Uma análise da canção “Nós Dois”, composição de Renato Barros.

A canção “Nós Dois” faz parte do álbum de Renato e Seus Blue Caps lançado em 1971, o primeiro a não incluir versões de músicas internacionais.

Tomamos conhecimento hoje de uma análise perfeita sobre esta canção, feita pelo professor JV de Miranda Leão Neto, a qual transcrevo aqui para vocês também se emocionarem comigo diante da beleza e grande sensibilidade deste professor.

Uma música que expressa a saudade feliz do amor

Autor: Prof. JV de Miranda Leão Neto

Um momento mágico na antologia de composições de Renato Barros foi alcançado em 1971, com um disco genial que não obteve tanto sucesso quanto outros do Renato e seus Blue Caps.

Só quem viveu um grande amor poderá entender uma reflexão como esta, em torno de uma canção belíssima de um dos mais qualificados conjuntos de pop-rock brasileiro. Ela tem a singeleza das cantigas de ninar e a beleza das grandes óperas da era barroca, com uma poesia recheada do melhor e mais nobre dos sentimentos.

Refiro-me à música “Nós Dois”, que Renato Barros e seu excelente Renato e seus Blue Caps publicaram através do LP de 1971, considerado o mais “técnico” e melodioso da banda, entre os muitos que ela já havia lançado até à ocasião, desde o início dos chamados “Anos Dourados”. Há mesmo quem diga que aquele disco representou o start da maturidade musical plena do Grupo, a partir da qual já não eram mais possíveis jornadas aventureiras pelo rock mais ritmado dos primeiros discos, e muito menos pelas “rasgadas metálicas” de canções como “Dona do meu coração”, “Ana”, “Pra você não sou ninguém” e “Só faço com você”, embora o LP de 71 ainda trazia hits de impacto dançante, como “467723” e “Não é nada disso”.

Com efeito, com uma melhor atenção, o leitor poderá ver que se trata de uma composição até certo ponto simples, mas extremamente bela em sua “tristeza feliz”, contando com detalhes um romance aparentemente findo entre um casal que vive/viveu o amor verdadeiro, com uma mensagem captada ao longo do tempo em que durou a relação, e por isso mesmo penetrando no futuro que talvez não a destruiu ou jamais a destruirá, “porque os amores verdadeiros subsistem à morte”, já diziam os oráculos…

Do ponto de vista técnico, ela tem uma característica rara numa música popular (embora sua linha melódica seja “clássica” demais para ser chamada de popular) que é a sua “circularidade”, pois a canção começa e termina no mesmo ponto lógico, entre a decisão expressa na primeira frase e a última… E dizem os experts que a mesma circularidade subsiste na melodia, de tal maneira que se alguém mixasse o seu final com o seu início, ouviria algo como uma antiga cantiga escocesa com o espírito das gaitas de fole usadas em passeatas militares ou espetáculos circenses, cuja duração exigia um fundo musical reprisado sem se distinguir começo nem fim. E melhor: mesmo com sua circularidade não perde a beleza nem enfada, embora seja absolutamente “sem pressa” em sua cadência.

O que diz a sua letra-poesia? Vejamos:

“Eu hoje vou voltar pra ver,/Lugares onde fui feliz…/Vou rever nossa estrada/E aquela casa que eu te mostrava/E sonhei, pra nós dois!… – Eu hoje tenho que aprender…/A um só cigarro acender,/E no carro escutar a nossa canção,/Chorar com saudade…/De apertar, outra vez, sua mão!… – Eu hoje vou voltar pra ver,/Lugares onde fui feliz…/Pode ser que você também possa estar/No mesmo lugar, e assim nós dois/Vamos nos encontrar…”

Como percebe o leitor, estamos diante da sublime estética da simplicidade, tão importante na arte de se fazer boa música. Por isso, tudo aquilo que um comentário poderia adicionar à merecida lista de encômios que esta canção merece, nunca alcançaria beleza semelhante à sua linha melódica e letra, uma vez que esta traduz uma HISTÓRIA (certamente real) na vida do seu autor, ou próxima disso, ou na vida de alguém que a escutou… e curtiu… e chorou… e chorou de alegria e saudade, saudade do futuro que só a fé na sobrevivência da alma pode acalentar. E por contar uma história perfeitamente vivenciável e plausível, mereceria, isto sim, um filme Disney ou hollywoodiano dos mais tocantes, à moda “Cinderela” ou “Love Story”, como nos tempos em que Ali MacGraw encantava corações no mundo todo.

Este comentarista tentou “filmar” a música. É claro que dei ênfase à sua letra e entrelinhas, para cativar a atenção e cultivar a paixão do Petit Prince por sua flor, símbolo máxime do que pode sentir um coração humano, embora o principezinho fosse ‘extraterrestre’. O leitor poderá ver o making-of daquilo que chamei de “filme” “Neste link”.

Finalmente, meus alunos me perguntaram por que escolhi ESTA música do Renato e Seus Blue Caps, “quando a banda tem tanta coisa linda para se comentar” (?). É verdade. Renato Barros e os seus companheiros foram e são (até hoje) o que de melhor a Jovem Guarda produziu, do melhor de todos os tempos na música nacional. Respondi: “Seria lugar comum dizer que ela é a mais bela para meu coração, ao mesmo tempo que escrever sobre algum grande sucesso da banda seria também lugar comum, e lugares comuns não combinam com uma música que embala nossos sonhos justamente por revisitar lugares incomuns, lugares onde fui feliz”…

Link Original

Pois bem, diante de uma análise tão bonita, não tive dúvidas em ligar para o autor da canção, Renato Barros, e pedir a ele que me falasse sobre a sua composição “Nós Dois”.

Ele me contou então que sempre gostou de fazer música (melodia) e desde cedo não ouvia somente Rock, mas gostava também de ouvir Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho e Waldir Azevedo, entre outros.

Sérgio Bittencourt era filho de Jacob do Bandolim e fez a música “Naquela Mesa” para seu pai, como também compôs “Modinha”, e ele tinha um programa na Rádio Nacional do Rio, onde ele só tocava MPB.

Renato Barros sabia do gosto musical de Sérgio, e como queria participar do programa, começou a pensar em fazer uma música pra ele gostar… Renato conversava muito com Cid sobre o Sérgio Bittencourt e foi então que teve a ideia de fazer uma música cuja linha melódica lembrava um pouco as coisas que Sérgio fazia.
Renato e Cid foram ao programa de Sérgio Bittencourt e Renato pediu ao sonoplasta que separasse a canção “Nós Dois”, e a música foi tocada no programa…

Renato se recorda que Sérgio Bittencourt começou a ouvir e prestar atenção no que estava escutando…

A melodia lembrava “Because”, dos Beatles, porém na gravação de Renato e Seus Blue Caps foram colocados mais instrumentos; pensando em uma letra que pudesse ser o tipo que agradasse ao Sérgio Bittencourt, veio à mente a lembrança de seu pai, que havia falecido em 13 de dezembro de 1967; Renato começou a recordar das vezes em que passava com o pai no centro da cidade no Rio, costumavam passar em frente a uma casa muito bonita e o pai comentava que era linda aquela casa… e então Renato quando fez esta música, pensou muito nessas coisas de passar por algum lugar e recordar o que passou, lembranças boas que ficaram e que não voltam mais.

Dessa ideia dos lugares pelos quais passava com seu pai, transformou como se fossem as lembranças de um casal de enamorados que agora só têm lembranças…

Ouvi o Renato me contar tudo isso e em seguida li pra ele o que escreveu o professor. Ele ficou admirado com a percepção dessa pessoa e sentiu-se muito gratificado, tanto que gostaria até de poder agradecer a ele, que talvez tenha sido uma das poucas ou talvez a única pessoa a analisar com tamanha perfeição a canção que foi escrita por ele para poder participar do programa de Sérgio Bittencourt na Rádio Nacional do Rio, tendo colocado na letra as lembranças dos lugares pelos quais passou com seu pai…

renato-e-cid-video-1

Neste disco de 1971 Renato deixa evidente em algumas canções a influência do guitarrista Santana, que havia estado no Brasil, o que deu ao LP uma sonoridade bem característica do início da década de 70.

Há outras canções lindas, como “Essa Noite não Sonhei Com Você”, e também a composição de Ed Wilson, intitulada “Não é nada disso”.
O maior sucesso foi a composição de Getúlio Côrtes, intitulada 46-77-23.

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