O breve e inesquecível “Pulo do Gato”!

DE COMO GATO ENTROU PARA O CONJUNTO THE JET BLACK`S

“Após alguns sábados de sucesso total do programa “Ritmos para a Juventude”, diretamente do auditório e palco da Rádio Nacional de São Paulo, durante os ensaios, antes de entrarmos no palco, havia um rapaz, que, sentado ao piano, de vez em quando, dava uns toques discretos para não atrapalhar nosso ensaio. Veio-me à cabeça: “Como o Bobby De Carlo volta e meia falta aos sábados, seria uma boa eu tentar falar com esse cara. Se ele topar tocar piano em nosso conjunto, vou matar dois coelhos com uma cajadada. Na maioria dos arranjos de rock, o piano é usado. E ele vai cobrir a falta do De Carlo.” Perguntei se ele tocava piano há muito tempo. Respondeu-me que somente arranhava um pouco. Convidei-o para tocar conosco, ele aceitou e me disse que tinha uma guitarra. Perguntei-lhe se também sabia tocá-la. Respondeu-me que sabia arranhar um pouco. Disse-lhe que, após o programa, entraríamos em mais detalhes. Por enquanto, se ele quisesse atacar de piano compondo o conjunto The Vampire’s, tinha meu consentimento. Perguntei-lhe o nome e o informei a Aguilar, para que anunciasse sua entrada como participante do conjunto. O apresentador se enrolou todo ao anunciar. Não sabia se era José Provetti ou se era Gato. Mas, usando seu jogo de cintura de disc-jóquei, consertou: “É lógico que eu estou falando do nome artístico de José Provetti, ou seja, Gato, esse novo integrante que entra para valorizar ainda mais The Vampire´s, conjunto famoso que essa juventude feliz e sadia já elegeu como o melhor grupo de rock!” Casualmente, sem saber que estava praticamente profetizando, Aguilar anunciou o cantor que já havia virado o eleito dos novatos que se apresentavam aos sábados, Jet Black, que iria cantar acompanhado por The Vampire´s, com Joe Primo na guitarra, José Paulo na guitarra base, Jurandy na bateria, Carlão no baixo e, agora, Gato no piano. Terminado o programa, novamente um sucesso crescente, nós nos dirigimos à oficina de tapeçaria de carro, situada na Rua Hanneman, ao lado da Igreja Santo Antonio do Pari, de um amigo nosso, Jhony, e seu irmão Benê, que gentilmente nos cediam o local para os ensaios. Nesse ensaio, fizemos em comum acordo uma nova ordem de entrada com referência aos instrumentos que seriam tocados, ou seja, tendo em vista a desenvoltura apresentada por Gato nas preliminares de suas exposições, dado o modo como pegava na palheta para fazer algum improviso em uma guitarra amarela dourada, extraindo um som próximo ao de uma guitarra com alavanca, que a dele não tinha, resolvi indicá-lo como guitarra solo. Todos concordaram. Fiquei com a guitarra base, o José Paulo, com o baixo, e o Jurandy continuou sendo baterista.” (Primo Moreschi, O Protagonista Oculto dos Anos 60)

José Provetti nasceu em Valparaíso-SP em 7 Janeiro 1941. Filho de Ricardo Provetti e Antonia Buonvonatti, lavradores. Em 1948, a familia Provetti mudou-se para São Paulo. Em 1951 formou dupla caipira com Zé Cascudo, esse tocando violão e Gato tocando viola. Estudou violão clássico com o prof. Salvador Viola no Largo do Paissandú.

Gato - eu sou assim

Gato era o apelido de José Provetti e que ele usou durante toda sua vida adulta. Gato foi simplesmente o melhor guitarrista de rock’n’roll do Brasil. Não se sabe muito de sua vida antes de ser descoberto por Joe Primo no programa Ritmos para a Juventude… Sabe-se que nasceu em 07 de janeiro de 1941 na cidade de Valparaíso-SP, uma pequena cidade próxima a Guararapes, Andradina and Araçatuba. Seus pais eram pobres e trabalhavam em fazendas da região.

Em 1948, quando Zezinho estava com 07 anos sua família mudou-se para São Paulo. Em 1951, quando ele estava com 10 anos, juntou-se a Zé Cascudo e com ele formou uma dupla caipira. Um tocando violão e o outro viola. Um cantava a melodia e o outro a harmonia, que é a alma da música regional brasileira. Zé Provetti & Zé Cascudo deve ter sido mais uma entre tantas duplas. Depois Zé começou a ter aulas de violão clássico com Salvador Viola no Largo Paissandú no centro de São Paulo.

Não se sabe exatamente quando houve a conversão do Gato para o Rock mas não é difícil imaginar que ele deve ter se apaixonado por algum daqueles guitarristas dos primórdios do rock, pois já em 1959 Gato era um virtuoso na guitarra e fez parte da turma da gravadora Young, sendo líder dos Jester Tigers, acompanhando a maioria dos cantores. Gravou dois discos solo pela Young, um cantando ‘Kissin’ time’ e ‘What’d I say’ e no outro solando sua guitarra em ‘Paris Belfort’ e ‘Parada da Juventude’. Gato não apenas tocou guitarra como também cantou… e cantou em um ótimo inglês. Sua versão de ‘Kissin’ time’ é ótima e a de ‘What’d I say?’ também não é nada mal.

Gato também tocou guitarra na maioria das faixas gravadas pela Young Records, quando era o líder do The Jester Tigers.

Por volta de 1960 e 1961, Gato tocava aqui e ali… até que em 1962 entrou para o conjunto The Jet Black”s, a convite de Primo Moreschi, o Joe Primo.
Eles tocavam na boite Lancaster, localizada na época na Rua Augusta in São Paulo. Logo eles gravaram ‘Stick shift’, um disco 78 rpm pela Chantecler. Em setembro de 1962 a Chantecler lançou ‘Apache’, sucesso que chegou ao #1 das paradas.

The Jet Blacks lançaram dois álbuns seguidos e em 1964, houve uma avalanche de imitadores em todo o país. O Rock’n’roll brasileiro tinha vindo pra ficar!

Nesta foto, do acervo de Sérgio Vigilato (Serginho Canhoto), estão Zé Paulo, Gato, Serginho, e Jurandi na bateria.

Fernando Zara, à esquerda, era o produtor deste programa ao vivo da Rádio Piratininga, levado ao ar às 6as.feiras no auditório do Instituto de Arquitetos na Rua Bento Freitas, subsolo. Ao lado dele está Luiz Alberto como apresentador do programa intitulado ‘Clubinho da Juventude’, que tinha seu similar na TV Excelsior, Canal 9, às quintas-feiras às 17h. (Informações de Fernando Zarakauskas para a página Jovem Guarda, a Brasa Continua Acesa).

foto Jet Blacks

Em 1961 se tornou DJ na Rádio Piratininga e Rádio Santo Amaro. Na Piratininga José Provetti apresentava os programas ‘Diz que não conhece’ e ‘A bolsa do disco’. Com o sucesso absoluto dos Jet Black’s, Gato abandonou suas atividades de disc-jockey.

Começou a participar ativamente do programa ‘Rítmos da Juventude’ de Antonio Aguillar pela Rádio Nacional de São Paulo todos os sábados das 15h às 17h, e foi lá que conheceu Joe Primo e entrou para o conjunto The Vampires, que depois se tornou the Jet Black’s.

Sonia Andrade, Presidente do Fã Club Ronnie Cord, condecorando o musico Gato, ao lado de Antonio Aguillar que transmitia o acontecimento e também a presença de George Freedman, um de seus maiores amigos.

Sonia Andrade, Presidente do Fã Club Ronnie Cord, condecorando o musico Gato, ao lado de Antonio Aguillar que transmitia o acontecimento e também a presença de George Freedman, um de seus maiores amigos.

Miguel Vaccaro Netto conseguiu que gravassem um 78 rpm dos Jet Black’s na Chantecler. Gravaram ‘Apache’ em outubro de 1962, que estourou nas paradas, começando assim uma nova tendência dentro do rock nacional.

Em Janeiro de 1963 a Chantecler lançou ‘TWIST’, o 1o. LP dos Jet Blacks, que foi para o primeiro lugar nas paradas de sucesso, de imediato! Em Junho de 1963 a Chantecler lançou ‘Twist Again’, o segundo LP do conjunto. Foi sucesso absoluto, que abriu caminho para The Jordans, The Clevers e todos os outros conjuntos instrumentais que iam surgindo no Brasil.

The Jet Blacks na revista Melodias

Gato tocou na banda até sair em 1966, sendo substituído pelo não menos competente guitarrista Emilio Russo (ex-The Lions).

Revista Intervalo - edição de 24 de abril de 1966. Na foto, da direita para a esquerda: Emilio Russo, Jurandi, Gato e Zé Paulo

Revista Intervalo – edição de 24 de abril de 1966.
Na foto, da direita para a esquerda: Emilio Russo, Jurandi, Gato e Zé Paulo

Sai do conjunto The Jet Black`s em 1966

Sai do conjunto The Jet Black`s em 1966

 Por volta de Março de 1966 então Alemão, Zé P, cuja formação era então Alemão, Zé Paulo e Jurandi. O artigo da Intervalo diz que Fato estava prestes a ter um colapso nervoso devido a muitos compromissos como músico e não podia suportar mais. Os rapazes compreenderam e começaram a procurar seu substituto. Em 19 de março de 1966 Emilio tornou-se oficialmente lead-guitarrist e foi apresentado por Roberto Carlos no programa Jovem Guarda num domingo, dia 20 de março de 1966 como sendo o mais novo membro da banda. Emilio tinha 21 anos (nasceu em 1945), 1.80m de altura./ Around March 1966 Gato up and left The Jet Blacks who were then Alemão, Zé Paulo & Jurandir. The article at Intervalo says Gato was close to a nervous breakdown due to too many engaments as a musician and couldn't cope with it anymore. The guys understood Gato's predicament and went on the look out for a replacement. The boys went on a raid through most night-clubs in Sao Paulo and finally found lead-guitarrist Emilio playing with The Lions and popped the question to him. Emilio is an excellent guitarrist and a good looking one to boot. As of 19 March 1966, Emilio became the official lead-guitarrist with The Jet Blacks having been introduced by Roberto Carlos at 'Jovem Guarda' on the Sunday 20 March 1966 as the newest member of the band. Emilio was 21 years old (born in 1945) and 1.80 metres tall. Gato would then go into a detox joint and soon join Roberto Carlos's band.

Por volta de Março de 1966 então Alemão, Zé P, cuja formação era então Alemão, Zé Paulo e Jurandi. O artigo da Intervalo diz que Fato estava prestes a ter um colapso nervoso devido a muitos compromissos como músico e não podia suportar mais. Os rapazes compreenderam e começaram a procurar seu substituto. Em 19 de março de 1966 Emilio tornou-se oficialmente lead-guitarrist e foi apresentado por Roberto Carlos no programa Jovem Guarda num domingo, dia 20 de março de 1966 como sendo o mais novo membro da banda. Emilio tinha 21 anos (nasceu em 1945), e 1.80m de altura. / Around March 1966 Gato up and left The Jet Blacks who were then Alemão, Zé Paulo & Jurandir. The article at Intervalo says Gato was close to a nervous breakdown due to too many engaments as a musician and couldn’t cope with it anymore. The guys understood Gato’s predicament and went on the look out for a replacement. The boys went on a raid through most night-clubs in Sao Paulo and finally found lead-guitarrist Emilio playing with The Lions and popped the question to him. Emilio is an excellent guitarrist and a good looking one to boot. As of 19 March 1966, Emilio became the official lead-guitarrist with The Jet Blacks having been introduced by Roberto Carlos at ‘Jovem Guarda’ on the Sunday 20 March 1966 as the newest member of the band. Emilio was 21 years old (born in 1945) and 1.80 metres tall. Gato would then go into a detox joint and soon join Roberto Carlos’s band.

Na reportagem da Revista Intervalo consta que Gato estava prestes a ter um colapso nervoso devido a muitos compromissos como músico e não podia continuar mais.

The jet Blacks - Serginho, Zé Paulo, Gato e Jurandi

Os rapazes da banda compreenderam os motivos de Gato e começaram a procurar alguém para substituí-lo. Fizeram uma busca pelas boates e night-clubs em São Paulo e finalmente descobriram o guitarrista Emilio Russo tocando com o conjunto The Lions e fizeram a proposta a ele.

Gato passou por um período de desintoxicação e em breve se juntou ao RC3, de Roberto Carlos.
Gato foi instrumental na formação do RC-3 e depois RC-7 que acompanharam Roberto Carlos durante todo o período Jovem Guarda e até por algum tempo depois.

Gato, Serginho Canhoto, José Paulo e Jurandi em 1965 - foto no caderno de recordações da fã Nanci Satriani Ribeiro

Gato, Serginho Canhoto, José Paulo e Jurandi em 1965 – foto no caderno de recordações da fã Nanci Satriani Ribeiro

Últimas imagens de Gato

Em fevereiro de 1991 aconteceu um encontro na casa do saudoso Guilherme Dotta (The Jet Black`s), onde estiveram presentes Tony (Jordans), Nenê (Incríveis) Jurandi (Jet Black’s), que ainda estavam na ativa, Gatto (Jet Black’s) e Alladin (Jordans).

Seguem duas fotos do acervo do Fares Darwiche, feitas por Celso Fonseca, um repórter musical do Jornal da Tarde na época que se reportava a Castilho de Andrade, um fã da Jovem Guarda que junto com o Fares fizeram o filme de lançamento do Livro de Albert Pavão em sua primeira edição nos anos 80 no Hotel Normandie.
Celso foi levado pelo parceiro do Fares ao documentário, Valdimir D’Angelo, hoje Diretor da Gravadora Arlequim, e que também estava presente no local.
O Fotografo do evento é um baixinho à esquerda na foto do jornal.

Guilherme Dotta 1

Guilherme Dotta 2

Mais fotos do memorável encontro realizado em fevereiro de 1991 na casa do saudoso Guilherme Dotta. Este encontro fez parte de um Projeto realizado por Fares Darwiche e Valdimir D’Angelo, onde eles gravaram depoimentos com quase toda a Jovem Guarda, durante um período em dupla e depois cada um separadamente.

Gato e amigos na casa do Dotta

Gato na casa do Dotta

Gato na casa do Dotta 2

Todos estavam um pouco “enferrujados” pela distancia (em tempo) que estavam de seu instrumento. Mas o que se passou naquela tarde foi inesquecível. Os músicos “desenferrujaram” com mais ou menos 2 horas e meia de som, documentado em VHS (que está sendo devidamente restaurado).

Fares Darwich conta que um fato foi inesquecível e o levou às lágrimas…

A banda era Tony (Jordans), Nenê (Incríveis) Jurandi (Jet Black’s) que estavam na ativa, Gatto (Jet Black’s) e Alladin (Jordans) um pouco “enferrujados” pela distancia em que estavam de seus instrumentos.
Na afinação dos instrumentos, entrosamento, ninguém se falava, apenas dedilhavam seus instrumentos e ninguém entrava. Alguns inseguros, outros aguardando quase que por “hierarquia”, se é que existe isto neste meio.
Em determinado momento o grande Jurandi, já meio p…., grita um sonoro palavrão direcionado ao Gato e Alladin, e entra com a introdução de Apache!
Como num passe de mágica, todo aquele “ferrugem” se foi como fumaça, e a música correu “emocionantemente” solta…

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Mais vídeos deste encontro:

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E assim o lendário Gato, um dos maiores guitarristas do Brasil, morreu no esquecimento e afastado da mídia em 31 de janeiro de 1996, vitimado por sequelas de um derrame cerebral, e foi sepultado no cemitério do Cajú no Rio de Janeiro.

Pesquisa: 1) Luiz Amorim, Blog Brazilian Rock

2) Grupo Eterna Jovem Guarda

11 respostas em “O breve e inesquecível “Pulo do Gato”!

  1. QUE BELEZA ( E QUE TRISTE) ESSE DOCUMENTÁRIO .NÓS OUTROS GUITARRISTAS ASSISTÍAMOS AOS SOLOS DO GATO, TENTANDO APRENDER COISAS NOVAS. ELE NÃO SE IMPORTAVA. JÁ O FRITZ E O EUCLIDES OUTROS GUITARRISTAS ( O PRIMEIRO DOS BLUE JEANS ROCK E O SEGUNDO DE LUIZINHO E OS DINAMITES , SE VIRAVAM DE COSTAS PARA NÃO VERMOS SEUS ACORDES E SOLOS, RS,RS,RS, SAUDADES.

  2. É BOM RESSALTAR QUE POR ESSA ÉPOCA OUTRO GUITARRISTA MUITO BOM PASSOU A GRAVAR INÚMEROS SUCESSOS DE SEU CONJUNTO, QUASE NINGUEM SABE Q PAULO CESAR BARROS É UM P….. GUITARRA USADO INCLUSIVE POR ROBERTO Q O LEVOU ATÉ P O FORA DO PAÍS P GRAVAR.

  3. APÓS VER E LER TODO ESTE REGISTRO MARAVILHOSO,TENHO QUE APLAUDIR A LÚCIA ZANETTI PELA PUBLICAÇÃO FANTÁSTICA E HISTÓRICA DA ESPETACULAR BANDA THE JET BLACK’s.SEM DÚVIDAS, UM REGISTRO “CLASSE AAAAAAA”!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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