O Selo “Young” e sua importância no cenário da música brasileira. (Parte I)

Um dos movimentos artísticos mais negligenciados e esquecidos por historiadores da música popular no Brasil foi aquele criado por Miguel Vaccaro Netto no final dos anos 50 em São Paulo.
Trata-se do selo independente YOUNG, que em sua breve existência (1959 a1962), foi responsável pela revelação de artistas que tiveram grande importância para a solidificação da música dirigida ao público jovem do Brasil.

Enrique Lebendiger era o presidente fundador da Editora Fermata do Brasil e tornou-se sócio de Miguel Vaccaro Neto na gravadora Young. Com enormes conexões internacionais, adquiriu os direitos de distribuição para o Brasil e Argentina de grande parte das músicas que faziam parte da explosão do Rock and Roll nos Estados Unidos, a partir de 1955 até os primeiros anos da década de 60.

O grande problema enfrentado por Lebendiger era a limitação de veículos para seu imenso catálogo.
Em 1958 tínhamos quatro grandes gravadoras no Brasil, a saber, RCA Victor, Odeon, Columbia e Philips. Todas elas dependentes das matrizes americanas. RCA possuía Elvis Presley, Neil Sedaka, Johnny Restivo e outros. Odeon dependia da EMI/Capitol para ter Little Richard, Frankie Avalon e outros. O material que Lebendiger possuía era, em sua esmagadora maioria, proveniente de selos independentes que nasciam a cada dez minutos nos EUA. E nenhuma gravadora os lançava no Brasil. Veio então a ideia de gravar seu catálogo com artistas brasileiros. Não em versões, mas sim em inglês.

Miguel Vaccaro Netto era os disc-joquei paulista que tinha a maior audiência entre os jovens, através de seu programa Disque-Disco, transmitido pela antiga Rádio Panamericana, hoje Jovem Pan. Era sua especialidade apresentar os grandes sucessos internacionais importados, inéditos por aqui. Ele seria o veículo ideal para captar novos talentos que buscavam seu lugar ao sol, ansiosos para ser um novo Elvis, ou Tony Campello, Carlos Gonzaga, Sergio Murilo, Celly Campello, Wilson Miranda, Lana Bittencourt, entre outros que eram os artistas que lançavam músicas internacionais em versões para o português.

Bastaram dois ou três programas para termos nos corredores da Radio Panamericana um desfile de jovens, rapazes e garotas, candidatando-se para os testes. Outros foram vistos ou ouvidos em outros veículos.
The Avalons apresentaram-se cantando Bye Bye Love, dos Everly Brothers, em um programa da antiga TV Paulista (hoje Globo) produzido por David Conde.
Foram localizados e contratados.
Hamilton Di Giorgio cantou Peggy Sue, de Buddy Holly, no programa de Domingos Paulo Mamone, o Minguinho, parceiro do grande Archimedes Messina, na antiga Radio São Paulo.
The Avalons e Hamilton Di Giorgio, juntamente com Regiane (Regina Celia), formaram o trio de primeira linha do selo YOUNG.
O gupo The Avalons era formado pelos irmãos Dudu (guitarra) e Paulinho (bateria) com Daniel ao contra-baixo mais Solano e Passarinho (Nilton) nos vocais. Após as primeiras sessões de gravações, o asiático Bob foi incluído nos vocais do grupo.
Depois de um tempo, o trumpetista Masao juntou-se ao grupo.
Solano Ribeiro, ao deixar os Avalons, tornou-se um grande publicitário e foi o idealizador dos revolucionários festivais da Record, onde se revelaram Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina etc.
Daniel tornou-se o contrabaixo do excelente São Paulo Dixieland Band.

E o primeiro disco gravado pela YOUNG foi Valentina, “My Valentina”, com The Avalons.

Primeira gravação da cantora Regiane na Young em 1959.
Composição: (Neil Sedaka/Howard Greenfield)

Regiane com The Avalons -Tum Ba Lov

Regiane & The Avalons – Frankie (Young 45-106) 1959

Regiane & The Avalons – To Know Him Is To Love Him (Young 78-101) 1958

Toda esta historia da gravadora Young (para a qual daremos continuação em breve), me foi contada por Alfie Soares, que trabalhou como assistente de Miguel Vaccaro Neto e também como divulgador e produtor em algumas gravadoras, como ele mesmo escreveu:

BASTIDORES DA HISTORIA DA MÚSICA BRASILEIRA

“Primeiramente, meus cumprimentos pelo seus trabalhos. Você contribui enormemente com algo que sempre fez muita falta em nosso país, ou seja, cultuar a história e a memória. Os jovens de hoje precisam saber quais jovens de ontem abriram caminhos e portas para eles. Você faz isso muito bem.

Acompanhei sua entrevista com Hamilton Di Giorgio e notei que você perguntava muito sobre a Young. Eu estive lá do começo ao fim e posso contribuir com algumas curiosidades a respeito daquela pioneira gravadora.

Antes, se você me permitir, gostaria de apresentar um resumo de meus trinta anos trabalhando nos bastidores da música aí no Brasil, de forma resumida.

1959 – 1962 – Trabalhei como assistente de Miguel Vaccaro Netto, Rádio Panamericana (Jovem Pan), programa Disque Disco. Durante este período foi criada a Young. Também neste período trabalhei no Teatro Record, nas apresentações de atrações internacionais como Brenda Lee, Neil Sedaka, Paul Anka, Teddy Randazzo, Frankie Lymon, Johnny Restivo, Frankie Avalon e outros tantos.

1964 – 1969 – Trabalhei na Odeon, onde comecei como divulgador e terminei como produtor. Fiz trabalhos com Abílio Manoel, Silvio Cezar, Eduardo Araújo, Silvinha e outros. (Para você, uma Beatleóloga, uma curiosidade: Em 1966, recebi o troféu Chico Viola (TV Record) em nome dos Beatles (I Wanna Hold Your Hands) e eles, através da EMI, permitiram que eu ficasse com a estatueta). Quando mudei-me para os Estados Unidos em 1992, deixei o troféu com o filho de meus amigos Marcos e Rose. Ele era um pré-adolescente e gostava da estatueta. Seu nome é Marcos Vinicius Silvestre e vou tentar localiza-lo. Se ele ainda o tiver, vou pedir que o fotografe para mostrar a você.

1969 – 1970 – Fui produzir para Philips/Polygram. Gravei com Ronnie Von, Coisas de Agora, Tim Maia e outros.

1971 – 1979 – Contratado pela RCA Victor para tomar conta do Departamento Internacional e também produzir. Lá, voltei a trabalhar com Eduardo Araújo, Silvinha, meu amigo Demétrius e outros.

1980 – 1992 – Após rápida passagem pela gravadora Continental, parei de lidar com discos e fui para uma produtora de shows cujos donos eram Atílio Vanucci Jr. e Chico Anísio. Lá eu tive participação ativa nos shows de Kiss, Peter Frampton e Harlem Globetrotters. Dai fui com Claudio Liza para a Intershow, onde trabalhei novamente com Ronnie Von, Manolo Otero, Sarita Motiel e Fabio Jr. Passei a trabalhar exclusivamente com Fábio até 1991. Em 1992 mudei-me para Miami, onde estou até hoje.

Vale dizer que em 1962 escrevi minhas primeiras músicas com Hamilton Di Giorgio.
Depois, tive como parceiros Wagner Benatti, o Bitão dos Pholhas (Clube Atomico c/ Luiz Fabiano), Papi (What To Do c/ Vanusa), Tony Campello (Cada Coisa Em Seu Lugar). Depois, sozinho, escrevi musicas e versões para Eduardo Araújo, Silvinha, Celly Campello, Suzy Darlen, Joelma, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Os Incríveis, Os Pholhas, Julio Iglesias, Chris McClayton e alguns outros mais. Meu último trabalho, antes de mudar-me, foi para Zezé Di Camargo (Faz Eu Perder o Juizo).

Espero ter podido dar a você uma ideia de minha passagem pelos corredores do show business brasileiro, onde deixei muitos amigos e grandes recordações.

Por Alfie Soares (Afonso Soares de Azevedo)

Alfie Soares em 1960 fotografado por Joe Primo Moreschi. A foto foi feita no Studio Ritz, Avenida São João, 225.

Alfie Soares em 1960 fotografado por Joe Primo Moreschi.
A foto foi feita no Studio Ritz, Avenida São João, 225.

2 respostas em “O Selo “Young” e sua importância no cenário da música brasileira. (Parte I)

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