Jovem Guarda 50 anos: Reflexões

Uma reflexão sobre o que representaram cada um daqueles quase quatro anos que fizeram história, quando mal sabíamos nós que aquele breve espaço de tempo ficaria marcado para sempre nas nossas vidas e na cultura musical do Brasil. E pensar que muitos diziam na época que “aquilo não ia durar nem mais um mês…”.

Em 1965: Firmou-se o marco do movimento com o programa comandado pelo Roberto Carlos, cujas raízes já haviam sido plantadas por Rossini Pinto, e tantos outros artistas que começaram a partir de 1958 se empenhando para que o rock e a música jovem de uma forma geral fossem totalmente aceitos por todos.

Em 1966: Criaram-se os maiores sucessos do Movimento, como “Coruja”, “Eu não sabia que você existia”, “A Volta”, “Pare o Casamento”, “O Bom” (embora o LP seja de 1967, o compacto é de 1966), “Meu Bem” etc… Sendo que “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, “Festa de Arromba”, “Ternura” e outros hits surgiram mesmo em 1965.

Em 1967: Aconteceu a maior vendagem de discos de todo o Movimento Jovem Guarda.

Em 1968: Alguns artistas foram pressionados por intelectuais que não aceitavam que músicas simples pudessem fazer tanto sucesso, e foram partindo para outros estilos e o movimento foi tomando outras formas até terminar, porém ficou eternizado na nossa memória e nos anais da historia da música no Brasil!

Quando falamos que as sementes da Jovem Guarda já vinham sendo plantadas mesmo antes de 1965, é claro que não podemos esquecer destes inúmeros artistas que contribuíram para isto: Tony Campello, Sérgio Reis, Demétrius, Eduardo Araujo, Ronnie Cord, Bobby de Carlo, George Freedman, Dori Edson, Carlos Gonzaga, Marcos Roberto, Cyro Aguiar, Renato e seus Blue Caps, The Jet Blacks, The Jordans, The Clevers, Celly Campello, Cleide Alves, Wanderléa, Rosemary, Ed Wilson, Sergio Murilo, Helio Justo, Celia Villela, Selmita, Albert Pavão, Meire Pavão, Trio Esperança, Golden Boys, e tantos outros que já gravavam música jovem mesmo antes do programa existir.

JG 1

E pensar que o programa Jovem Guarda surgiu na TV quase que por acaso…
Consta que o publicitário Carlito Maia, na época sócio da Magaldi, Maia & Prosperi (MM&P), uma agência que atendia a conta da emissora, lembra no documentário Close Up Planet, de 1996, que o cliente buscava uma alternativa para preencher na grade o espaço deixado pela proibição da transmissão ao vivo do futebol aos domingos.
“Numa visita a Paulinho Machado de Carvalho (dono da Record), ele nos mostrou o vídeo de um cantor que era do Rio. E disse:
‘Será o futuro apresentador do Festa de Arromba’. O cara era sensacional — mas o nome, horrível. No outro dia veio a ideia, tirada de uma frase de Lênin: ‘O futuro do socialismo repousa nos ombros da Jovem Guarda’.” O programa, com o nome aprovado, foi oficialmente ao ar em 5 de setembro de 1965, transmitido ao vivo para São Paulo e exibido em videotape em cinco capitais e algumas cidades do interior paulista, já que na ocasião não havia rede para cobertura nacional.

A Jovem Guarda foi revolucionária, não na visão política e social da época, mas revolucionária no romantismo, na moda e no comportamento da juventude brasileira. A Jovem Guarda não surgiu do nada – antes foi preciso pavimentar a estrada do rock no Brasil, e isso foi feito pelos pioneiros Tony e Celly Campello, Carlos Gonzaga, Joe Primo (The Vampires/The Jet Black’s), The Jordans, The Jet Black’s, The Angels, Bolão e seus Rocketes, Demétrius, Betinho e seu Conjunto, Wilson Miranda, George Freedman, Bobby de Carlo, Célia Villela, The Youngsters, entre outros. Esse pessoal foi quem deu o pontapé inicial.

A expressão Jovem Guarda ultrapassou as fronteiras do programa de TV, transformando-se no belíssimo movimento musical que foi além dos anos 60, chegando até por volta de 1974, que foi o ano em que foi lançado o último volume da série de LPs “As 14 Mais” da CBS, coleção que era uma espécie de termômetro do movimento Jovem Guarda.

O Programa Jovem Guarda exibido pela TV Record canal 7 teve seu início em 22 de agosto de 1965 e em uma primeira fase teve o comando de Roberto Carlos até 17 de janeiro de 1968.

Despedida de RC do JG

A segunda fase, pós saída de Roberto, foi de 24 de janeiro de 1968 a 16 de junho de 1968, sob o comando de Erasmo Carlos e Wanderléa.

Esta informação sobre a data definitiva de encerramento do programa Jovem Guarda é importante mas quase não se fala sobre ela, nem nos livros já publicados sobre a Jovem Guarda encontramos esta informação sobre o último programa Jovem Guarda, e agradeço ao Rubens Stone por divulgá-la no grupo Eterna Jovem Guarda.

Fonte:
_ Grupo no Facebook, “Eterna Jovem Guarda” _ Postagem de Luiz Antonio Cardoso Martins, pesquisador e colecionador de discos de vinil.

Conheçam aqui as 50 maiores canções da Jovem Guarda, eleitas em uma pesquisa realizada pelo grupo Eterna Jovem Guarda em março/2015.

Conheçam aqui os 50 maiores álbuns da Jovem Guarda, também escolhidos através de pesquisa realizada por Rubens Stone.

Notícia da estreia do Programa Jovem Guarda

Notícia da estreia do Programa Jovem Guarda

Jovem Guarda - anúncio da estreia

DEPOIMENTOS DE ALGUNS ARTISTAS QUE PERTENCERAM À JOVEM GUARDA

“A Jovem Guarda significou a minha entrada no hall da fama. Foi um período de, somente, alegria. Era tudo por amor à arte, à música. Gostávamos do que fazíamos, tínhamos sonhos, ideais. O dinheiro era consequência. Levávamos alegria para as diversas cidades por onde passávamos. Estas lembranças são maravilhosas. Tínhamos amor por nossa arte.., pena que voou.., passou muito depressa…” (George Freedman)

“A jovem guarda foi, em minha opinião, o maior movimento musical do país nascido sob a influência dos “BEATLES” assim como de todos os artistas ingleses dos anos 60 que transformaram o rock norte-americano de ELVIS, LITTLE RICHARD, CHUCKY BERRY e até BOBBY DARIN com o seu “SPLISH SPLASH”, o primeiro grande sucesso do Roberto Carlos, gravação da qual tive a honra de participar como guitarrista, mesmo ainda aprendendo a tocar (continuo aprendendo rs.rs.rs.). Graças ao SPLISH SPLASH ocorreu o surgimento da chamada ‘Jovem Guarda’.” (Renato Barros, da banda Renato e Seus Blue Caps)

“A Jovem Guarda foi um programa de TV, que revolucionou todo o cenário artístico musical na década de 60 do qual tenho a honra de ter sido parte integrante.” (Bobby de Carlo)

“DIGAMOS QUE A JOVEM GUARDA FOI O IMPULSO FINAL QUE NOSSA CARREIRA PRECISAVA… ALÉM DA CHANCE DE CONVIVER COM PESSOAS QUE ATÉ ENTÃO ERAM NOSSOS ÍDOLOS… E DE FAZERMOS AMIZADES, QUE ATÉ HOJE CONTINUAM EM NOSSAS VIDAS… NÃO VOU CITAR NOMES (MUITO MEDO DE ESQUECER DE ALGUÉM…) : SÓ UM , POIS FOI RESPONSÁVEL COM SUAS CANÇÕES, QUE A NÓS CONFIOU PARA SERMOS OS PRIMEIROS A GRAVAR E CONSEQUENTEMENTE FAZER SUCESSO…ROBERTO CARLOS.” (Ronald Antonucci, da dupla Os Vips)

“A JOVEM GUARDA A MEU VER, FOI MUITO MAIS DO QUE ESPERAVAM OS RADICAIS DE PLANTÃO… ACHO QUE EM TERMOS DE MOVIMENTO FOI UM DOS MAIORES SENÃO O MAIOR MOVIMENTO MUSICAL DO NOSSO PAÍS… A JOVEM GUARDA NÃO SIGNIFICOU APENAS O SUCESSO NA ÁREA MUSICAL, MAS TAMBÉM UMA TRANSFORMAÇÃO COMPORTAMENTAL DOS JOVENS DE TODO PAÍS…TEVE SIM, A INFLUENCIA DO ROCK, DE BEATLES NO AUGE DA BEATLEMANIA, MAS ACRESCENTOU BRASILIDADE AOS TEMAS…DAÍ, O GRANDE SUCESSO EM TODO TERRITÓRIO NACIONAL . A INFLUÊNCIA MUSICAL DA JG SE FAZ SENTIR AINDA HOJE EM DIVERSOS ESTILOS MUSICAIS, DO ROCK NACIONAL A OUTROS ESTILOS, COMO A MÚSICA ROMÂNTICA . TODOS COM CERTEZA BEBERAM DA FONTE DESSE FENÔMENO QUE É A JOVEM GUARDA ORA COMPLETANDO 50 ANOS DE EXISTÊNCIA E PERMANECERÁ VIVO , ACOMPANHANDO AS GERAÇÕES QUE SE SUCEDEM AOS JOVENS QUE CURTEM A NOSSA MÚSICA LEVE E MARCANTE, QUE RETRATOU TÃO BEM A ÉPOCA COM REBELDIA, OUSADIA E ROMANTISMO … NUNCA NOS ESQUECENDO DE QUE A TROPICÁLIA FOI O PRIMEIRO MOVIMENTO A ENTENDER A NOSSA PROPOSTA…. JERRY ADRIANI”

“A Jovem Guarda tornou público o talento do músico brasileiro e abriu um enorme mercado de trabalho que perdura até hoje…” (Marco Aurélio Carvalho Rocha, da banda The Jordans)

“Éramos alienados???? por quê??? Será porque usávamos outro tipo de comunicação, uma música que vinha de fora????
Eu era um cantor caipira, tentando fazer rock diante da tradicional família Taubateana. Só faltou pintar a polícia. Fomos suspensos por 15 dias no clube. mas não dava para voltar atrás. A Jovem Guarda chegou realmente a mudar minha cabeça, pois eu tive que abdicar do meu topete e assumir o penteado ” lambida de vaca “. fiquei ridículo e parafraseei Shakespeare: “topete or not topete” ???????
Tive que acompanhar o momento para não ser engolido pela onda da Jovem Guarda. Passei um ano e pouco no programa. Emplaquei “Pertinho do Mar”, que não era um rock e sim um twist-jovem guarda. Mas não era fácil. Usar terninhos, aquela disciplina de produção, me revoltei !!!!
Eu só podia cantar uma música, enquanto os “astros (Roberto, Erasmo, Wanderléa…)” cantavam duas, três…
Ensaiei com os Jordans um pot-pourri com três ou quatro músicas, que dariam um total de quase 07 minutos. como era ao vivo, não puderam me tirar do ar. Na semana seguinte já não estava mais cantando no programa. Eu sou na verdade um produto na primeira safra do Rock Brasileiro. Não Havia inocência nesta época. Havia sacanagem, mas era feita com muuuito amor !!!!” (Tony Campello – uma citação colocada no livro “No Embalo da Jovem Guarda”, de Ricardo Pugialli, lançado em 2000)

Tony Campello é anunciado por Erasmo Carlos e canta “Anel de Diamantes”

E respondendo a minha própria pergunta, hoje posso avaliar que a Jovem Guarda foi pra mim a grande ilusão que move um coração de todo adolescente… Eu estava descobrindo a vida, o mundo fora das 4 paredes do meu quarto, e foi a Jovem Guarda que me apresentou aquele mundo novo, de glamour, de moda, de ritmo, de alegria, de felicidade e paixões.
Muitos dizem que a Jovem Guarda revolucionou a música, mas pra mim que ainda começava a descobrir a vida, as artes, a literatura, a música, enfim, estava ainda começando a conhecer os discos, cantores, programas de rádio e TV, era o que havia, o que existia, e eu gostava de ouvir aquelas canções, e não precisei mudar nada, apenas me interessei por aquele mundo novo que surgia à minha frente e que podia me levar no seu embalo…

Em 26/09/1965, recebendo meu presente de aniversário: RC Canta para a Juventude

Em 26/091965, meu presente de aniversário: RC Canta para a Juventude

Quem gostava de assistir aos programas não deixava de ouvir a Rádio Jovem Pan e o programa “Mexericos da Cidinha”, comandado por Cidinha Campos, na época casada com Manoel Carlos. Era realizado diariamente às 17h e Cidinha contava todas as “fofocas” dos artistas. O programa do Erasmo Carlos era às 16h, e também havia o programa do Roberto Carlos às 10h da manhã, que a gente não perdia por nada! Ele costumava ler cartas de fãs que escreviam para o programa. Certa vez mandei uma carta e bem no dia que esperava que ele lesse no ar, meu irmão, muito brincalhão, desligou o relógio de força e o rádio desligou. Fiquei muito brava e chorei muito, tanto que ele depois até se arrependeu da brincadeira…
E havia as roupas das cantoras, que era o sonho de 9 entre 10 de nós irmos a São Paulo para comprar na Rua Augusta, nas boutiques de lá, por que sabíamos que era lá que algumas ou a maioria delas compravam suas minissaias e botas. Era o programa ditando a moda…
Como meu irmão morava em São Paulo, tive oportunidade de ir até lá na Rua Augusta e comprei uma bota cor marfim, cano longo, que custou 70 mil cruzeiros… Fui a primeira a usar botas na minha cidade de Casa Branca, e agora lembrando, é até engraçado, por que todo mundo olhava estranhando, e me lembro de ouvir uma vez um comentário de um rapaz que falou: “engessou as pernas”? rsrs

E lá se vão 50 anos de tudo isso… e como disse o Erasmo, “quem viveu viu, quem não viveu, ouviu falar!”

Na semana que sucedeu a data do aniversário dos 50 anos da Jovem Guarda, as emissoras de TV homenagearam as velhas “jovens tardes de domingo”, e esta foi a parte final da série exibida pela TV Record:

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