RENATO BARROS E SEUS BLUE CAPS: 60 ANOS DE SUCESSO!

A pessoa de Renato Barros se confunde com a sua criação, a banda Renato e Seus Blue Caps, e quando falamos de um, o outro necessariamente se torna o assunto.
Neste ano de 2019 o músico, guitarrista, compositor, radialista, produtor RENATO BARROS chega aos 60 anos de carreira artística, à frente de uma banda de Rock que atravessa os tempos realizando shows por todo o Brasil.

Sua historia está sendo contada em livro por mim, em prosa e versos, de uma forma diferente, por que serão as próprias palavras do artista em sua exata maneira de ser e de se expressar.
Tudo está dividido em 20 capítulos, muitos deles ainda a serem desenvolvidos.

A capa também não é a definitiva, e aceitamos sugestões.

O Livro “Renato Barros: um Mito, uma Lenda, ainda em andamento…

PREFÁCIO
Por Renato Barros
INTRODUÇÃO
Por Lucinha Zanetti

CAPÍTULO I
– Descendência
CAPÍTULO II
– A Infância e adolescência no Bairro da Piedade no Rio de Janeiro
CAPÍTULO III
– O Gosto pela Música
CAPÍTULO IV
– Histórico
– *********************************************************************
CAPÍTULO V
– Carlos Imperial – O início – Surge “Menina Linda”
– ************************
CAPÍTULO VI
Os Divulgadores e Incentivadores da Banda Renato e Seus Blue Caps
1 – Jair de Taumaturgo, o Disk Jockey que deu o nome à banda que surgia.
2 – Elmar Passos Tocafundo, Radialista e Divulgador da CBS em Belo Horizonte.
3 – Antonio Aguillar em São Paulo, Carlos Imperial no Rio de Janeiro.
CAPÍTULO VII
1 – O Compositor Renato Barros
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CAPÍTULO XX
– Considerações Finais
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CAPÍTULO IV – HISTORICO

Fundada em 1959, a banda idealizada por Renato e criada juntamente com seus irmãos Paulo Cezar e Ed Wilson, recebeu a princípio o nome de “Bacaninhas do Rock da Piedade”.
A família Barros sempre foi bastante musical e costumava se reunir no quintal da casa onde moravam no bairro da Piedade no Rio de Janeiro. O pai cantava, o tio tocava cavaquinho, violão, a mãe também tocava e cantava, chamavam os amigos e assim os irmãos começaram a se interessar por música.
Nessa época chegava ao Brasil o Rock com Bill Haley and His Comets, despertando a atenção dos jovens pelo Rock and Roll. Aconteceu primeiro na zona norte do Rio e começaram a surgir em toda esquina uma banda de rock.
Era final dos anos 50 e, influenciados pelo gosto musical da família e pelo Rock and Roll de Little Richard, Bill Halley e depois Elvis Presley, os rapazes começaram a imaginar que poderiam participar de programas de rádio, fazendo mímica das músicas de sucesso, algo que era bastante comum naquela época.
Perto de onde moravam havia um clube chamado “Sport Club Oposição” que eles costumavam frequentar aos domingos à noite para assistir a um festival de Rock que acontecia lá e certo dia o Senhor Barros fez uma surpresa aos filhos. Combinou tudo com o apresentador e os meninos que estavam assistindo da plateia, foram chamados ao palco para se apresentarem.
Muito encabulados, eles subiram ao palco e tocaram um Rock. Eram os Bacaninhas do Rock da Piedade se apresentando em público pela primeira vez.
Eles já conheciam o Gelson Moraes nessa época, pois ele tinha um conjunto de Rock em Vila Isabel e costumava frequentar também o Clube Oposição. Gelson chegava com seus amigos vestindo blusão de couro e causavam o ciúme nos garotos do bairro, por que as garotas ficavam caidinhas por eles.
O conjunto de Gelson tinha um diferencial, pois sabiam cantar as letras em inglês e isso impressionava os garotos.
Renato recorda que quando ouviu a música Tutti Frutti ficou muito interessado e foi na loja comprar o disco. Ele não sabia falar o nome da música e precisou cantarolar para o vendedor.
Foi de Little Richard o seu primeiro disco de rock.
Elvis Presley chegou logo em seguida para dominar as paradas. Os rapazes passaram a imitar o cantor e até passavam graxa de sapato nos cabelos pra fazer o topete ficar parecido com o de Elvis.
E foi nessa época, final dos anos 50, que começou uma febre entre os jovens, que era a de formar um conjunto próprio de rock and roll, aquele Rock primitivo mesmo.
Renato Barros sempre gostou muito de futebol e certo dia um amigo do Sr. Ermírio Barros, seu pai, disse que queria levá-lo para ser sócio do Vasco da Gama.
E assim este amigo chamado Francisco e Renato foram até a Sede do Vasco na Avenida Rio Branco, Renato tornou-se sócio e tal, e na volta pra casa, como vinham a pé, passaram pela Praça Mauá e lá Renato viu uma grande fila de jovens em frente a Rádio Mayrink Veiga. Renato era ouvinte da rádio e se interessou em saber do que se tratava. Perguntou a uma pessoa da fila, que lhe explicou que era para se fazer inscrições para o programa “Hoje é Dia de Rock”.
Conversei com o senhor Francisco e pedi a ele que me esperasse por que eu ia entrar na fila. O produtor do programa era Jair de Taumaturgo e para fazer a inscrição eles me perguntaram qual era o nome do meu conjunto. Como eu não tinha nenhum lembrei-me do bloco de carnaval que havia no meu bairro da Piedade e coloquei na ficha, “Bacaninhas do Rock da Piedade”.
Chegando em sua casa, Renato contou a novidade e chamou seus outros dois irmãos, Paulo Cezar e Edson, para se juntarem a ele na formação de um conjunto.
Sua mãe fez as roupas pra irem todos vestidos iguais e lá foram eles participar do programa “Hoje é Dia de Rock” na Rádio Mayrink Veiga, fazendo mímica.
A apresentação foi um fracasso e os irmãos levaram a maior vaia!
Havia na Rádio Mayrink Veiga este programa de auditório chamado “Hoje é dia de Rock” e lá era comum se inscreverem para fazer mímica, por que quem cantava de verdade naquela época não era muito valorizado; a onda era mesmo fazer mímica.
O programa era comandado pelo Disk Jockey Jair de Taumaturgo e tinha uma audiência muito significativa, tanto que a vaia que levaram ressoou por muito tempo em seus ouvidos.
Porém foi aquela vaia que fez com que tivessem novo objetivo e os rapazes não desistiram e se empenharam para darem a volta por cima.
Após a apresentação desastrosa, os irmãos passaram a se dedicar à música ao vivo.
Passavam horas trancados, aperfeiçoando a técnica em seus instrumentos. Paulo Cezar, por exemplo, começou tocando piano com dois dedos, e posteriormente, percebeu que seu negócio era o contrabaixo.
Até aí não havia sido formado um conjunto, e haviam adotado o nome de “Bacaninhas do Rock da Piedade”, numa alusão ao bairro em que foram criados no Rio de Janeiro. Logo se juntaram aos irmãos Barros os amigos Euclides de Paula (guitarrista), Gélson Moraes (baterista) e o saxofonista Roberto Simonal (irmão do cantor Wilson Simonal).
Três meses depois daquela desastrosa apresentação, Renato voltou a entrar na fila para fazer nova inscrição, desta vez para tocarem ao vivo, não mais para fazer mímica e tocaram “Be-bop-a-Lula”, uma música gravada pela primeira vez em 1956 por Gene Vincent and His Blue Caps. Tocaram e cantaram a música de Gene Vincent, mas com um arranjo dos Everly Brothers, utilizando duas vozes, Paulo Cezar Barros (que antes tocava piano) e Ed Wilson. A novidade fez um grande sucesso, pois nenhum grupo no Brasil fazia aquilo.
Foi a partir daí que Paulo Cezar Barros deixou o piano e passou a ser o contrabaixista do conjunto.
A apresentação foi um sucesso e a mesma intensidade das vaias foi agora em aplausos. O único senão foi que Jair de Taumaturgo pediu para que trocassem o nome, que ainda era Bacaninhas do Rock da Piedade. Perguntou a Renato, “qual é o seu nome?” Renato respondeu e aí começaram as sugestões: Renato e Seus Cometas, Renato e “seus alguma coisa”, até que ao ouvir a sugestão “Renato e Seus Blue Caps”, pois havia um grupo fazendo sucesso chamado Gene Vincent and His Blue Caps, ele gostou da sugestão e todos aceitaram. Estava assim definido o nome do conjunto.
Já com o nome de Renato e Seus Blue Caps, inspirado em Gene Vincent, o grupo se apresentou no mesmo programa, tocando e cantando “Be-bop-a-lula” e obteve o primeiro lugar da semana e posteriormente, o prêmio de melhor do mês.
O grande lance era vencer o concurso e ir tocar no programa de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, e já saíram do programa direto para se apresentarem lá. Receberam uma maquilagem no rosto e tomaram o ônibus em direção ao programa.
Renato sempre se destacava pelo seu carisma, e além do talento, chamava atenção também pela beleza e encantava a todos.
Foi assim que durante a apresentação no programa do Chacrinha, estava presente o Diretor Geral da Copacabana Discos, Nazareno de Brito, que se interessou por eles e sugeriu realizarem um disco a três. Fizeram parte do LP de 1962 com Renato e Seus Blue Caps os artistas Reynaldo Rayol e Cleide Alves e cada um deles colocaram 04 músicas.
Em 1960 gravaram o primeiro disco de 78 rotações, pela Gravadora Ciclone, em que acompanhavam o grupo vocal “Os Adolescentes”.
No ano seguinte, gravaram com Tony Billy, pela mesma etiqueta, a Ciclone.
Nesse período Gelson deixou o conjunto e Claudio Caribé entrou no grupo para ser o baterista em seu lugar.
Após a participação no programa do Chacrinha na TV Tupi, foram contratados pela Copacabana Discos, onde lançaram dois 78 rotações e dois LPs: em 1962 (Twist) e 1963, sendo que o estreante Toni foi o baterista neste segundo LP.
O disco Twist de 1962 não aconteceu e logo depois eles conheceram Erasmo e Roberto Carlos, começaram a se apresentar em circos e ensaiavam sempre na casa deles na Piedade. Costumavam aparecer para os ensaios: Roberto Carlos, Erasmo Esteves, Roberto Livi, e muitos outros.
No ano de 1962 Ed Wilson saiu para fazer carreira solo e em seu lugar entrou Erasmo.
Cid Rodrigues Chaves morava em Campo Grande e iniciou sua carreira artística no começo dos anos 1960 atuando na banda The Silvery Boys, do bairro carioca de Campo Grande, ao lado dos primos Paulinho e Zezinho.
Roberto Carlos cogitava formar uma banda própria e convidou Cid para fazer parte dela. Porém Roberto não teve sucesso em seu intento e não deu em nada, por que não havia tanto trabalho e ele continuou sendo acompanhado por Renato e Seus Blue Caps.
Em 1963, durante um show na cidade de Angra dos Reis no Rio de Janeiro, conheceu o baixista Paulo Cezar Barros que o convidou a ingressar no conjunto Renato e Seus Blue Caps e a partir de 1964 começou a integrar o conjunto, onde permanece até os dias de hoje.
O próprio Paulo César Barros conta como tudo aconteceu:
“Eu fui convidado pelo Gelson, que não fazia parte dos Blue Caps nessa ocasião, para fazer um baile em Angra dos Reis em meados de 1963 e esse conjunto em questão foi formado às pressas, eu não conhecia ninguém a não ser o Gelson e o Cid era um dos saxofonistas dessa banda (eram dois saxs) e ao conhecer o Cid fiz-lhe o convite para entrar no Renato e Seus Blue Caps e ele aceitou de imediato. E assim foi, o coloquei na banda e até hoje faz parte dela.”
Os Beatles chegaram ao conhecimento de Renato através de um amigo dele chamado Aurélio, que tinha acesso às músicas antes de elas chegarem ao Brasil.
Os Beatles tiveram origem no Skiffle e no Rock e inovaram, fazendo o gênero pop rock, pois todos do conjunto cantavam, além de tocarem. Renato e Seus Blue Caps então descobriu que eles poderiam fazer isso também e começaram a dividir os vocais entre os integrantes.
Certo dia Carlos Imperial mostrou um disco para Renato com uma música nova que ele não conhecia, de uma banda que ele nunca tinha ouvido falar e pediu que ele aprendesse a letra para tocar e cantar no dia seguinte, abrindo seu programa “Os Brotos Comandam”.
Renato então pensou como iria fazer aquilo se nem sabia falar inglês e teve a ideia de escrever uma letra em português, o que deu muito certo.
No final do programa Imperial foi se encontrar com Renato que estava em um barzinho próximo à Rádio, chegou com uma pilha de papel nas mãos dizendo ao Renato que tudo aquilo era pedido para que eles tocassem de novo a música.
Renato Barros passou a fazer muitas versões mas depois aos poucos começou a criar um estilo próprio e já no quinto LP da banda as composições próprias tomaram o lugar das versões…

CAPÍTULO XVI – CONVERSAS COM RENATO

Conversando com Renato Barros em 01 de outubro de 2018, disse a ele que algumas pessoas me questionam por eu publicar reportagens sobre a banda, dizendo que Renato e Seus Blue Caps não é oriunda da Jovem Guarda, e que é sim, uma Banda oriunda do Rock, dos anos 60 e que continua em atividade e fazendo sucesso até os dias de hoje, muito embora as pessoas insistam em relacionar a banda ainda hoje à Jovem Guarda. Disse que eu gostaria que ele mesmo fizesse um esclarecimento sobre este “jargão” pelo qual sua banda é conhecida, ou seja, “banda da Jovem Guarda”, explicando para o seu público como ele se sente com relação a isso.

E assim tivemos um esclarecimento histórico!

Renato e Seus Blue Caps não é uma banda da Jovem Guarda, mas sim dos anos 60. Se não fosse pelo sucesso de “Menina Linda”, talvez nós nem tivéssemos participado do programa.
Essas afirmativas ficam para a Historia e eu faço questão de esclarecer. Renato e Seus Blue Caps já foi tão deixado de lado, é só prestar atenção nas matérias que falam de Jovem Guarda, em vídeos sobre a Jovem Guarda espalhados pela Internet, onde nós não somos nem citados. Eu dou certa razão pra isso, pois a visão do público é uma e a visão profissional é outra. Tem gente que é apaixonada pela Jovem Guarda, eu respeito, agora eu ser obrigado a concordar com coisas que não são verdadeiras, isso eu não sou, então tenho que informar. Quem quiser ficar com raiva de mim, vai ficar, o que eu posso fazer? Mas esta não é uma opinião unânime da banda, esta é uma opinião minha e eu acho que tenho razão.
Eu parto do princípio de que a Jovem Guarda foi um trio. Eu queria deixar bem claro que não tenho nada contra o Roberto Carlos, basicamente tivemos um início juntos, o Erasmo também, pois participou da banda, é meu amigo e tal. A Wanderléa é uma pessoa que eu gosto muito. Mas quem estiver lendo aqui há de concordar que o programa Jovem Guarda da TV Record teve três pessoas só. Roberto, Erasmo e Wanderléa. O resto é o resto. Veja bem, esta é a minha opinião profissional, por que eu não tenho culpa se a maioria daquele pessoal não está mais no mercado.
Renato e Seus Blue Caps nunca esteve tão bem no mercado brasileiro como está hoje, e me perdoem a falta de modéstia, mas desde aquela época eu sabia das reais possibilidades de cada um, eu sabia do talento de cada um, e eu sabia que Renato e Seus Blue Caps esbanjava talento, modéstia à parte, peço desculpas de novo, mas esbanjava talento e isso não era bem acolhido lá no seio do programa Jovem Guarda.
A verdade é pra ser dita, então todos se baseavam em Roberto, Erasmo e Wanderléa, com muita justiça, mas isso não me obriga a achar que era certo, pois a coisa não era bem assim…
Renato e Seus Blue Caps teve uma historia no tocante à venda de discos, foi sempre um grande vendedor de discos da CBS, vendeu sempre muitos LPs, era primeiro lugar, era segundo lugar e só perdia para o Roberto Carlos de vez em quando e muitas vezes nós passávamos a vendagem de discos. Eu sei por que eu trabalhava junto à Presidência da CBS, eu era produtor, então eu tinha acesso aos números. Mas quando a gente chegava aos programas e na imprensa, isso não se refletia. A gente ficava sempre escondidinho, ficava de lado. As pessoas que não sabem como é o meio artístico, não podem aquilatar. Nós passamos por poucas e boas por causa desse negócio de deixar pra lá, dizendo, não vamos nos importar com esses caras não. Eu me refiro à imprensa da época. Com isso Renato e Seus Blue Caps ficou escondido, nós passamos por momentos difíceis no tocante a reconhecimento.
Um exemplo: se chamavam os colegas pra fazer uma matéria para alguma revista, Renato e Seus Blue Caps nunca estava incluído na matéria. Diziam, ah, vamos fazer com Roberto, Erasmo e Wanderléa. Muito legal, muito justo, mas eu não concordava que Renato e Seus Blue Caps fosse resto, resto de um programa do qual, é bom que o público saiba disso, nós pedimos rescisão ainda no auge de seu sucesso, justamente por que nós nos sentíamos tão mal quando íamos naquele programa, não pelo público do Teatro Record, que ia ao delírio com a gente, mas pelos próprios colegas, pois a gente sentia que não éramos chegados a eles.
A coisa ficou tão séria que um dia nós tivemos a hombridade e a coragem de pedir rescisão do nosso contrato. E olha que aquele programa tinha uma audiência fantástica, no Estado de São Paulo então era líder total de audiência e exagerando um pouquinho, qualquer artista até pagaria do seu bolso pra participar daquilo. E nós tivemos a hombridade e a coragem de pedir rescisão do contrato com a TV Record no meio do caminho. Nós saímos do barco antes.
As pessoas não sabem dessas coisas, falam sem conhecimento de causa e eu acho que é necessário, nem que seja agora, depois de tanto tempo, que eu faça este esclarecimento. Eu estou achando que estou falando isso muito tarde, por que eu não quis falar sobre essas coisas antes, por uma questão de carinho, de amizade pelos colegas que fizeram parte daquele programa e pelo próprio público que passou a gostar e gostam daquelas coisas da Jovem Guarda e eu estou deixando pra falar agora, por que sobrou muito pouca gente neste mercado que tem o carinho do público. O reconhecimento que não tivemos naquela época, está vindo agora no final (risos).
A gente graças a Deus tem um trabalho muito digno, muito correto, a gente tem uma coisa que poucos artistas têm que é o respeito. Nós respeitamos demais o nosso público, eu chego a ser chato, o pessoal da banda até me acha muito chato, mas eu tenho mesmo um respeito muito grande pelo nosso público, sou muito grato a esse pessoal que continua nos prestigiando até hoje depois de tanto tempo, ininterruptamente, então eu tenho muito respeito, mas ao mesmo tempo penso que é um reconhecimento por que a gente sempre dá o melhor de nós. Quando a gente pisa no palco, a gente dá o melhor sempre por que a gente considera que este público merece e nós temos uma preocupação também pelo público mais jovem, que nem viveu a época mas vai lá saber como é, querendo saber como é aquele pessoal que fazia o programa Jovem Guarda, então nós fazemos o melhor sempre , eu acho até que colaborando para eternizar o prestígio do programa, então a gente dá sempre o nosso melhor.
A gente sabe que tem pessoas que não admitem isso, então eu não posso fazer nada, mas o programa Jovem Guarda foi calcado em cima de três pessoas: Roberto, Erasmo e Wanderléa.
Não tenho nada contra isso, mas figurar de resto também não. Eu não quero ser resto da Jovem Guarda. Ali ficou o rei, o príncipe e a princesa. Quem não está entre os três, é súdito, soldadinho. A maioria das pessoas do Jovem Guarda aceitou essa condição, eu não aceitei. Preferi vencer de outra forma, sem ficar dependendo do que Roberto Carlos falava, do que Roberto Carlos mandava, por que nós podemos andar com nossas próprias pernas e foi o que nós fizemos, enquanto muitos ficaram esperando, sabe, teve até colegas que eu não vou citar os nomes mas que chegaram pra mim dizendo: _ ah! esse Roberto Carlos é um “FDP”; e eu perguntei: _ mas por que? _Ah! Ele não ajuda os colegas…
Mas qual é a obrigação que o Roberto tem em ajudar os colegas? O cara tá cuidando da vida dele e cada um de nós tem que tocar a sua vida.
Então tem colegas que falam hoje isso e é justo. Mas como eu achava que Renato e Seus Blue Caps não precisava de ajuda, por que a gente tinha pernas pra caminhar, então a gente não fez parte dessa corte.

Mas voltando ao assunto da saída, quando a gente sentiu que não estava sendo prestigiado dentro do próprio programa, nós tomamos a atitude de pedir a rescisão. Eu me lembro como se fosse hoje, o Marcos Lázaro, que era um empresário, Diretor Geral Artístico da Record, dos Festivais da Record, do programa Jovem Guarda, era um argentino, e quando eu falei pra ele que ia pedir rescisão, ele levou um susto, por que era inadmissível que um artista na época pedisse rescisão de um programa com tanta audiência. Mas a gente pediu, parece que estávamos adivinhando, e as pessoas hoje não têm a menor ideia disso que aconteceu.

Outra coisa que as pessoas não sabem, quando teve o Festival da Canção na Record, foi aquele festival em que o Jair Rodrigues venceu com a música “Disparada”, Marcos Lázaro havia me chamado em sua sala fazendo questão que Renato e Seus Blue Caps participasse de qualquer maneira. E eu falei não, não, não, Sr. Marcos, nós não vamos participar disso não por que não é a nossa praia. Acho que Roberto Carlos participou, foi legal e tal.

Então as pessoas não sabem a luta que foi, os tantos dissabores pelos quais a gente teve que passar nessa vida, e não é que eu seja rancoroso, eu respeito meus colegas, adoro o Roberto, sou fã e reconheço a carreira, o talento dele, afinal de contas nós gravávamos juntos, cansei de tocar guitarra nos discos dele, Erasmo, então, foi até integrante da banda, Wanderléa, uma amiga querida que eu gosto muito até hoje, mas isso tudo não me obriga a não reconhecer o que aconteceu. Nós não tivemos o menor prestígio junto aos próprios colegas. Nunca tivemos, e eu não tenho raiva de ninguém, mas então agora, deixem a gente sozinho mesmo, nós sempre fomos sozinhos e continuaremos sozinhos.
Roberto Carlos, por exemplo, nem cita mais a Jovem Guarda. Ele é inteligentíssimo, não conseguiu ser o que é à toa, é uma pessoa de uma inteligência fantástica, e já nem quer ouvir falar em Jovem Guarda faz muito tempo. Quando ele mudou aquele estilo dele para canções mais românticas, se não me engano em 1969 ou 1970, Roberto Carlos saltou do barco da Jovem Guarda. Mas não é por que ele seja ingrato, não. Era por que ele sabia que tinha que partir pra outro lance, coisas mais sérias.
Erasmo também saiu do barco, inclusive em minha opinião, um pouco tarde, mas mesmo assim saiu e fez sucesso na época com a música “Mulher”, “Sentado à beira do Caminho”.
A Wanderléa tentou também sair do barco da Jovem Guarda, ela fez um disco com um excelente produtor, então todo mundo tentou se desvincular através do disco, a gravadora trabalhando com mais força em cima da mudança.
Renato e Seus Blue Caps não pensou desta forma, pois nós pensamos que a realidade não é o disco. Então por isso que Renato e Seus Blue Caps quase não grava discos, por que teríamos que escolher entre o disco e o Show, então nós preferimos investir no Show, que pra nós é a realidade.

Enquanto muita gente gravava DVD, inclusive nós recebemos cinco convites diferentes pra gravarmos também um DVD, não aceitamos nenhum, por que a gente achava que não daria certo. Cada proposta era diferente, botaram a gente até numa fazenda, com os bois, cavalos, então eu disse, a gente não é country, essa não é a nossa praia, não tem nada a ver a gente cantar em cima de um cavalo, e outras coisas bem estúpidas assim.

Conclusão: Renato e Seus Blue Caps ficou sem DVD!

Com isso, nosso público foi quem saiu perdendo, mas agora com a Internet, Youtube e tudo o mais, todo mundo vê tudo, nem precisa tanto.

Mas então é bom esclarecer, por que quando eu falo que Renato e Seus Blue Caps não é da Jovem guarda, é por que não é mesmo.

Renato e Seus Blue Caps começou em 1959 e é tida hoje como a banda de Rock mais antiga do mundo. A Jovem Guarda, o programa que deu origem ao movimento da Jovem Guarda, só veio aparecer em 1965, ou seja, seis anos depois.
Então nós só participamos do programa Jovem Guarda, eu vou repetir, por que nós gravamos uma música em 1964, era uma versão da música dos Beatles chamada “I Should Have Known Better”, e essa música estourou. Em 1965, enquanto essa música estava estourada nas paradas de sucesso (a música era “Menina Linda”), é que começaram a cogitar sobre o programa Jovem Guarda lá em São Paulo, no Teatro Record, foi quando convidaram os artistas cariocas de Rock. Roberto Carlos, que foi o apresentador do programa, Erasmo, que era o parceiro de Roberto Carlos e Wanderléa, que era a princesinha.
Muito bem, aí levaram os Golden Boys, muito merecidamente, adoro os Golden Boys, levaram também o Trio Esperança, e deixaram Renato e Seus Blue Caps de lado. Justamente a banda que ralava junto com Roberto Carlos, ralava com Erasmo, pois eu cansava de tocar guitarra, Paulo Cezar contrabaixo, acompanhando Roberto Carlos em circos, antigamente a gente se apresentava muito em circos, então no final de tudo nós levamos uma boa banana, por que levaram todo mundo e esqueceram a gente…
E como se não bastasse, além de terem esquecido Renato e Seus Blue Caps, ficou um clima estranho, sabe quando você vai a uma festa onde não foi convidado e fica todo mundo te olhando estranho? Eu me sentia assim, numa festa sem ter sido convidado. A gente sentia aquele clima pesado no ar. Por isso a atitude mais digna que nós tivemos foi a de pedir rescisão. E a gente saiu.

Acho que muitos colegas deveriam ter feito isso também, mas preferiram ser súditos.
Eu agora estou contando esses fatos, não estou faltando com o respeito a ninguém, repito que sou fã e amigo de Roberto Carlos, gosto dele à beça, ele gravou cinco músicas minhas, numa demonstração de carinho, Erasmo nem preciso dizer, por que é um caro que admiro muito e a Wanderléa tenho por ela uma amizade tão bacana, acho a Wanderléa um caráter fantástico da Jovem Guarda, pra mim ainda é uma menina, enfim não tenho raiva de ninguém, agora querer inserir Renato e Seus blue Caps como se fosse oriundo da Jovem Guarda, aí não!

Eu sempre questiono quando a pessoa diz que é fã e pergunto: mas é fã da Jovem Guarda ou de Renato e Seus Blue Caps?
Por que tem uma diferença. O fã da Jovem Guarda não admite que você faça nada diferente, nada que fuja daquilo que foi a Jovem Guarda.
Eu explico: nós estivemos recentemente em Fortaleza fazendo um Show, e nos shows a gente faz certas coisas que ninguém faz. Quando chega o momento autoral, que é uma das partes do show, se eu for homenagear o Roberto Carlos ou o Erasmo, ótimo, mas eu vou ficar no meu quadrado. Então o que eu faço? Eu homenageio o Tom Jobim, que é fora do nosso estilo. E por que não oferecer este momento ao público, só por que Tom Jobim não é da Jovem Guarda?
Aí teve uma pessoa lá em Fortaleza que reclamou, dizendo que havia ido lá pra ouvir Jovem Guarda e não Tom Jobim, ou bossa nova.
Uma pessoa que não gosta de Tom Jobim, vai gostar de quem, não é?
Então a gente tem esse diferencial, mas sempre tem entre mil pessoas, um que demonstra ter falta de educação e reclama disso. Então o pessoal que é fã da Jovem Guarda é fiel somente a um tipo de coisa. E o nosso show é todo voltado à época da Jovem guarda, não é da Jovem Guarda especificamente, melhor dizendo, é dos anos 60, pois engloba tudo, incluindo as músicas internacionais e a bossa nova.
A gente canta “Eu sei que vou te amar”, de Tom e Vinícius, no sertão do Ceará, no sertão da Paraíba, e a plateia gosta e canta com a gente.

Então esta é a historia de Renato e Seus Blue Caps, sempre respeitando seus limites, a gente não tem fronteiras. É claro que 95% do nosso Show é feito com músicas nossas, mas a gente sempre coloca um bônus a mais, por que a gente sabe que as pessoas que vão ao show gostam das nossas músicas mas gostam de outras coisas também. Nosso intuito é agradar nosso público levando músicas boas, de alta qualidade, como Hotel Califórnia, por exemplo, de altíssima qualidade, até pouco tempo atrás eu também cantava “Smile”, de Charles Chaplin, por que eu acho que música é cultura, sabe? Então se você vai cantar no sertão da Paraíba, por exemplo, e as pessoas não conhecem, eu penso que abre uma porta para que elas conheçam. Eu só não consigo cantar Funk, mas o que eu posso fazer, não é?

Então é isso, não fiquem com raiva de mim, mas só quem viveu a época e passou pelas coisas que nós passamos é que sabe.
Vocês que estão lendo aqui estas minhas memórias, que é a verdadeira historia de Renato e Seus Blue Caps, façam um julgamento. Coloquem-se no nosso lugar e vocês vão entender perfeitamente como eu me sinto.

Atualmente eu estou muito feliz com o nosso trabalho, nosso show está muito elogiado no Brasil inteiro, de norte a sul. Quando você faz sucesso nos extremos, é por que o negócio está certo, então a gente vai para o Rio Grande do Sul, na fronteira, o show é um sucesso, aí você vai lá para o Amazonas, o show é sucesso, então eu, pra ser sincero mesmo, estou muito feliz com o nosso trabalho, espero continuar tendo essa luz de Deus que Ele nos dá, espero continuar merecendo essa luz, tanto a luz que eu recebi quando pedi rescisão do programa Jovem Guarda, essa luz que continua até hoje, sabe, as coisas acontecem pra gente assim do nada, vêm umas intuições, e até agora tudo dando certo, graças a Deus e é assim que eu vivo.

5 respostas em “RENATO BARROS E SEUS BLUE CAPS: 60 ANOS DE SUCESSO!

  1. GOSTEI MUITO DE REVER ESSA ESTÓRIA A QUAL CONHEÇO GRANDE PARTE DESDE 1960 . HA OUTRAS VERSÕES POR EXEMPLO DA SAIDA DO RSBC DO PROGRAMA JOVEM GUARDA COMO CONTRATADO FIXO JÁ QUE COTINUOU A SE A SE APRESENTAR ESPORÁDICAMENTE RECEBENDO ” CACHÊ” É QUE RENATO, FLAMENGUISTA DOENTE , GOSTAVA MUITO DE IR AOS DOMINGOS VER O JOGO. DAI TER RESCINDIDO INCLUSIVE CONTRA A VONTADE DE ALGUNS MEMBROS DO GRUPO.

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  2. A Lucinha Zanetti, chegou na hora certa para promover, incentivar e mostrar que a banda Renato e Seus Blue Caps continua trabalhando muito, com apresentações em todo o Brasil e sempre fazendo sucesso. Parabens ao Renato Barros, lider da banda que teve o seu começo em 1959, quando nem se imaginava que um grupo de cinco musicos pudesse superar o trabalho de uma orquestra, que geralmente era composta por mais de 15 musicos. Na época, ninguém acreditava que 5 ou 6 rapazes empunhando seus instrumentos musicais pudessem num palco agitar a plateia e fazer todo mundo se movimentar e dançar ao som do novo ritmo que surgia. Lucinha Zanetti esta a frente das grandes promoções de Renato e Seus Blue Caps. Parabens. .

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