano parado e Horácio foi para os Canibais e eu toquei nos “The Blue Jeans Rock” com Claudio Caribe, Luis Antonio e Cesinha Barros (PC).
Fui contratado pela “Onda Jovem” da Tupi, gravando depois em 1967 na CBS como “Paulo e Mery”. Convidado por João José a continuar ”Os Jovens” na Philips. La gravamos com ”The Brazilian Bitles”.

Sobre a nossa ida (Os Flemings) para o Luizinho e os Dinamites:

O Luiz Carlos havia saído do conjunto The Flemings para se casar e no lugar dele entrou o João, que embora não tivesse o mesmo carisma e boa aparência do Luiz Carlos, tocava bem guitarra e cantava.
Dai seguimos, tendo se incorporado ao grupo a Neuzinha como (boa)cantora. Teríamos chegado à Jovem Guarda, pois o Roberto Carlos nos convidou para irmos a São Paulo, e teríamos ido se o Luiz Antonio não saísse também.
Assim, como era muito difícil achar um baixista naquela época, ainda tentamos o Pedrinho dos Fevers mas ele morava longe. Nesse meio tempo o Luizinho ficou sem o grupo dele e me chamou para tocar guitarra de marcação. Eu chamei o Paulo e o João e vínhamos tocando bem quando o Luizinho, muito ingrato, me dispensou, passando ele mesmo a tocar guitarra de marcação pois queria que o grupo ficasse com a formação dos Beatles.
Logo depois o Luizinho dispensou também o resto da turma e foi cantar sozinho imitando o Trini Lopes. Eu ainda cheguei a fazer shows com ele na “Onda Jovem” da Tupi.
O Rock paulista “bombou” primeiro que o carioca. No Rio tínhamos o Sérgio Murilo, Sonia Delfino e o Eduardo Araújo, capitaneados pelo Carlos Imperial na TV e Jair de Taumaturgo no Rádio (programa Hoje é dia de Rock).

Vou relatar pra vocês a minha vida com o Rock, como segue:

Quando fui ”abduzido” pela Internet, (expressão usada pelo meu amigo Horácio Ramasine) e pelo Faceboock em 2015, comecei a fazer contato com diversos artistas do Rock nacional mencionando fatos que passamos na época da “Jovem Guarda” e até antes dela.
Pude então perceber o quanto havia vivido e convivido com esses companheiros de jornada e cada pessoa a quem dedicamos uma parte do nosso tempo, passou a fazer parte integrante da própria “história” do mundo particular de cada um, ou seja, todos passamos a fazer parte de um todo.
Tive então, o desejo de escrever essa experiência, se possível comprovando os fatos por documentos, depoimentos ou constatações dos fatos ocorridos no início dos anos 1960.

PRIMÓRDIOS MUSICAIS

Meu nome é Paulo Machado Ribeiro Leite e nasci no Rio, mais precisamente no bairro de Lins de Vasconcelos quando os anos quarenta iam para seu término.
Venho de uma família de classe média cujos pendores musicais eram comuns nesta classe.
Assim, meu bisavô paterno foi maestro importante do Rio, regendo a Orquestra Imperial. Meus avós maternos foram guitarristas na terra deles (Açores) sendo que minha avó também cantava até a idade de oitenta e três anos, tendo feito dupla comigo algumas vezes nas canções dela e nas minhas.
Minha mãe e meu tio tocavam piano, tendo me colocado para estudar música na Escola Nacional de Música com sete anos de idade.
O curso que frequentei era de “Iniciação Musical” e lá comecei a ter contato com a música.
Logo esta me encantou. Eu já ouvia muito as músicas que meu pai e mãe cantavam ou colocavam na vitrola e procurava, também, interpretá-las, até mesmo cantando em inglês.
Na Escola Nacional de Música compus minha primeira música e fui alçado a “maestro mirim” do coral das crianças, minhas colegas de turma.
Com a separação de meus pais tive de me mudar para o bairro do Grajaú e parar com meus estudos de música vocal e piano.
A busca contínua pelo som me fazia já aos dez anos viver ouvindo qualquer tipo de música que tocasse no rádio ou em outros locais .
Em 1958, com o surgimento de “Elvis Presley” no cenário mundial, Cely Campelo e outros no Brasil, passei definitivamente a decorar e tocar e cantar as músicas desses que depois se tornaram queridos colegas.
Nessa época surgiram no Grajaú diversos artistas amadores como Elton Roberto (mais tarde Roberto Rei) e seu conjunto musical, assim como os The Blue Jeans Rock.
Colegas como Roberto Rei, cantor e violonista , Claudio Caribé e Rostan (bateristas), Lafayete (pianista), Fritz (guitarrista), Marcio Montalroios (piston), se destacaram mais tarde no cenário musical do Rock e na Jovem Guarda. Todos eram moradores do bairro naquela época.
Logo programas de rádio catalisaram as atenções dos jovens aqui no Rio de Janeiro destacando-se, sobremaneira, o programa “HOJE É DIA DE ROCK”, capitaneado por Jair de Taumaturgo.
Esse programa lançava calouros e, quando vinham astros de outros Estados e até de fora do Brasil, apresentava os mesmos ao vivo.
Cely e Tony Campello, Demétrius, Eduardo Araújo, Sergio Murilo, dentre
outros, atraiam-nos a ouvir o Rock nacional.
No Grajaú surgiu também o ”Everly Brothers”, conjunto musical que se destacou, inclusive ganhando prêmios.
Elton e Gláucio eram os vocalistas cantando a duas vozes. Roni, Alfredo, Fritz, Claudio era a formação instrumental mais contumaz.

BLUE JEANS ROCK, LAFAYETE, RENATO E SEUS BLUE CAPS (PRIMEIRAS FORMAÇÕES) E THE FLEMINGS.

Em 1960 Luiz Carlos Maldonado saiu do conjunto “Blue Jeans Rock” e após integrar o “Everly Brothers” brasileiro, me chamou para tocar com ele. Formamos o conjunto musical “The Flemings”.
Primeiro éramos só uma dupla cantando e tocando violão juntos. Depois chamamos Luiz Antônio Rocha para tocar o que na época chamávamos de “guitarra baixo”. Após ensaios resolvemos chamar um baterista. Eu tinha um amigo do Curso Grajau e Colégio São José, chamado Paulo Mendes, que tocava este instrumento. Foi chamado e se saiu muito bem.
Fomos tocar no Grajau Tenis Clube, tendo até foto da época em que tínhamos 15 anos!
Naquele Show o conjunto co irmão Everly Brothers brasileiro, foi tocar após a nossa apresentação e sem permissão, usando nossos instrumentos, então Luiz Antonio cortou o fio da eletricidade do palco e tivemos de sair correndo antes que nos batessem.
A seguir participamos do programa ‘HOJE É DIA DE ROCK” da rádio Mayrink Veiga tendo sido campeões em setembro de 1962. Nessa época além desses amigos já mencionados, contamos com a participação como “crooners” de Elizabeth (para nós Beta) e Paulo Sergio Cantor do Lins, para nos, “Paleco “.

Nosso conjunto chegou a ter também pianista Sheila, pistom Luiz Papai, sax Maria Luiza, nessa época do Hoje é Dia de Rock , no rádio e depois na TV RIO.

Em 1963 Carlos Imperial nos chamou para tocarmos fixos no seu programa “Alo
Brotos” que ia ao ar às quintas-feiras na TV CONTINENTAL.
La tocávamos nossos próprios números, como Blue Star, Apache, Ya Ya, BeBop a
Lula e outros e acompanhávamos também inúmeros outros artistas que viriam a integrar a Jovem Guarda.
Renato (dos “Blue Caps) chegou a ir ao programa pois tocara no programa anterior do Carlos Imperial chamado “OS BROTOS COMANDAM”, da Tv Tupi.

Nesse programa acompanhamos:

Roberto Rei
Hamilton
Ed Wilson
Os Diamantes
Toni Tornado (que dançava tb)
Ari e Mariinha
Paulo Sergio
George Freedman
João Carlos
Rosa Maria
Neusinha Rocha
Elizabeth

O Imperial era um cara com visão futurista. Lembro uma vez que ele queria agradar ao
colega Fred (?) pois esperava que o pai deste patrocinasse o programa por ser empresário.
Assim nos pediu para caprichar na apresentação que era ao vivo. Colocou o Wilson Simonal, seu secretário na época, cantando em outro microfone escondido nas cortinas junto com o Fred a fim de que o som ficasse forte para os telespectadores e a plateia. Não sei se conseguiu o patrocínio, mas ali ele já antevia recursos de gravação que foram usados, como dobrar a voz e reverber.

SEGREDOS DE ROBERTO CARLOS, ERASMO (ESTEVES) CARLOS, ROSEMARY, WANDERLÉA, SIMONAL.

The Flemings, o Conjunto Campeão de Rock!

Foto dos Flemings na Rádio Mayrink Veiga, do acervo de Luiz, do Piston.

Foto dos Flemings na Rádio Mayrink Veiga, do acervo de Luiz, do Piston. Paulo Ribeiro é o mais alto e Paulo Mendes está sentado na bateria.

Era o programa de maior audiência dos jovens nos fins dos anos 50 e até 1964 quando fechou a Rádio Mayrink Veiga. Depois de certo tempo também foi editado na TV RIO.
No rádio a sensação é diferente da TV. A imaginação é mais poderosa que a imagem.
Diversos amigos e colegas já haviam concorrido ao concurso de Campeões de Rock ao Vivo pois incrivelmente a MÍMICA tinha mais apreciação que a música ao vivo!
Assim, vimos os Everly Brothers brasileiros, João José, depois integrante de OS JOVENS, os Sunshines, Jorge Cambla e outros serem campeões.
Nos inscrevemos com o Jair de Taumaturgo e fomos concorrer também nos idos de 1962.
Nos ensaios e apresentações ao vivo quem cantava era nossa crooner “Beta” depois conhecida por Elisabeth, a cantora do sucesso “Sou Louca por Você”, dentre outros. A canção seria YA YA, um hit dos “Star Ligths” e Joe Dee.
No dia do concurso a Beta ficou rouca e quem cantou foi nosso guitarrista Luiz Carlos
Maldonado , que se saiu bem como cantor. O The Flemings era então formado, além dos quatro já citados, por mais Luiz Pacheco no pistom , a Sheila no piano e a Beta cantando.
No meio do solo de piano e sopro o público nos aplaudiu em cena aberta e como era tudo ao vivo, os ouvintes tiveram conhecimento dos aplausos. Nossos amigos e primeiros fãs deliraram pelo rádio.
Terminada a apresentação fomos aguardar o resultado que sairia no fim do mês. Tendo sido chamado pela produção fui à rádio justamente no dia em que lá se apresentou nada menos que Neil Sedaka. Foi divulgar seu disco e acabou no palco do “Hoje é Dia de Rock”, acompanhado por seu piano e por Renato e Seus Blue Caps!
Foi sensacional a apresentação, não havia nenhum segurança entre o palco e a plateia delirante. Como participante do programa vi nos bastidores aquela apresentação, juntamente com outros colegas que também participariam posteriormente. Lembro que outro Renato, componente de um grupo de Mímica (SHIBUNS OF ROCK ?) estava olhando por uma fresta da cortina.
Acabou a apresentação, Neil Sedaka saiu aplaudidíssimo e de tão contente que, ao ver o Renato, que era um negão de um metro e oitenta , mas bem novinho, se encantou com ele e não o largou tão cedo…
Há algum tempo reencontrei o Renato (o negão) que é vendedor de antiguidades
da época, ao lado da Biblioteca Nacional, e relembramos o caso. rs,rs,rs !
Também Renato Barros lembrou comigo a apresentação quando foi meu produtor na sua gravadora selo GEMA.
No fim do mês veio o resultado e tiramos o primeiro lugar.
Tornamos a nos apresentar com Luiz cantando e somente numa terceira apresentação é
que a Beta cantou “Peppermint Twist”.

(Nota: “Peppermint Twist” é uma canção escrita por Joey Dee e Henry Glover, gravada e lançada por Joey Dee and the Starliters em 1961.)

Como nosso guitarrista não queria mais cantar incorporou-se ao grupo o João que cantava no estilo do Cliff Richard. Nós nos apresentamos então no “Hoje é dia de Rock” da Tv que tinha a mesma produção. Além do João também tocou a Maria Luiza saxofonista junto com os já supramencionados!

Para ilustrar, segue uma gravação da música “Estranha”, que é uma versão da canção “Dear Someone”, feita pelo conjunto The Flemings em 1963/64, portanto muito antes de “Benzinho”, com Paulo Sérgio…

ONDA JOVEM

Após a primeira parada do The Flemings, levei os remanescentes Paulo Mendes (batera) e João para substituir juntamente comigo os integrantes dos Dinamites do Luizinho. Esse conjunto era muito bom. Euclides, o guitarrista solo, tinha tocado com Renato e Seus Blue Caps e juntamente com Bolonha (baixo), Carlos (bateria ) e Jair (guitarra) formaram “OS SANTOS”, deixando Luizinho com um tremendo LP gravado com versões de músicas do Cliff Richards do LP Rock Turbulento. O Luizinho gostou, pois nós dos The Flemings já estávamos entrosados e tínhamos experiência na música jovem.
Após ensaios estávamos prontos quando o Luiz resolveu fazer uma guitarra canhota pra ele mesmo tocar pois antes ele sempre cantava como o Cliff Richards. Fez com que todos se vestissem como os Beatles e saiu para shows não me levando. Poucos meses depois resolveu desfazer os Dinamites e se lançar sozinho imitando o Trini Lopes, sem nenhuma razão, pois o grupo estava muito bom.
Tive de parar um pouco com a música e estudar para o vestibular de Direito. Após, recebi o convite do meu amigo de infância Horacio Vasseur Ramasine (Canibais) para formar um conjunto musical.
Chamamos Humberto (bateria) e Ronaldo Paladini e, após ensaios, passamos a fazer shows. O grupo era muito bom e de um bom humor sem par. Poucos meses depois de começarmos eu me acidentei ferindo um dos pés, tendo que ficar de cama por longo tempo, acabando assim com os “OS STARS”.
Horácio, quando melhorei, estava atuando no “OS CANIBAIS” com brilho e me apresentou a Denise Barreto, uma menina que havia sido acompanhada por um antigo conjunto musical do Horácio, chamado Rio Ritmo.
Denise era miudinha como a Rita Pavone e se apresentava inicialmente como clone da mesma. O pai de Denise, Sr. Barreto, após algum tempo em que tocávamos violão e cantávamos juntos na casa dela, me deu uma carta de apresentação a Luiz Fernando Quirino, Manager da Rádio Tupi, que me contratou para fazer parte do programa levado no Rádio e na TV TUPI “ONDA JOVEM”. Esse programa era a Denise quem apresentava com muita graça. Comecei a cantar sozinho e a fazer shows com a trupe por todo Rio de Janeiro. Nessa época tive a honra de ser namoradinho da Denise e nunca me esqueço do carinho da família Barreto que me acolheu em sua casa por meses.
Horácio, por sua vez, namorava Maritza Fabiani, vivendo um romance tórrido e cheio de briguinhas próprias de um casal de vinte anos apenas. As músicas que os dois fizeram um para o outro eram muito boas e ainda vou ver se as resgato. Na casa da Maritza moravam também sua irmã casada com Paulo Cesar Barros e o irmãozinho Prentice que depois se tornou um grande cantor.
Como precisava trabalhar aceitei o convite do conjunto “BIG DEVILS” para ser crooner. Fazer um baile de cinco horas por noite só com músicas da Jovem Guarda era uma pedreira. Tanto que diversos colegas passaram a querer tocar o máximo de duas horas, obrigando os locais onde se realizavam os eventos a contratarem dois conjuntos musicais por noite. Isso aumentava ainda mais a afluência do público. Assim tive o prazer de tocar e conviver com os Sunshines, Canibais, Bolhas, Renato, Selvagens, The Jets, The Silvers Boys, As Gatas, The Cry Babys, Brazilian Bitles, Feitiço Da Vila, dentre outros. Luiz Fernando, da Rádio Tupi, me levou então para a Columbia (CBS) para fazer um teste para ver se seria contratado. Fui atendido pelo próprio Diretor Evandro Ribeiro, homem a quem a Jovem Guarda deve muito pois sempre teve fé neste ritmo desde 1960, quando lançou Sergio Murilo e depois Roberto Carlos. Passei no teste e o Sr.Evandro me contratou dizendo que eu deveria esperar uma oportunidade para gravar, pois já havia muito cantor gravando (além do Roberto, o Edinho, o Jerry, o Jose Roberto, este que era seu protegido e chamado por nos Jose Ribeiro, o Luiz Carlos Ismail, Robert Livi, Carlos Lee e outros. Pouco esperei pois a dupla Leno e Lilian se separou e então o Sr. Evandro me disse que ensaiasse com uma moça para ele ver se nos lançaria como a nova dupla mista da CBS. Chamei minha colega do conjunto The Flemings, a ex crooner “Beta” ( Elizabeth ) para gravar. Ensaiamos, fizemos músicas, gravamos “demos” e estávamos prontos para lançar o que seria então”Paulo e Beta”, quando minha amiga foi chamada pela gravadora Continental para gravar um LP de samba produzido pelo grande Braguinha.
Beta me pediu desculpas e disse que já tinha assinado o contrato não indo gravar comigo na CBS; aquele disco dela não deu em nada e só fez sucesso com o Rock mesmo. A essa altura o Sr. Evandro, que havia gostado muito já designava data para nossa gravação.
Fiquei aterrado, ter sido admitido pela poderosa CBS e na última hora não gravar, era desesperador! Comentei o caso com meu amigo Luiz Fernando da Tupi e ele me arranjou a Marisa, cantora de 15 anos, componente do grupo Os Rebeldes, para gravar comigo. Ensaiamos rapidamente as musicas que gravei com Beta nos testes da CBS, mas o Sr. Evandro, obviamente, sacou a troca e nos mandou gravar tudo de novo.
Chamei meus amigos particulares do The Flemings e Horácio e fizemos verdadeiros discos no estúdio menor da CBS. Somente anos mais tarde tive a oportunidade de levar a público essas obras depois turbinadas pela moderna tecnologia dos estúdios digitais. Os selos Havai e depois Gema lançaram mais tarde estas obras. Na CBS encontrei colegas como Renato, Roberto, Edinho e Wanderléa, esses dois últimos cheguei a acompanhar como músico em shows das balas “Ping Pong”. Renato era em 1960 meu “adversário musical” amistoso. E m 1961 Claudinho Caribe, meu colega de turma no colégio Batista, quis me levar para tocar guitarra no Renato e Seus Blue Caps, mas como era a casa deles em Piedade e eu já estava no Flemings não pude aceitar. Foi uma grande honra, porém. O Renato era um conjunto “familiar” efetivamente, formado por Paulo César, Renato Barros e Ed Wilson que tocava violão e vocalizava principalmente com Paulo Cesar. Foram talentosos demais. Mais tarde entrou o primo Carlinhos. Claudinho Caribe, então, levou outro colega nosso que era cantor e tocava guitarra de marcação para integrar o Renato . Tiveram sorte e logo gravaram. O nome desse colega era Erasmo Esteves, que depois mudou o nome para Erasmo Carlos, na época secretário de Carlos Imperial, assim me disse o Claudio…

Havia uma prática interessante no meio musical da Jovem Guarda, que era quando às vezes um empresário ou apresentador de programas de Rádio ou TV organizavam “caravanas” de artistas para tocarem em determinados lugares a fim de faturarem.
Alguns nem pagavam em dinheiro os caches dos artistas, o faziam apenas executando seus discos ou os chamando para atuarem, divulgando, assim, suas obras musicais.
Com certeza isso ajudou também a difundir a Jovem Guarda, pois como já disse anteriormente, se diversos artistas se apresentam num mesmo evento em tempo subsequente havia maior possibilidade de agradar ao público.
Minhas atuações nos Circos do interior são inesquecíveis. O público que não tinha a oportunidade de possuir casas de espetáculos nos pagava com gratidão e entusiasmo sem par pelas nossas atuações. Às vezes era preciso até ter segurança, que era feita pelo pessoal do circo ou do próprio apresentador para nos “apartar” de nossas queridas fãs que nos abraçavam em tanto número e por tanto tempo que chegavam a sufocar a gente, tanto emocional quanto fisicamente! Só quem se sentiu tão amado sabe quão gratificante é dar e receber esse amor público. Sentir que sua mensagem alcançou o coração de muitos! É isso que, principalmente, animava o artista a seguir, mais do que os proventos materiais.
Carlos Imperial organizou uma dessas “caravanas” em 1964 a Cachoeiro de Itapemirim. Seu programa “ALO BROTOS” da TV Continental tinha saído do ar, mas o vídeo tape dele era retransmitido para outras associadas por diversos lugares do país.
Cachoeira de Itapemirim é a terra natal de Carlos Imperial e Roberto Carlos. De família abastada o primeiro tinha meios de divulgação fortes para organizar eventos musicais.
Esses dois “Carlos” são verdadeiros heróis para seus conterrâneos e consideram obrigação prestigiá-los!
Imperial convocou então, para acompanhar os artistas o conjunto The Flemings e também Roberto o Rei, Toni Tornado , Hamilton, Ademir, Ary e Mariinha o grupo vocal Os Diamantes (eram parecidos com os Golden Boys) e levou também uma “arma secreta” para emocionar a plateia, que chamávamos de A Claque! A Claque era composta de belas garotas da praia de Copacabana onde Imperial morava em sua mansão ao lado da TV RIO.
As meninas “ensaiavam” com Imperial os momentos em que tinham que gritar durante uma musica em andamento, chorar em determinado momento por seus artistas, dançar na plateia e outras armações perpetradas por esse querido amigo.
Assim, no meio do show, A Claque, distribuída pela plateia, incentivava sobremaneira, muitas vezes tirando os rapazes locais para dançar em cena aberta, e levando outros casais locais a fazer o mesmo.

Carlos Imperial e uma das meninas da “claque”.

Deste modo mais ou menos metade da plateia assistia e a outra metade assistia e dançava, assim a própria plateia participava ativamente dos shows.
Imperial era ele próprio um artista da comunicação; tinha algo de poético que entusiasmava e levava mesmo a todos ao delírio. Até a nós mesmos seus artistas. Era como um bom técnico de futebol, estrategista e incentivador sem par!
Abrimos o show em Cachoeiro atuando em um Cine Teatro monumental como era o Cine Olinda. O hotel onde estávamos era ao lado do Cine e entrávamos por um portão vicinal e ninguém nos via até chegarmos aos bastidores.
Começávamos com musicas lentas como Blue Star e Apache depois “embrasávamos” com Be Bop a Lula e o The Fleming Theme, que o nosso guitarrista Luiz Carlos Maldonado havia composto. Este tema era o preferido do Imperial por ser trepidante!
Nesse momento Imperial ia ao meio do palco se agitando e dando berros extraterrestres que só ele sabia dar… No mesmo momento A Claque se punha a gritar e o público realmente se emocionava, pois víamos meninas locais realmente chorando e conhecíamos nossas colegas, as moças da claque. Cantavam canções de Hamilton, Ademir, Os Diamantes, Ary e Mariinha, Roberto e dançavam ensinando o Rock…
Era promovido um “Concurso de Rock” entre os casais locais e Toni Tornado era para se apresentar, pois era também um excelente dançarino.
Com 1,97 m de altura, forte como um Tarzan, havia sido da brigada de elite do Exército, Os Paraquedistas, o único negro do grupo, usava toda sua força interna para catalisar o publico. Os saltos másculos que dava ao se apresentar, a graça ao interpretar as canções como Doce Laços já antecipavam seu futuro sucesso como o obtido num futuro festival quando lançou a BR 6. Era difícil para Roberto, depois do estado em que o público ficava, encerrar o espetáculo. Mas esse também é um artista quase divino. Depois da trepidantíssima apresentação do Toni, diminuía-se a luz e entravámos com musicas dolentes como Roberta e Al-di-la, e aquele público todo que antes ululava, agora se calava como que contrito diante do brilho daquele astro! Encerradas as apresentações, estávamos prontos para sair para o hotel quando grande rebuliço nos chegou aos ouvidos! Era que havia um público tão grande fora do Cine Teatro que não conseguira entrar que as autoridades ficaram preocupadas com a reação. O resultado foi que tivemos que voltar e fazer uma segunda sessão! Por sorte éramos jovens, alguns ainda menores, e a adrenalina nos dava forças. Terminada a segunda sessão, fomos descansar no nosso hotel ao lado, pois teríamos outro baile show num grande clube local denominado “As Jardineiras”.
Eu ficara com meu amigo Paulo Mendes (Batera) no mesmo quarto que, por sua vez, estava localizado bem sobre a garagem do trem “maria fumaça” que ainda trafegava na época. Após o banho, cansados da longa viagem e dos shows, fomos nos deitar para tirar uma soneca. Eis que de repente um som forte ecoa no nosso quarto e um grande bafo de fumaça entrou pelas janelas abertas! Pulamos da cama correndo e descemos para as portas de saída achando que seria alguma catástrofe. Que nada, era a “maria fumaça” que de sacanagem o maquinista havia acionado o apito bem abaixo de nós…
Fomos ver então o trem e ficamos impressionados com um aparelho imenso que fazia o trem se voltar sob si mesmo, engatar nos vagões para retornar à viagem. A engrenagem da grande máquina funcionava pela mera ação da gravidade. Após o trem se posicionar no trilho do meio da máquina uma simples alavanca ao lado desta era acionada fazendo o seu trabalho evolutivo. O funcionário do Hotel nos contou então que havia alguns anos atrás, as crianças, quando não tinha o trem, usavam a engrenagem para brincar de roda. Quando os trilhos se conectavam, porém, a rasura entre eles era mínima. Foi nos dito então que Roberto quando criança brincando ali, tinha esmagado sua perninha na máquina tendo de amputá-la do meio da canela para baixo. Havia até um comerciante local que tinha uma foto com ele adolescente portando uma muleta. Mais tarde soube que jornalistas da imprensa marrom tentaram denegrir a imagem do Rei usando este episódio de sua vida! Maior valor teve Roberto superando tudo e se tornando um ícone da música brasileira. Diversos outros artistas tiveram problemas físicos e, com certeza, a dor plasmou mais ainda sua poesia e arte a ponto de ela melhor ser transmitida ao público. Sei que Orlando Silva, com quem ainda convivi na Rádio Nacional, não tinha um pedaço do pé. Eu mesmo também com vinte anos aterrissei em cima de um caco de vidro do fundo de uma garrafa de champanhe numa cascata, entrando o dito pela sola do pé, saindo inteiramente por cima levando-me a operações delicadas de colocação de próteses que me devolveram parcialmente os movimentos do pé. Gonzaga e Orlando Dias tinham olho de vidro, Ivon Curi era calvo e costurava um aplique ao crânio. Uma vez, em um ensaio da música “Parei na Contra Mão” com o Roberto na TV Rio, a qual seria lançada, a altura dos instrumentos ligados a amplificadores dificultava ouvir o que cantava o artista que, no ensaio, não tinha microfone. Por isso, de brincadeira, Roberto fez uma versão “chula” da música para nos divertir (os artistas procuravam agradar aos músicos dos conjuntos musicais, pois os programas eram ao vivo e se eles os acompanhassem mal a imagem do cantor é que ficava prejudicada…
Encostei-me assim do lado esquerdo de Roberto e senti a prótese bem clara junto a minha perna direita. Isso me ajudou muito, pois mais tarde quando também tive problema similar e coloquei prótese, plasmei-me neste caso para superar tudo e seguir com mais ânimo. E foi uma época que melhores músicas compus e mais impressionei ao publico.
Ninguém tem de fazer reparo em eventuais defeitos físicos. O que vale é o espírito e o bom coração. Não fosse isso não estaria, agora, aos setenta anos compondo, cantando e escrevendo essas singelas memórias!
Voltando aos shows, após participarmos como atração do meio do baile, tivemos de partir para uma cidade próxima a Cachoeiro de Itapemirim – o nome da cidade era Alegre.
Mais uma hora de viagem e lá chegamos às duas. Imperial, “um tremendo marqueteiro, quem não é?“ (esta era uma expressão usada pelo Toni Tornado). Fomos tocar num showzinho de uma igreja católica e armar os instrumentos, afiná-los e entrarmos no palco já exauriam nossas forças. Luiz Antonio sentou-se sobre sua caixa acústica, eu no meu amplificador de guitarra. Luiz Carlos, Marcio, que na época tocava só piano, e Paulo Mendes Batera, eram mais “Caxias” e se aprumaram para a apresentação. Confesso que cochilei e, quando Roberto entrou, era para eu, armando o acorde de sol, propiciar ao guitarrista de solo dar o tom (dó) para o cantor que apresentaria Al-di-la. Luiz Carlos fez um monte de “psius” para me acordar mas, como estava do outro lado do palco, não adiantou. Como Imperial já tinha anunciado Roberto e este estava ao microfone esperando a introdução do instrumental, nosso líder Luiz Carlos resolveu então soar logo o acorde de dó. Nessa hora acordei assustado e levantando lancei o acorde SOL! Isso para quem é músico sabe que desestrutura completamente o artista. O cantor Nelson Gonçalves,
cantando na Rádio Nacional, um dia, quando ia começar, um navio apitou emitindo uma nota e a orquestra entrou em outra levando Nelson a se desafinar. Foi o que ouve lá no nosso show em Alegre. A ginástica vocal que Roberto passou a fazer foi inimaginável. Parecia uma música “árabe” ou indiana onde só existem cinco notas na escala deles ao contrario da nossa, onde há sete. Luiz Antonio Rocha, talentosíssimo e o mais jovem contrabaixista do Brasil na época, embora mais tarde viesse a passar no concurso do Teatro Municipal se tornando músico clássico,
na época era um amador e caiu na gargalhada em pleno palco. Sua voz era muito potente e os microfones colocados junto a nós para o uso do “coro” difundiu o riso geral. Não é só a vaia que constrange o artista, o riso também! Mas Imperial, um artista cheio de truques, entrou no palco imitando uma dança indiana que nos fez a todos rir, parar de tocar e começar tudo certo. Desculpe Roberto!

Das meninas que nos acompanharam à cidade de Alegre como nossas “claques”, lembro que algumas se tornaram nossas namoradinha. A Graça, a Marly e a Mariinha fizeram “par constante” com Luiz Antonio, comigo e com Luiz Carlos, respectivamente. Já voltando no ônibus, quatro horas da madrugada, nosso colega Ademir teve uma forte dor de barriga e gritou para o motorista encostar em um Bar. Estrada deserta, o ônibus parou junto a uma birosca e o Ademir saiu correndo para a privada, entrando em porta escura e fechando a porta sem mesmo acender a luz. Aliviado, voltou ao ônibus derreado e gélido. A noite estava fria, mas ele estava congelado. Eis que surge o suposto dono do estabelecimento que, com voz lusitana e um pau na mão, vitupera vermelho: “Cain foi o f d p que quegou nas carnes”…
Imperial, que de vilão só tinha a interpretação artística, pois ficava sempre atento ao que podia nos acontecer, intercedeu pelo Ademir. Descemos e fomos ver o que ocorrera. E vimos que, na verdade, não era birosca onde paramos e sim um açougue e o “banheiro” onde o Ademir entrou era o Frigorífico! Tudo estava realmente sujo mas também as ditas carnes estavam no chão, lugar impróprio para elas! Entramos em acordo com o “portuga” pagando uma gorjeta a um de seus empregados para lavar tudo com vinagre. Ao partirmos, Roberto ficou fazendo uma voz de falsete, debochando: “O moço barrou tudo, ficou todo barrado”!
Episódios como esses, ocorridos nas inúmeras caravanas em que fomos, eram comuns e nos unia como uma família… a família Jovem Guarda, que ora faz cinquenta anos!
Parabéns a todos que direta ou indiretamente participaram da pirâmide formadora desse sucesso, desde o mais humilde cantor ou conjunto até os ícones que estão aqui até hoje!

A TURMA DA TIJUCA

Neste capítulo conto a historia da “TURMA DA TIJUCA”, contada e cantada pelo Erasmo Carlos em sua música recente. Nela ele conta as estripulias que fazíamos (quebra de bondes quando havia aumento de passagem e eu me lembro das festas nos cinemas etc…)

Cito também que esse seguimento “turma do Colégio Batista” era a mais musical.
A “turma da Tijuca” tinha diversos seguimentos. A minha alusão ao alcoolismo de Erasmo é verídica, infelizmente, e até hoje ele luta contra ela, mas não há do que se envergonhar.

Recentemente vi na TV em um show de Erasmo ele cantar essa música (que turma maluca aquela turma da Tijuca…).
Dividiria essa turma dos anos 1960 em “seguimentos”, a saber:
_ A Turma da Rua do Matoso, onde havia o ”point“ da lanchonete “Divino”, onde se reuniam, dentre outros: Arlênio, Tião (Tim Maia), Gelton (baterista de Renato e Seus Blue Caps), o próprio Renato Barros, Jorge “Babulina” Ben, Erasmo Carlos, Roberto Carlos e outros que, mesmo desconhecidos, fizeram parte da pirâmide formadora do Rock nacional.
_ A Turma do Largo da Segunda feira, onde depois da Rua do Matoso passou a morar Erasmo (Rua Alzira Brandão).
_ A Turma da Praça Sáenz Peña, bairro da Tijuca.
_ A Turma do Colégio Batista.

Esse colégio incentivava muito a música entre os alunos, e como já disse tínhamos aulas de canto e música, um imenso auditório ocupando todo o terceiro andar do prédio do primário onde se faziam apresentações.
Dentre os alunos com pendores musicais que se reuniam para ”trocar ideias” e paquerar as coleguinhas na Praça Barão de Corumbá, nos fundos do colégio, recordo que estavam: Erasmo, Marcio Montaroios ( primeiro pianista nosso e depois trompetista internacional), Claudio Caribé (segundo baterista de Renato e Seus Blue Caps), Elton Roberto (O Homem que Matou o Homem Mau e O Homem e o Mar são canções de sua autoria gravadas pelo Roberto, Paulo Sergio, cantores Horacio Ramasine (Canibais, Sunshines, dentre outros), Joaquim e Francisco (do conjunto ”The Blue Boys”, que também foram campeões do “Hoje É Dia de Rock” da rádio, Paulo Machado (cantor e violonista, Ivan Pazito (cantor e violonista) e mais alguns alunos e alunas.
A esses se juntavam os agregados não alunos do colégio, como Jorge Ben (Babulina), Tião Marmita (Tim Maia) e outros rapazes e moças.
Exerci a função de representante de turma (Monitor), fui capitão do time de futebol da turma (eu era o ”Belini“ e Horácio o ponta Joel, todos da seleção de 1958/62 do Brasil) e aparecia todas as quintas feiras na TV Continental atuando com os ”The Flemings“ no programa “Alô Brotos”, de Carlos Imperial.
Das travessuras que Erasmo cita em sua música, acrescento:
_ O sumiço de um dos sapatos de cada par de todos os que estavam no vestiário enquanto havia a aula de Ginástica, o que obrigou os alunos a ficarem com um pé calçado outro não pelo resto do período de aula (correu um boato que era um protesto pela inclusão da professora Maria no lugar do querido professor Jacy de Oliveira, o nosso ”Sidnei Poitie”).
_ O desaparecimento das valiosas flâmulas do grêmio etc…
Os sapatos foram encontrados no fim da aula ao lado do quarto do vigia, Sr. Miguel. As flâmulas também, mas nem todas, só algumas.
_ O ensaio de Rock que houve dentro da Igreja Batista em seu órgão que levou seus participantes a serem “ julgados “ pelo próprio diretor etc.
Quanto aos quebra quebras nos bondes que Erasmo e muitos de nós participávamos, ele só se esqueceu de dizer que, às vezes, também incendiávamos algumas peças do dito veículo…
De outro lado não nos esqueçamos dos “bailes de Rock” que realizávamos dentro dos Cinemas que passavam histórias onde constassem músicas deste ritmo ou sobre a juventude que mudava os modos antigos. Tal procedimento nos levou algumas vezes a sermos presos pela polícia, que evacuava o cinema.
Deste modo, acho que devido ao nosso convívio eventual e meu destaque no colégio e nos “quebra-quebras “, na música TURMA DA TIJUCA o Erasmo não fala em nós mas cita as nossas travessuras. Mas na música “QUEM VAI FICAR NO GOL” cantada logo a seguir no seu show de 2003, ele cita inclusive o meu nome e de outros colegas nossos na época…

Paulo gravou um disco que não tocou em nenhum lugar
Se o povo não escuta, não cai no gosto e não vai comprar
É que o rádio só toca o que o povo quer escutar
E o povo só compra o que ouviu o rádio tocar
Me avisa, quem vai ficar no gol?

Quando o salário aumenta, a voz do povo quer festejar
É mais uma graninha no fim do mês pra poder gastar
Só que pra ter o aumento o salario sai de algum lugar
E seja de onde for, é o próprio povo quem vai pagar
Me avisa quem vai ficar no gol?
Quem vai ficar no gol?
Quem vai ficar no gol?

Pagou uma nota preta por um sapato italiano
Grife das mais famosas, seus pés na moda era o seu plano
Examinando o bicho, ficou com cara de imbecil
Em baixo da palmilha estava escrito “made in Brazil”
Me avisa quem vai ficar no gol?

João fez aniversário e convidou uma multidão
Num restaurante caro comemorou com muita emoção
Todos comeram muito e beberam mais do que já se viu
Quando chegou a conta o garçom gritou “seu joão sumiu!”
Me avisa quem vai ficar no gol?
Quem vai ficar no gol?
Quem vai ficar no gol?

Rosa namoradeira amava Antônio e Sebastião
Só que eles eram gêmeos e ela curtia a situação
Entre seus dois amores um belo dia ela se distrai
Quando nasceu o filho, os irmãos disseram: “é a cara do pai”
Põe a rede na baliza, e me avisa quem vai ficar no gol?
Quem vai ficar no gol?
Quem vai ficar no gol?

Grato Erasmo, por cantar e contar apenas algumas das coisas que quase não poderiam ser contadas da nossa maluca TURMA DA TIJUCA!

Nossos encontros no colégio, porém, eram eventuais, pois Erasmo estudava à tarde e nós pela manhã, convivendo assim apenas no curto período compreendido entre quando acabavam nossas aulas e estavam para iniciar as dele e outros colegas. Mesmo assim, quando toquei com os The Blue Jeans Rock, participando dos shows nos clubes patrocinados pela marca chicletes “Ping-pong”, onde muitos futuros participantes da Jovem Guarda atuavam, estando com minha guitarra quebrada, o Edilson dos ”Blue Jeans” parou na casa de Erasmo, que gentilmente me emprestou sua guitarra através do Edilson, aquela mesma que aparece com ele no primeiro disco gravado por Renato e Seus Blue Caps onde Erasmo era ”crooner” e guitarrista de marcação.
Erasmo era muito esforçado, vendia sapatos “Maria mole” para a gente e também foi Secretário de Carlos Imperial numa época de sua vida.
Ele gostava muito de um ”goró” e numa festa caipira do colégio em pleno inverno, “tomou todas”, tirou o casaco e a própria camisa e no tremendo frio das “fraldas” do Maciço da Tijuca onde fica o colégio, gritava em altos brados:

“SOU SECRETÁRIO DE CARLOS IMPERIAL!“

Muito mais tarde no programa do Luiz de Carvalho da Globo que muito prestigiou a dupla ”Paulo e Mary”, nos encontramos pois ele era o “apresentador de honra“ naquele dia. Nessa época a Globo fazia festas em comemoração ao seu aniversário, convocando todos os artistas que estivessem em atividade. Não pagava um só centavo a ninguém sob o pretexto de divulgar os discos de cada um.
Roberto, Erasmo e Wanderléa comunicaram que não iriam, pois teriam gastos e precisavam se apresentar com suas “bandas”, que naquele tempo eram chamados de “conjuntos”.
A Globo, em retaliação, não só parou de tocar as músicas desses colegas como ainda pediu ao Paulo Sergio, exímio imitador de Altemar Dutra e Roberto Carlos, que gravasse imitando esse último a versão “Benzinho” gravada no selo ” Caravele”.
Paulo Sérgio realmente fez sucesso, mas o ”trio de ouro “ da Jovem Guarda nem se abalou ou teve sua fama abalada, pois os outros meios de divulgação passaram a tocar mais ainda as músicas “censuradas” pela Globo.
Mais tarde, vendo isso, chamou Erasmo para participar do programa supracitado, e foi onde nos encontramos…

Erasmo e Roberto

PAULO E MARY / OS JOVENS

Paulo e Mary

Paulo e Mary

Paulo foi o “coringa” da dupla… e ao escrever agora sobre a nossa historia, parece que estou vendo o filme…
A música escolhida pela produção da CBS para a gravação de Paulo E Mary foi uma versão boba que o Leno fez, acho até que de brincadeira, pois duvido que ele a gravasse!
Havíamos gravado “demos” no Estúdio auxiliar da CBS que equivalia aos comuns da época aqui no Rio de Janeiro, como os da RCA VICTOR, por exemplo.
“Nosso Romance” de autoria de nossos colegas “Os Canibais” foi colocada por nós para gravarmos (Horácio tinha saído dos Canibais, tentado carreira solo na Polydor, não deu certo e tinha acabado de integrar os “SUNSHINES”).
Outra que queríamos gravar era ”A Pobreza“, de nosso colega Renato Barros, pois foi feita para Leno e Lilian gravarem. A música é muito boa e Leno fez bem em grava-la. Após gravarmos com os Fevers “Pss Estou vendo o Filme” (I’m Watching the movie) cuja letra é de Leno, gravaríamos “Faça Como Eu Fiz“ com letra minha e de Horácio. Os saudosos Sunshines iriam gravar conosco o instrumental e “coro”. Gravada a base e detalhes, passamos à gravação dos vocais.

Mary, então uma menina de 15 anos, ficou nervosa e afônica. Jairo, o produtor, vituperava, chamando atenção injustamente dos Sunshines” cujos irmãos Gut e Geraldinho eram vocalistas natos e tinham como pai o comediante Brandão Filho.
O guitarrista dos Sunshines era o Waltinho D’Avila Filho, cujo genitor era o comediante Walter D’Avila.
Como a voz de Mary não saísse e o produtor ameaçasse sustar as gravações e o próprio disco, Horácio com sua genialidade sem par, propôs a seguinte mudança seguinte:
_ Ao invés de microfones individuais pediu à técnica que colocasse um microfone “girafa”, aqueles que são postos pelo alto do artista. Alinhou Gut e Geraldinho e ele mesmo de costas para a técnica e sem que o Jairo Pires visse, fez em falsete a voz de Mary! O produtor aprovou e disse que o sucesso final do trabalho se devia à bronca aplicada em nós. Pois sim, Gut e Geraldinho escondiam os sorrisos pois sacaram o que houve!
Agradeço a meu amigo Horácio e é o único disco que tenho gravado com ele e eu cantando após fazermos isso por mais de cinquenta e cinco anos de amizade. Desculpe-me amigo nossas briguinhas porque você não quer mais gravar comigo e ter gravado recentemente com o nosso colega Aramis Barros (dos Canibais) talvez seja ciúme! Nesta época de comemoração dos cinquenta anos da Jovem Guarda, ressalto que a fase em que gravei com Mary, Fevers e Sunshines foi no auge, em 1967 e seria pena não destacar o convívio que tivemos com nossos queridos colegas. A CBS instituía caravanas com seus artistas para divulgação principalmente no Rio e São Paulo. Era comum sairmos de ônibus fretado para atuar nos programas de Rádio e TV, com os seguintes colegas: OS JOVENS, THE SUNSHINES, ROBERT LIVI, CARLOS LEE, MARIANE, UM GRUPO VOCAL, PAULO E MARY, JOSE ROBERTO, LUIZ CARLOS ISMAIL.
Em São Paulo nos encontrávamos com Jerry Adriani, Renato e Seus Blue Caps e Roberto e Wanderléa, que iam de avião.
Assim, mais por mérito da CBS que nosso, participamos de maravilhosos programas como o de Antonio Aguillar e Chacrinha.

OS JOVENS – segunda formação.

Não ficamos contentes, eu e Mary, com a produção da CBS e a imposição de músicas que não nos agradavam para gravarmos. Mary resolveu se afastar. No mesmo sentido Puruca também, pois se casara e com as verbas ganhas construiu uma casa em Santa Cruz da Serra e comprou um taxi com autonomia para ele mesmo trabalhar. Eu e João José então já nos conhecíamos de vista como colegas do Colégio João Alfredo, cujo último ano do curso clássico frequentei, tendo convivido na CBS como colegas. Resolvemos então formar uma segunda edição de Os Jovens, segundo o João dizia em entrevistas galhofando, porque não daria para a dupla se chamar “Paulo e Mary”. A CBS quando viu que os Os Jovens não iriam continuar, pois levamos alguns meses para nos decidir pela nova formação, contratou a dupla OS VIPS, que gravaram a cancao “É Preciso Saber Viver”.
Fomos para a PHILLIPS e sob o selo Polydor gravamos com os THE BRAZILIAN BITLES, já sem o Luiz batera. Os rapazes do The Brazilian Bitles já eram amigos do João e se tornaram meus também. As músicas gravadas foram “DE CARINHO A ELA”, de Puruca e Sócio Não Dá.
Fizemos apresentações pelo Estado Do Rio, tendo sido memoráveis aquelas no Estádio Caio Martins em comemoração ao aniversário de Paulo Bob, um cantor “cawboy” e apresentador que tinha um programa muito ouvido em Niterói.
Por ser o Paulo nosso colega músico e apresentador, quase todos os artistas iam ao festejo e em um deles tive a honra e o prazer de ser acompanhado pelos caros colegas dos The Brazilian Bitles, com a plateia de vinte mil pessoas cantando junto com os novos “Os Jovens”!
Não esqueço o convívio com esses queridos colegas, os ensaios na casa de um deles onde às vezes uma moça sardenta, bonita e brincalhona demais convivia conosco, pois o pai do Eli Barra e o dela eram ambos pastores batistas na vida privada.
Seu nome: RITA LEE.
Os “ensaios” nem sempre eram na casa dos Brazilian Bitles e algumas vezes foi dentro do carro do Eli, um Aero Wilis bordô e branco. Altas horas na rua deserta sob o frio, mesmo com o carro fechado, levávamos o maior som cantando e compondo músicas como “O Barqueiro”, de João e Vitor… jamais esquecerei. “Os Jovens” dessa época pararam em 1970 coincidindo com a fase áurea da Jovem Guarda!
Tive que parar por que cursava Direito e tinha que estudar e não estava conciliando as duas atividades, a artística e a escolar. Também tive problemas com a repressão por ter gravado, inocentemente, com amigos da Resistência Nacional, músicas que fizeram sucesso só na divulgação boca a boca. A nossa foi “Subdesenvolvido”, cantada em festas e reuniões, como um dos hinos da “Resistência”.
Mas a Jovem Guarda NUNCA ACABA e diversos colegas nossos estão aí até hoje encantando inclusive novas gerações, como passarei a contar na minha linha do tempo no Facebook e em publicação gráfica ainda este ano de 2015.
Gostaria de contar como dez anos depois de parar de gravar com João Jose, o destino me fez gravar, desta vez com Francisco Fraga, o Puruca, a convite de Renato Barros (dos Blue Caps), que não só produziu diversas sessões com “OS JOVENS“ terceira edição ou ”O ESPÍRITO DOS JOVENS”, como fomos chamados no seu selo “Gema”, distribuído pela Polygran.

Os Jovens c Puruca

Também participaram como músicos de alguns itens que gravamos, nosso amigo Renato Barros com seu irmão Edinho Wilson e outro ”Blue Caps”, o Cid Chaves.
Como Renato ainda é muito respeitado em diversos lugares as músicas foram tocadas, voltando a fazer sucesso em alguns Estados não só o “pout pourri” das mais executadas músicas de OS JOVENS como ainda a canção CARTÃO VERMELHO e JOVEM AINDA SOU, de minha autoria e de Puruca.
Infelizmente, quando fomos chamados para participar do programa do Bolinha na TV Record em rede nacional, Puruca, que era taxista, sofreu um acidente e machucou o rosto e os dentes, mas os shows memoráveis que fizemos, como os de Caxambu e Petrópolis, ainda contarei um dia.
Dez anos depois, outra vez encontrei João Jose, que era professor de educação física, funcionário da UERJ, Juiz de Futebol (bandeirinha) e na comemoração dos TRINTA ANOS DA JOVEM GUARDA, tivemos o prazer de fazer inúmeros shows pelo pais com gravação de DVD ao vivo (na época era fita cassete). A fila anda e ainda toco, às vezes, com os Flemings e a Mary, continuando doravante a contar nossa carreira e a recordar passagens que, no momento, para não me estender muito, não abordarei.
Sou grato a todos os meus irmãos “Jovenguardistas” que direta ou indiretamente participaram das nossas vidas, pois dela fizeram parte indelevelmente…

SALVE OS CINQUENTA ANOS DE JOVEM GUARDA, HOJE E SEMPRE!

Por Paulo Machado Ribeiro Leite

Lucinha Zanetti, para terminar, reitero meus agradecimentos e comunico que graças a você tenho recebido inúmeras mensagens de amigos e fãs antigos me dando a maior força em especial o Luiz Antonio Cardoso Martins, que se prontificou mandar vir alguém aqui em casa para transformar em vídeos e CDs inúmeros discos gravados por nós que tenho de vinil para fitas e colocar na “nossa” ETERNA JOVEM GUARDA em primeiro lugar.
Você é muito competente e catalisadora Lucinha. Deve fundar um programa também.

Bjs.

Paulo Machado Ribeiro depois dos Flemings passou pela dupla Paulo e Mary da CBS…

Paulo Ribeiro - dupla pra ficar no lugar de Leno e Lilian

Neste vídeo a gravação de “A Pobreza”, por Paulo e Mary.

Paulo também participou dos “Jovens” em sua segunda formação.

“Os Jovens”- João José e Paulo

Neste vídeo, “Os Jovens” João José e Paulo cantam com acompanhamento do conjunto The Brazilian Bitles as canções “Sócio Não Dá”, composição de Niquinho e Othon Russo e “Dê carinho a ela”, composição de Puruca pela gravadora Polygram.

Aditamento I

Atendendo a alguns pedidos de amigos, passaremos a fazer alguns aditamentos importantes sobre diversos colegas até hoje expoentes da Jovem Guarda.
Paulo Machado Ribeiro

RENATO E SEUS BLUE CAPS

Conheci Renato em 1960 quando pegava o ônibus Lins Urca, que passava pelo Grajau, onde eu morava, para ver o Clube do Rock, programa depois chamado de Os Brotos Comandam, apresentados por Carlos Imperial. Ficava na plateia e via os Blue Caps passarem, na época com a formação de Renato, Paulo Cesar (que tocava contra baixo acústico daqueles grandes), Gelton ( ou Rostan) na Bateria, Edinho Wilson cantando e tocando violão de marcação. Mais tarde vieram o Simonal e depois o Cid, tocando saxofone . Edinho saiu para fazer carreira solo e já em 1963 o baterista era o Claudio Caribé, meu colega de sala no Colégio Batista, que me convidou para assumir o lugar do Edinho. Mas como já disse, achei muita responsabilidade (logo no lugar do Edinho) e estava bem no conjunto The Flemings formado por amigos de infância. Além disso a Rua Assis Carneiro na Piedade era longe, tinha de tomar dois bondes do Grajau (hoje tomaria dez se fosse convidado…), mas em 1963 os Flemings tocavam na TV Continental com Carlos Imperial no seu programa “Alô Brotos” e meus colegas músicos são meus amigos de infância, os vivos, até hoje! Renato, que estava acabando de servir ao Exercito (antigamente todo jovem servia se fosse apto) procurou o Imperial pedindo para quando desse baixa no quartel, em breve, voltar a tocar com o Gordo. No programa anterior do Imperial levado na TV Tupi, eram os Blue Caps o grupo titular que acompanhava os artistas e fazia seus próprios números musicais. Imperial, um homem correto, explicou que não poderia readmitir Renato e Seus Blue Caps, pois o orçamento não dava mais para pagar outro conjunto. Isso sem sequer nos consultar. Ora, nós dos The Flemings respeitávamos e gostávamos muito dos Blue Caps e adoraríamos ter até dividido o nosso cachê com esses maravilhosos colegas. Paulo Mendes batera era doido para fazer uma disputa amigável para ver quem tocava melhor. Ainda bem que essa disputa nunca houve, mas Paulo acabou tocando com Renato uma vez para substituir o baterista que ficara doente. Naquela época Paulo Cesar nem cantava ainda, era a época dos conjuntos musicais terem crooners, como o Clifff Richards, O Luizinho e os Dinamites, The Blue Jeans Rock. Ainda lembro de terem ficado assistindo ao programa do Imperial, onde tocávamos, o Renato e outro Blue Cap que agora não lembro bem qual era, mas acho que era o primo irmão dele por parte de mãe, o Carlinhos. Nesse dia nos esforçamos o máximo. Após nos cumprimentarmos, ficamos algum tempo sem nos ver, só nos encontrando quando fui à rádio levar uma autorização dos nossos pais para nos apresentarmos no programa Hoje é Dia de Rock. Esperei para cair no dia já anunciado em que Neil Sedaka iria se apresentar pois ficou proibido ir aos bastidores, mas como os Flemings estavam cumprindo uma exigência da Produção, pude entrar e assistir ao show dos bastidores. Só não sabia que o acompanhamento seria dos Blue Caps. Todos os jovens do país se sentiram orgulhosos por termos colegas que fossem escolhidos para tocar nessa difícil apresentação. Acabado o programa Alô Brotos na TV, ficamos sem Luiz Carlos e depois sem o Luiz Antonio, o que nos levou a aceitar o convite do Luizinho Dinamite para tocarmos com ele e o baixista Álvaro que ele já havia contratado, justamente o que nos faltava, pois tínhamos guitarra de solo, o João, eu na marcação sendo que podíamos vocalizar pois João sempre cantou bem e o Paulo Mendes na bateria. Após seis meses em que tocamos e namoramos nossas fãs que iam assistir quando tocávamos (duas irmãs que eu e Luizinho levávamos para passear no Ford 41 dele) fui despedido dos Dinamites como já contei anteriormente. Fui tentar carreira solo sendo contratado pela ONDA JOVEM da rádio e TV TUPI. Tendo sido contratado também pela CBS, passei a conviver outra vez com Renato, Paulo Cesar, Cid, Toni (batera) e Carlinhos, todos da formação mais ilustre dos Blue Caps. Também Ed Wilson era contratado da Columbia como cantor. A CBS era uma família, tinha um plantel jovem e competente, haja vista ser Renato, além de artista famoso (era guitarrista, vocalista e autor de musicas), produtor de outros colegas e quem me dera tivesse sido nosso.
Passei dois anos na CBS. Nem sempre a gente gravava ou fazia shows agendados pela gravadora. Constantemente eram chamados músicos como Renato, Paulo Cesar, Toni, Valtinho dos Sunshines para gravarem com Jerry, Wanderleia e até mesmo Roberto Carlos quando gravava no Brasil. Como éramos rapazes, tínhamos um humor constante. Sempre prontos para realizar uma brincadeira. Renato aparentemente calado e circunspecto escondia um tremendo senso de humor. Assim, quando uma colega nossa também da CBS, oriunda da África do Sul, chamada Miriam veio lançar seu disco no Brasil, pois fazia sucesso em sua terra, Renato foi incumbido pelo Diretor EVANDRO RIBEIRO de produzir umas “vinhetas” que seriam usadas para divulgação do disco da moça. Ouvimos o disco e não achamos que faria sucesso. Não era nem samba, nem Rock. Estranhamos que um conjunto de Rock (RSBC) fosse acompanhar essas vinhetas. Quando cheguei já estavam Renato e Cid no estúdio com a garota e o EMPADA na mesa de gravações (Empada era o apelido do Eugênio, o “GENIO” que tanto Roberto brincava no programa Jovem Guarda, quando havia muito ‘son reverber’. Era o mesmo “Gênio” pois era o melhor técnico de som da CBS e entre os que conheci. Como soldado que fica no quartel acaba trabalhando, acabei me incorporando junto ao Cid e Renato para gravar as vinhetas de propaganda. Faltavam o baixista e o baterista. Miriam muito entusiasmada conosco tentava aprender português perguntando vez por outra o significado de algumas palavras da nossa língua. Renato fez a vinheta e a moça pediu nossa ajuda para gravar pois estava com…….. fazia gestos indicando as amígdalas inflamadas, dizendo: “ …………. ajuda, ajuda eu está, como chama em portuguise, bolinhas garganta ..” e Renato, sério, respondia: “Testículos!” Miriam toda contente repetia então. “Oh teustícolos, teusticolos Ok!” “Eu está com teustículos inframados!” Fiquei surpreso, mas ninguém riu. Outra tomada e ela queria mais som na guitarra e pedia : “Mais grande, mais grande som nesse, dlon, dlon ,dlong (apontando para guitarra) Como chama aqui esse instrumento? E Renato respondia: “THXERECA! “ É , dizia Mirian, então: Good, “meche com força na” thxereca”! Gostando do nosso som, toda alegre.
Eu e Cid virávamos de costas para não rirmos na frente da garota e Renato sério não mexia um músculo do rosto! Depois de diversas “aulas” similares de “pourtuguesi” do Renato para a Mirian, terminado o esboço da “vinheta” em que a gente quase não conseguia cantar, pois por qualquer bobagem, ríamos às “bandeiras desfraldadas” para disfarçar a palhaçada. Mirian parecia aquela personagem da Kate Lyra, “brasileiro é tão bonzinho”. ”Moito alegre mesmo os colelgas“! Cantava para nós a letra de um pedaço da sua música e pedia ajuda em inglês. Nós a convencemos a cantar um pedaço em ”portuguesi” para ela ficar mais simpática ao nosso público e criamos na hora. O refrão da música no entanto era cantado num dialeto Africâner, e Renato se virava para a gente e comentava à meia voz: “Essa droga parece que soa . Ta cum pu na que que queca.” E eu entrando de parceiro musical completei: Tá cum pulga na cueca…………( e Mirian adorando ) “ OK, OK! Em dado momento da tomada, vimos o Sr. Cavaliere, chefe da seção de cortes e cópias da CBS, um senhor sério de sessenta anos, dentro da sala de equalização ao lado do Eugênio, de boca aberta escutando aqueles absurdos. Abanou a cabeça e saiu. Afinal Renato é quem era o produtor. Após uma boa tomada mixada pelo “GÊNIO”, Mirian batendo palmas, dando pulinhos e emitindo gritinhos juvenis sensuais, próprios da ‘dança do acasalamento da selva africana“ que ela apregoava em inglês no meio da música, pintou até um clima entre ela e Renato… Quis elogiar o Empada perguntando mais uma vez: “Ele muito ……….big, very ….“ e elevava as mãos de baixo para cima, querendo elogiar o trabalho dele, pois ela, como nossa colega da CBS na África do Sul, já gravara e conhecia o “metiê”.
“Como chama, Reulnato”? Apontando para o Eugênio e Renato mais uma vez: ‘filho da puta’! “OU ! Ô ! FILH……………( já ia a Mirian falar) Parou, porém, com ar surpreso, “oh non… esse non, esse eu conhece“ non é …….fdp“! Rimos até não poder mais e nem se gravou nada naquele dia pois o restante dos músicos faltaram. A música de Mirian Makeba fez um sucesso estrondoso, era “PATA PATA”( AI A Ô AI A Ô ) e não sei como a nossa “versão”, “tá com pulga na cueca, pati pata pata, tá com pulga na cueca pati pata pata,” também “estourou” nas festas brasileiras!

Miriam Makeba - pata pata

Os Sunshines com certeza vi cantar a canção nos bailes que eles faziam constantemente ainda anunciando .”NA BASE DO PATA PATA“. E assim, por um breve lapso de tempo, afinal fui um “Blue Cap“ e mais, parceiro na composição do refrão de uma música, desse grande artista que é Renato Barros.
A seguir falarei sobre Carlinhos, primo irmão de Renato. Uma cópia em menor tamanho de Renato mais parecido com ele que os próprios outros irmãos…

Aditamento II
CARLINHOS “BLUE CAPS“ JUNIOR

Se Renato fosse o “Bolinha” dos desenhos em quadrinhos, o Carlinhos seria, O CARLINHOS primo irmão dele!
De fato Carlinhos é mais parecido com Renato que os próprios irmãos!
Quando a JOVEM GUARDA eclodiu em agosto de 1965, eu estava num leito de Hospital, após me acidentar e quase perder totalmente um pé.
Não conhecia o Carlinhos e pela TV tinha a impressão de ser a posição dele nos BLUE CAPS igual à daquele Beatle que John Lennon enfiava entre os amigos Paul e George e que nem sabia tocar nada, era apenas desenhista (Stuart Suttclife).
Ledo engano. Quando fui voltando e depois trabalhei na CBS onde Carlinhos também trabalhava com os primos, como éramos da mesma idade, conversávamos e participávamos de diversos eventos juntos.
Pude ver que Carlinhos sabia tocar violão bem, vocalizar e compor quase como os primos bem aquinhoados pela arte.
E possuía a mesma veia humorística da família.
Certa vez quando a JOVEM GUARDA foi levada aqui no Rio na TV RIO, estávamos nos bastidores esperando a hora de entrarmos em cena. Naquela época era tudo ao vivo e um assistente de produção é quem nos chamava para a entrada. Era um italiano grande e de fala arrastada que tinha uma barba e falava constantemente quando estava nervoso, “PORCA MISÉRIA” ou simplesmente “porca!” Pois bem, nesse dia apareceu uma moça nos bastidores, fã de Carlinhos, que logo atirou-se em seus braços.
Após alguns amassos foram se chegando para trás de uns cenários velhos que ficavam no fim do estúdio que havia sido o grande Cassino Atlântico, onde, então, funcionava a TV RIO.

Não os vimos mais.

E chegou a hora em que Enzo de Almeida Passos fez a chamada, como lhe era peculiar:
_ “RENATO E SEUS BLUE CAPS. Cinco minutos para entrar no ar”!

Cid Chaves, que sempre foi o mais ligado na parte administrativa do grupo, não vendo Carlinhos passou a procurá-lo e nada de o encontrar.Enzo logo após o decurso dos cinco minutos, anunciou:
‘RENATO E SEUS BLUE CAPS. ENTRAR EM CENA!“

Renato, danado da vida, sem Carlinhos que cantava “UM CAPETA EM FORMA DE GURI”, teve de entrar no ar, sem o primo e guitarrista vocalista.
Fiquei olhando atrás das cortinas e, aos primeiros acordes de “Um Capeta……“ surge o Carlinhos vermelho, suado e apertando o cinto, correndo! Para, um segundo antes de entrar no ar, Renato o vê e como primo mais velho e líder do grupo, fuzila Carlinhos com o olhar. Esse então se decide, pula no palco como um bailarino clássico, fazendo piruetas elevando as mãos, dançando quase nas pontas dos pés até chegar ao microfone e cantar na “hora H” sua versão.
As meninas, pensando que aquilo estava programado, aplaudiam. Até Renato, antes danado da vida, chegou a rir!
Não o vi mais durante muito tempo e certa vez que fiz uma viagem para Recife com Renato, perguntei por ele que também não sabia do primo há anos!
Muito depois de sair dos ”Blue Caps”, encontrei Carlinhos triste pois se separara da esposa que tanto amava, estava fora da vida artística, passando até necessidades, sem trabalho e até local para morar direito.
Eu já era advogado relativamente bem sucedido e dei um emprego ao Carlinhos no meu Escritório de advocacia e o hospedei no quarto que tinha sobre a minha garagem lá em casa.
Mas música é um doce vício… Após o trabalho eu muitas vezes ia visitar o Carlinhos ou ele a mim e nunca deixávamos de tomar uma cervejinha, cantar e até compormos juntos.
Até mesmo no escritório após o expediente nas salas vazias, tocávamos e compúnhamos juntos.
Via Carlos muito triste e procurei ajudá-lo. Levava-o comigo para visitar uma marina onde eu tinha uma lancha em pintura, pedia para ele voltar lá na Barra da Tijuca para verificar o andamento da obra.
Uma vez meu filho Marcos de dois anos e meio bebeu benzina e eu e Carlinhos o levamos às pressas ao Hospital para socorrê-lo. Eu dirigia e Carlinhos levava o menino no colo!
Não sei se Carlinhos chegou a editar e gravar com outros colegas cantores, como sempre fez, as músicas que fizemos nessa época como “Pra Você” (… fiz um caminho que sozinho continuei e do tempo fiz o meu rumo, pois aquela a quem dei minha vida perdeu-se no mundo, Você foi um sonho perdido colorido que se acabou. Sigo agora outros caminhos, A você eu não quero nem dou nem um carinho…), fruto do desespero pela sua separação.
Outra que fizemos também foi: “Cada um tem o seu mundo cada coisa seu lugar e aonde está você meu bem não poderei chegar. Seu caminho é tão lindo e não sei como o trilhar e aonde está você meu bem, não poderei chegar. Digo adeus e vou embora nunca foi aqui o meu lugar se no mundo ninguém vai mudar – cada coisa em seu lugar bis”.
Foi outra música feita quando Carlinhos depois arranjou uma namorada que era também sua fã, moça, abastada, quis viver com ele levando-o para a Bahia sendo mesmo apaixonada pelo homem e o artista, pois CARLINHOS é um homem muito doce.
Contudo, ele não se apaixonara pela moça e não tolerava aquela situação de ser apaniguado por mulher.
Voltou da Bahia pouco depois e para aquele quartinho que eu lhe emprestei onde tive a honra de o ajudar a fazer “CADA UM TEM O SEU MUNDO”.
Logo depois, vendo que o ”seu mundo” também não era o da advocacia, pediu dispensa do emprego lá no escritório, pois tinha arranjado uma namorada de quem realmente gostou, a LENA; comprou uma carrocinha de pipocas e foi humilde mas honradamente trabalhar nela, montando casa e, acho, estando até hoje com seu amor!

Boa sorte, doce Carlinhos, que o seu talento seja sempre reconhecido sem as bobagens e a presença de “maus espíritos” que, às vezes, assolam as famílias!
Carlinhos - RSBC

Aditamento III
RENATO BARROS E SILVIA LÍLIAN

Carlos Imperial lançara seu penúltimo programa desta vez na TV Rio. Contratara Renato e Seus Blue Caps outra vez para acompanhar os artistas e tocar seus números. O programa era na maior parte das vezes levado no Estúdio interno da Tv. Fui ao encontro do Imperial, para pedir a inclusão de Luizinho e Os Dinamites, segunda formação, da qual fiz parte, no programa. Outra vez, a meu ver, Imperial erroneamente justificou que não poderia contratar outro conjunto musical para atuar no seu programa, pois tinha o Renato !!! Que bobagem, desculpe Carlos, se lá iam inúmeros cantores, cantoras, grupos vocais etc… por que não diversos conjuntos musicais? Bem, o fato é que assim foi, falei com Renato e vi que ele estava envolvido com uma moça lindíssima, acho que lá da zona sul mesmo. Era a Silvinha. Renato estava lançando os “espetaculares amplificadores de 20 wts. IPAME”, o namoro evoluiu e como a moça gostava muito de cantar, eu a vi algumas vezes na CBS fazendo coro nas gravações de Renato e Seus Blue Caps. Atendendo aos anseios musicais da moça, Renato treinou Gileno, um rapaz bem jovem mas muito bom cantor, para fazer dupla com Silvia.
Nascia a dupla “Leno e Lillian”!

Cada vez mais envolvidos, Renato e Silvinha eram o nosso casalzinho que chamávamos de “namoradinhos do Brasil”…
São desta fase inicial do namoro a musica “Eu Não Sabia Que Você Existia”, gravada por Leno e Lilian. Depois veio a versão “Menina Linda” e outras que não ficaram tão conhecidas assim do grande público. Mas as brigas começaram a aparecer! “Não Quero Mais Saber de Brigas Com Você” foi feita nesta segunda fase do namoro e gravada por nós, “Os Jovens”. Eu participei da segunda gravação. Ficaram noivos e pensavam em casar. Renato tinha alugado um apartamento acima do prédio onde ficava a CBS na Rua Visconde de Rio Branco. Lá ele possuía um gravador com inúmeras trilhas algumas sem letras. O casal pensava em casamento e vida em comum. Renato pediu um bom adiantamento à CBS e começaram a procurar casa. Encontraram uma maravilhosa na então emergente “Barra da Tijuca”, perto da praia. O Dono pediu um sinal e Renato ficou de dar. Só que muito desligado como ele só, demorou a fazê-lo. Quando, afinal, se dirigiu ao vendedor, com Silvia sabendo desse movimento e vibrando pela espera do resultado, este já havia vendido a casa. Desacorçoado, Renato volta de carro pela Zona Sul e ao chegar nela, vê numa vitrine de carros de alto luxo uma LOTUS BRANCA, irresistível! Tentado, compra o carro com o dinheiro que estava destinado à compra da casa para o casal! Ao se encontrar com Silvia Lílian, esta pergunta saltitante: “Então querido comprou a casa?” Renato diz que não mas, achando que a noiva ia curtir, mostrou a “Lotus” de sorriso de orelha a orelha. Lilian fica pálida, chora, esbraveja, briga e rompe! A desavença durou e todos lamentaram, tentamos colocar “panos quentes”, mas que nada, a moça estava inflexível! Começa então a fase de maior produção musical de Renato tentando captar a noiva de volta: Não Me Diga Adeus Agora (que Carlinhos diz ser em parceria com ele). Como Silvia era na verdade mestra em “colocar pilha” em admiradores, acabou por arranjar outro namorado. Renato agora desconsolado escreve “A Primeira Lágrima”e “Devolva-me”, até hoje regravada por diversos colegas.

Compôs também “Só Nesta Canção” e outras menos conhecidas pelo público. A última música foi feita anos depois do rompimento…

A “Lotus” se acabou há muito tempo, as lembranças, porém continuam…

Renato e Lílian

Em seguida falarei sobre a volta d’Os Jovens , promovida por Renato Barros.

Aditamento IV
A Volta dos Jovens.

Paulo e João José na Gravadora Hawai

Paulo e João José na Gravadora Hawai

Já tive a oportunidade de dizer que após meu casamento passei dez anos sem me dedicar à música, nem mesmo de forma amadora, salvo em um período em que encontrei o Carlinhos Blue Caps, em 1977, durante um ano, mais ou menos.
No início dos anos oitenta, voltava do Forum quando um taxista passou a oferecer seus serviços insistentemente. Eu recusava, ele insistia, até que falei seriamente que não, mas ele retrucou:
_ “Mas eu lhe levo de graça!”
Abaixei-me então e vi que era o Puruca o taxista que estava brincando comigo.
Entrei no carro e ele me levou vagarosamente para casa. No caminho fomos recordando da nossa vida na Jovem Guarda e CBS. Eu e Puruca chegamos naquela época a tocar muitas vezes juntos em particular, principalmente na casa dele em Santa Cruz da Serra, no Parque Equitativa. Vi Puruca fazer “Aceito seu Coração”, cujo título eu mesmo sugeri.
Saudosos, bombinamos encontros musicais posteriores e assim, duas vezes por semana Puruca passava no meu escritório de advocacia para tocarmos e até compormos juntos.
Encontrando os amigos dos “Flemings Star”, Paulo Mendes e Ronaldo Paladini, compramos instrumentos e aparelhos usados, desensarilhamos as velhas guitarras e contrabaixo, alugamos uma bateria e formamos a primeira “Festa de Arromba” lá no escritório.
Já contei também que nesta fase fizemos “Jovem ainda Sou”, “Cartão Vermelho”, “Malandro Esperto”, “Ventos do Norte” (contra a ditadura e o imperialismo), todas de nossa autoria, minha e de Puruca.
Após algum tempo veio a vontade de gravarmos e então procuramos Aramis Barros e Max, dos Canibais, na Som Livre, que lamentaram não nos poder atender pois a Som Livre não gravava música inédita na época.
Aramis nos enviou também ao Waltinho, ex guitarrista do conjunto The Sunshines, que embora não tivesse também podido nos ajudar, avisou-nos que nosso colega Renato Barros, dos Blue Caps, tinha fundado uma gravadora com amigos. Deu-nos o endereço que ficava lá em Bonsucesso, num dos andares dos “Estúdios Rancho”. O nome do selo fundado por Renato era “Gema”, selo distribuído pela Poligram.
Renato tinha mais dois sócios, um empresário dono das Lojas “Lápis de Cor” e o maestro Miguel Sidras.
O empresário sócio de Renato tinha um irmão participante de uma banda também chamada “Lápis de Cor” e, coincidentemente, havia gravado “Você Fala Demais”, o grande sucesso da dupla Os Jovens na década de 60, cujo andamento nem o próprio Renato gostou. Achamos uma dupla “palhaçada” a versão do Lápis, até por que o crooner da banda era o próprio ator que fazia o “Bozo”, sem sua roupa e máscaras características.
Renato sempre viajou muito e a parte artística estava entregue ao Maestro Miguel, meu velho conhecido da “Gravações Atonal”, em que ele nos patrocinou como “Paulo e Mary” após nossa saída da CBS e antes de eu gravar com João José, na Polydor, como “Os Jovens”, segunda formação.
Já tínhamos feito uma gravação chamada no meio artístico de “demo” (gravação demonstrativa) de uma música que eu e Puruca estávamos fazendo e da música “Cartão Vermelho”.
Miguel, já nosso admirador, imediatamente nos contratou. Renato ao chegar participou conosco da gravação de “Cartão Vermelho” trazendo ainda Cid Chaves e Ed Wilson.
O Maestro Sidras produziu a gravação de um “pout pourri” dos maiores sucessos da dupla Os Jovens, incluindo “Se você me abandonar” (de Rossini Pinto), “Deixa o tempo passar” (de Othon Russo e Niquinho) e “Você Fala demais” (de Francisco Jose, o Puruca).
Como gravamos quase igual aos hits originais e Renato usou seus contatos no Brasil para fazer nossa divulgação, o disco fez sucesso no nordeste, interior do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Obviamente o dono da “Lápis de Cor” não gostou por que o disco do irmão dele não emplacou.
Passamos a fazer inúmeros shows e apresentações em TV, sendo que no programa do Bolinha, da Record, cantei com nosso colega Alex, pois Puruca havia se acidentado com seu Taxi e não pode ir. Em alguns outros shows também tive que cantar com esta formação, usando meus colegas egressos dos “Silvers Boys” segunda formação.
Encontrei Alex e Dilton, meu velho colega da “Onda Jovem”, onde trabalhamos juntos e diversas vezes eles me acompanharam ao vivo em shows.
Eles tocavam no vagão restaurante de Bangu, que tinha um vagão ferroviário antigo à guisa de “namoradouro” (para drinques) do lado de fora da pista de dança.
Após o encontro fortuito, pois eu tinha um pequeno sítio em Pedra de Guaratiba e ao voltar de lá, escutei os amigos no “vagão” tocando “Coração de Papel”, comecei a frequentar a festa deles, sempre muito animada. Levei Puruca também e passamos a “dar canja”, que no meio artístico significa tocar amadoristicamente com colegas que estão se apresentando em determinada casa de Show.
Estávamos preparando novo disco quando Puruca se acidentou, Paulo e Ronaldo tiveram que parar por motivos de trabalho e também conjugais…
Mesmo assim chegamos a gravar cinco músicas sendo que quatro delas foram lançadas em dois discos compactos sob o título “O Espírito dos Jovens”, pois o sócio administrativo do Renato achava que éramos velhos para ostentarmos o nome “Os Jovens”. Como estávamos terminando uma música, evoquei a frase “Jovem ainda Sou”, que se encaixava na letra, mas tinha o duplo sentido contra a tese do “Lápis de Cor”.
Puruca se afastou depois do acidente, pois perdeu dentes e, para um cantor e instrumentista de sopro é vital ter a mesma arcada dentária com a qual aprendeu a cantar ou a soprar.
Tive que fazer então muitos shows e apresentações com o pessoal do Dilton.

Após ter sido aprovado como Procurador, dei um tempo até que nossos empresários do nordeste nos convidaram, através do Cid Chaves, para fazer shows. Como queriam que “Os Jovens” se apresentassem, voltei a procurar o João José e com ele, após pequeno ensaio, passamos a fazer apresentações no que redundou na gravação de um vídeo para lançamento. O vídeo foi feito em Fortaleza e não nos agradou a parte técnica, pois a artística é outra coisa e resolvemos não comercializá-lo, mesmo já tendo dobrado a trilha sonora dele na gravadora Hawai.
Dos inúmeros shows que fizemos levamos a público alguns através do vídeo publicado no canal do Youtube de Lucinha Zentti, onde as brincadeiras do João em forma de danças malucas e também as minhas, em contrapartida, podem ser vistas…

Uma das últimas brincadeiras do João foi feita em Petrópolis no luxuoso Hotel Quitandinha, onde havíamos sido convidados para animar as noites de sábado da espaçosa boate do Hotel. Juntamente com o conjunto “Os Bolhas”, de Ricardo, Renato e César Jr.
Ao chegarmos e nos instalarmos no apartamento, decidimos dar uma volta para esticarmos as pernas e relembrar a paisagem dos arredores, tantas vezes visitadas, pois o Quitandinha foi palco da Jovem Guarda, sendo de Petrópolis alguns dos artistas desse movimento.
Passamos pela Portaria e vimos um grande cartaz com nossa foto e dos “Bolhas”; após o passeio, já íamos retornando quando, como Pepeu Gomes, fomos barrados pelo Porteiro vestido como um verdadeiro “General da Banda”.
“Onde vão”? Perguntou. João, a princípio sério, disse: “Para o show!”
O Porteiro, mesmo estando ao lado dos anúncios do show, perguntou: “Que show?“
João não se conteve e começou a brincar dizendo que era um show da “Praça”. O Porteiro insistia em não nos deixar entrar. Depois de um diálogo muito longo entre o João e o Porteiro em que o primeiro usava das mais absurdas acertivas para convencer o homem a nos deixar entrar, botei pilha e disse: _ “Olha, se o senhor não nos deixar entrar vai ser punido pelo seu patrão!”

Mesmo assim o homem estava irredutível. Aí então só apontei para os cartazer com nossas fotos e o Porteiro desabou em desculpas pedindo para não contarmos nada a ninguém. Eu exigi, então, uma reparação e ele todo desconfiado perguntou qual seria. Como sou amante de fardas, pedi que ele me emprestasse o pomposo casaco de “General da Banda” que usava para fazer o show. O Porteiro concordou e fomos ao vestiário onde obtivemos a farda com a qual fiz parte do show daquela noite. Daí por diante, vez por outra, em alusão à brincadeira, uso um acessório militar em nossas apresentações.
Como João é professor de Educação Física e foi na época supra Juiz de Futebol, eu, Advogado e Procurador, não deu para conciliar a música com esses trabalhos e tivemos que parar, ficando desacreditados pelos Empresários que recebiam nossas recusas ao nos contatarem para shows.
Recentemente encontrei Puruca em sua casa e ele ficou de vir ao nosso encontro inclusive trazendo músicas novas para o nosso CD “Eterna Jovem Guarda”, mas quando Mary telefonou foi informada que a família vetara atividades artísticas, pois isso o emociona e pode ensejar algum mal a Francisco Fraga, pois ele está hipertenso.
Muitos já sabem de nossas atuais atividades artísticas, mas não dá para terminar um livro contando a historia de uma vida, pois segundo João Saldanha, a pessoa morre, e ele mesmo morreu ao elaborar sua historia…

Assim, essa “minha vida com o Rock” nunca acabará… Rogo a todos aqueles que comungam como nós do Rock, desde os Flemings, Paulo e Mary, Jovens, Canibais, Fevers, Incríveis, jet Black’s, Elizabeth, Renato e Seus Blue Caps, Roberto, Erasmo, etc… aos mais humildes conjuntos musicais, cantores e simpatizantes que formam essa pirâmide, a participarem intensamente, todos da nossa vida com o Rock eternamente!
Deixo este vídeo de Paulo e João José numa gravação da canção “Parei na Contramão”, realizada na gravadora Hawai, que foi contratada para filmar o Show que realizamos em Fortaleza em 1990.
O rangido dos freios foi feito na guitarra, passando um ferrinho pelas cordas, e a buzina e apito foram feitos no órgão.
Quando fizemos cópia do vídeo deste show em Fortaleza, duas músicas foram excluídas por incompetência do editor. Uma delas é esta (Parei na Contramão), onde eu e João brincávamos de imitar Os Vips, por que achávamos que eles estariam nos bastidores, porém quem estava aguardando eram os Golden Boys, e os Vips só chegariam mais tarde naquele dia.

Por Paulo Ribeiro

Paulo Ribeiro em 2015

Paulo Ribeiro em 2015

11 respostas em ““Minha Vida com o Rock”, por Paulo Ribeiro (The Flemings)

  1. Da hora, Lucinha!!! Esses trabalhos sobre a pré-Jovem Guarda são de uma cultura inestimável porque muita gente não conheceu ou conhece as origens…chegam a ir direto aos finalmente! VALEU!!!

  2. História fantástica Paulo!! Vc falou sobre o baterista Gelton, Rostan ou Tonzinho que também tocou nos Santos e no Blue Jeans Rocker. Não sabia que tinha integrado Os Blue Caps. Então, talvez tenha sido ele o seu primeiro baterista, antes mesmo da primeira participação do Gelson Moraes. Concorda?

  3. Ah! Paulo, vc saberia dizer qual foi a primeira formação do Silvery Boys e quem tocava o quê na segunda formação? Houveram outras formações? Desde já, grato. Abçs

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