A Historia da Canção “AMOR SEM FIM”, contada pelo próprio compositor, Renato Barros.

Esta canção gravada por Renato e Seus Blue Caps e composta por Renato Barros saiu em CD pela Globo/Columbia sob o número 419.086, em setembro de 1996.

Renato Barros conta que a música é cheia de historias e diz que ficou durante mais de dois anos tentando colocar uma letra na melodia até que se lembrou do Gelson, antigo baterista da banda e pai do Gelsinho Moraes, que havia perdido a esposa Lígia. Um dia ele acordou, foi para o estúdio e veio a sua mente o tema… uma pessoa que sente a presença da outra, no caso a Lígia, esposa do Gelson.

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Para a gravação Renato escolheu Cid Chaves pra cantar junto com ele.
Outro detalhe é que foi a primeira música que Gelsinho Moraes gravou com Renato e Seus Blue Caps, inclusive foi ele quem fez o arranjo da parte final, quando entra aquilo tipo uma marcha militar.

Mas ouçam o próprio Renato contar essa historia e também de como ele soube por um um músico da banda Túnel do Tempo, do Rio de Janeiro, que George Martin gostou e se interessou pela musica…

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O clipe da música no Facebook:

Renato Barros e sua “Menina Linda” numa levada Bossa Nova!

Ouçam esta beleza nacional, um registro inédito, muito diferente, pois Renato não costuma interpretar suas músicas nas jam sessions em que participa, proporcionando a todos os fãs de Renato e Seus Blue Caps, este ineditismo!
Renato Barros foi registrado neste vídeo em todo seu talento, carisma e simpatia pelo amigo Henrique Kurtz. 😉

RENATO BARROS canta “Menina Linda” numa levada bossa. A canção é um marco na história da banda Renato E Seus Blue Caps (gravada em 1965, no LP Viva A Juventude).

Quando escreveu a versão para ‘I Should Have Know Better’, de Lennon-McCartney, Renato não esperava que a música fizesse tanto sucesso, como de fato aconteceu, tornando-se um clássico do rock brasileiro.
Aqui, com o acompanhamento de Chico Neto no teclado, Renato esbanja simpatia e carisma fazendo o que mais gosta!

Tijuca. Rio, 06-12-2016.
Vídeo: Henrique Kurtz ©

Opção pelo Youtube

Ou pelo Facebook:

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O cantor e compositor RENATO BARROS é um desbravador, um pioneiro do Rock numa época de grandes dificuldades, e com a banda que leva seu nome, abriu caminho a canivete para que outros passassem de Rolls-Royce.
É dele a primeira boa representação de como o rock deveria ser feito no Brasil. Foi com ele que aconteceu a tal pegada rocker. Guitarras com efeitos, sem ternura e academicismos (guitarra ‘quadrada’).
Bons vocais.
Baixo e bateria.
Virou referência.
E influência.

“Eu quero esse som dos Blue Caps” passou a ser ouvido nos estúdios e escritórios das gravadoras.
A partir daí, a explosão de sucesso nos anos 60 e os clássicos perpetuados ao longo dos tempos continuam até hoje.
A música do conjunto atinge todas as idades, e já somam 56 anos de história.

É a verdadeira majestade do rock’n’roll Brasilis… “Blue Jean Bop”!

Tenho a sorte de conhecer Renato Barros. Admiro o profissional. Gosto infinitamente mais da pessoa.

Por Henrique Kurtz
(e eu assino embaixo!) 😉

Renato Barros e Henrique Kurtz

Renato Barros e Henrique Kurtz

“What to do” VERSUS Sabbath Bloody Sabbath: Canção gravada por Vanusa foi plagiada!

Em 1973 Alfie Soares compôs uma música em inglês em parceria com o excelente guitarrista Papi, e a música foi gravada por Vanusa.
O disco de Vanusa foi gravado em Março de 1973, portanto foi lançado oito meses antes do disco do Black Sabbath, que foi lançado em novembro do mesmo ano de 1973.

Reza a lenda que o guitarrista Tony Iommi teria utilizado o riff inicial da canção composta por Alfie e Papi, “What to Do”, gravada por Vanusa, para compor a clássica “Sabbath Bloody Sabbath”, por que durante o processo de composição para o álbum Sabbath Bloody Sabbath, Iommi teria sofrido um bloqueio criativo causado pelo excesso de cocaína que o impediu de conseguir criar qualquer canção para a banda, como ele sempre havia feito até então. Segundo consta na mídia, seu desespero atingiu um grau tão elevado que ele pediu para sua equipe técnica e amigos que lhe trouxessem discos de “outras culturas”, para que ele pudesse ter algum tipo de inspiração. E foi aí que certamente o álbum de Vanusa caiu nas mãos de Iommi, que além de “copiar” o riff criado por Papi, que é quem está na guitarra na gravação de Vanusa, também colocou no arranjo deles uma parte mais lenta, exatamente como na canção original.

Apesar de haver muitas especulações na Internet, o fato real é que Alfie Soares e Papi completaram a música em janeiro de 1973. Ela lhes foi encomendada por Wilson Miranda, o produtor do disco de Vanusa, que queria uma canção em inglês para tentar o mercado internacional.
Eles assinaram o contrato com a editora da RCA e Papi é quem está na guitarra solo.

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Ouçam as duas músicas…

WHAT TO DO
(Alfie Soares/Papi)

Don’t you feel it’s kind of hard living with no fear
Don’t you sometimes wonder why living is no fun
Yes you do, but you just sit and watches the world go ‘round
And it hurts me when I hear you say that you can’t do it
Just keeps on asking
What to do? What to do?

Well, go, out and face the rain
Then the storm won’t hurt so bad
Tell yourself that you are free
Free enough to say I’m free
Be free, be free

Sabbath Bloody Sabbath
(Black Sabbath)

You’ve seen life through distorted eyes
You know you had to learn
The execution of your mind
You really had to turn
The race is run the book is read
The end begins to show
The truth is out, the lies are old
But you don’t want to know
Nobody will ever let you know
When you ask the reasons why
They just tell you that you’re on your own
Fill your head all full of lies
The people who have crippled you
You want to see them burn
The gates of life have closed on you
And now there’s just no return
You’re wishing that the hands of doom
Could take your mind away
And you don’t care if you don’t see again
The light of day
Nobody will ever let you know
When you ask the reasons why
They just tell you that you’re on your own
Fill your head all full of lies
You bastards
Where can…

Aqui um vídeo comparando as duas músicas.

Para quem se admirar pelo fato de um músico brasileiro ser plagiado por um artista internacionalmente famoso, lembre-se que Santana também foi processado e teve que pagar indenização a Edu Lobo, quando lançou seu sucesso mundial Oye Como Va, cujo solo de guitarra de Santana lembrava muito um trecho da linha melódica da musica REZA, de Edu Lobo.
Rod Stewart também plagiou Jorge Ben Jor em Do You Think I’m Sexy.

Versões e originais de canções de Hamilton Di Giorgio, gravadas por outros cantores.

Os Caçulas: Versão => Estrela Que Cai

A Estrela Que Cai (Good Morning Starshine) [Os Caçulas]

Roberto Carlos: Versão => Lobo Mau

Lobo Mau (The Wanderer) [Roberto Carlos]

Celly Campello: Versão => Só Entre Dois Amores

Só Entre Dois Amores [Celly Campello]

OS VIPS: Versões => Flamenco e Rostinho Triste

Flamenco [Os Vips]

Rostinho Triste (I’ve Got That Feeling) [Os Vips]

Bobby de Carlo: Versão => Brotinho sem ninguém

Brotinho Sem Ninguém (A Boy Without A Girl) [Bobby de Carlo]

Composição Original => Brinquedinho

Brinquedinho [Bobby de Carlo]

Agnaldo Timóteo: Versão => Na noite que que se vai

Na Noite Que se Vai (L’Amore Se Ne Va) [Agnaldo Timóteo]

AS VERSÕES DE HAMILTON DI GIORGIO GRAVADAS POR TONY CAMPELLO.

1. Não toque esta canção
2. Ao balanço do twist
3. O meu bem só quer chorar perto de mim
4. Estrela que cai
5. Lobo Mau

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Coletânea de Canções de Renato e Seus Blue Caps, Compostas ou Versionadas por Renato Barros.

1965 – LP Viva a Juventude

Querida Gina (Renato Barros)

Garota Malvada (I call your name) (Lennon-MacCartney Vers: Renato Barros)

Os Costeletas (Renato Barros-Getúlio Cortes-Carlinhos)

Vera Lucia (Renato Barros-Paulinho)

1965 – LP Isto é Renato e Seus Blue Caps

Feche os Olhos (All my loving) (Lennon-MacCartney Vers: Renato Barros)

Escândalo (Shame and scandal in the family) (Huon Donaldson-S. H. Brown Vers: Renato Barros)

Preciso Ser Feliz (Renato Barros-Paulinho-Lilian Knapp)

Eu Sei (I’ll be back) (Lennon-MacCartney Vers: Renato Barros)

Aprenda a me Conquistar (Carlinhos-Renato Barros-Lilian Knapp)

Sou tão Feliz (Love me do) (Lennon-MacCartney Vers: Renato Barros)

Orgulho de Menina (I need your love) (Clark-Smith Vers: Renato Barros)

1966 – LP Um Embalo

Meu Bem Não me Quer (My bay don’t care) (Sid Herring Vers: Renato Barros)

Sim, Sou Feliz (Renato Barros-Paulo Cezar Barros)

Primeira Lágrima (Renato Barros)

Dona do Meu Coração (Run for your love) (Lennon-MacCartney Vers: Renato Barros)

A Garota que Eu Gosto (Adaptação: Renato Barros)

1967 – LP Renato e Seus Blue Caps

A Saudade que Ficou (Renato Barros-Ed Wilson)

Menina Feia (Renato Barros)

Um É Pouco, Dois É Bom, Três É Demais (Renato Barros)

Lar Doce Lar (Renato Barros-Carlinhos)

1968 – LP Renato e Seus Blue Caps Especial

Escreva Logo (Please Mr. Postman) (B. Holland-F.C. Gorman Vers: Renato Barros)

Não Demore Mais (It’s good to see you) (Peter Shelley Vers: Renato Barros)

Sem Suzana (Renato Barros)

1969 – LP Renato e Seus Blue Caps

Não Vá Embora Sem Me Dizer (Renato Barros)

Não Volto Mais (Paperback writer) (Lennon-MacCartney Vers: Renato Barros)

Claudia (Lodi) (J. C. Forgety Vers: Renato Barros)

1969 – Coletânea As 14 Mais

Perdi Você

1970 – LP Renato e Seus Blue Caps

Meu Amigo do Peito (Renato Barros)

1971 – LP Renato e Seus Blue Caps

Esta Noite Não Sonhei com Você (Renato Barros)

Sou Louco Por Você (Renato Barros-Ed Wilson)

Você Vai me Ouvir (Renato Barros)


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Não É Nada Disso (Renato Barros)

Nós Dois (Renato Barros)

O Brinquedo se Quebrou (Renato Barros)

Sou Amor Pra Te Entregar (Renato Barros-Massom)

1972 – LP Renato e Seus Blue Caps

Não Foi o Que Eu Quis (Pedrinho-Renato Barros)


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1973 – LP Renato e Seus Blue Caps

Se Você Soubesse (Renato Barros-Rossini Pinto)

1974 – LP Renato e Seus Blue Caps

Eu Não Aceito o Teu Adeus (Mauro Motta-Renato Barros)

Só Por Causa de Você (Renato Barros-Gileno)

1976 – 10 anos de Renato e Seus Blue Caps

Como Há Dez Anos Atrás (Renato Barros)

Eu Te Amei Demais (Renato Barros)

1977 – LP Renato e Seus Blue Caps

Sem Você (Renato Barros)


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Você É Um Pedaço de Mim (Renato Barros)


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Não Maltrate Um Coração (Renato Barros)

O Brinquedo Se Quebrou (Renato Barros)

1979 – LP Renato e Seus Blue Caps

Eu Te Amo (Renato Barros)

Suco De Laranja (Renato Barros-Pantera-Ernani Cardoso)

Vou Ao Teu Encontro (Renato Barros-Ernani Cardoso)

1981 – LP Renato e Seus Blue Caps

Coração Faminto (Gileno-Renato Barros)


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Compacto RCA 101.0898 – 1982 (Memórias / Colcha de Retalhos)

Colcha de Retalhos (Renato Barros / Rodrigo)

1983 – LP Renato e Seus Blue Caps Pra Sempre

Renato Collection (Renato Barros-Nanni)

Pra Sempre (Renato Barros-Nanni)

Guerrilheiro do Amor (Rock do flipper) (Renato Barros-Hugo Belardi-Nanni)


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Sexo Frágil (Renato Barros-Nanni)

Vamos Fundo (Renato Barros-Nanni)

Memórias (Renato Barros-Nanni)

1987 – LP Batom Vermelho

Batom Vermelho (Renato Barros-Nanni de Souza-Gelson Moraes)

Pode Me Procurar (Renato Barros-Nanni de Souza)

Monaliza da TV (Renato Barros-Nanni de Souza)

Com Você No Coração (Renato Barros-Nanni de Souza)

Nos Braços, Nos Olhos e No Coração (Renato Barros-Nanni de Souza)

2001 – CD ao vivo ( 4 inéditas compostas por Renato)

Atriz – Composição de Renato Barros

Só Falta Você – Composição de Renato Barros

Sereia – Composição de Renato Barros

Que Saudade de Você – Composição de Renato Barros


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RENATO BARROS É O FUNDADOR DA BANDA DE ROCK MAIS ANTIGA DO MUNDO EM ATIVIDADE! 😉

Renato Barros

Renato Barros

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Renato e os Seus Blue Caps: Amadeu, Cid, Gelsinho e Darci.

O Selo “Young” e sua importância no cenário da música brasileira. (Parte I)

Um dos movimentos artísticos mais negligenciados e esquecidos por historiadores da música popular no Brasil foi aquele criado por Miguel Vaccaro Netto no final dos anos 50 em São Paulo.
Trata-se do selo independente YOUNG, que em sua breve existência (1959 a1962), foi responsável pela revelação de artistas que tiveram grande importância para a solidificação da música dirigida ao público jovem do Brasil.

Enrique Lebendiger era o presidente fundador da Editora Fermata do Brasil e tornou-se sócio de Miguel Vaccaro Neto na gravadora Young. Com enormes conexões internacionais, adquiriu os direitos de distribuição para o Brasil e Argentina de grande parte das músicas que faziam parte da explosão do Rock and Roll nos Estados Unidos, a partir de 1955 até os primeiros anos da década de 60.

O grande problema enfrentado por Lebendiger era a limitação de veículos para seu imenso catálogo.
Em 1958 tínhamos quatro grandes gravadoras no Brasil, a saber, RCA Victor, Odeon, Columbia e Philips. Todas elas dependentes das matrizes americanas. RCA possuía Elvis Presley, Neil Sedaka, Johnny Restivo e outros. Odeon dependia da EMI/Capitol para ter Little Richard, Frankie Avalon e outros. O material que Lebendiger possuía era, em sua esmagadora maioria, proveniente de selos independentes que nasciam a cada dez minutos nos EUA. E nenhuma gravadora os lançava no Brasil. Veio então a ideia de gravar seu catálogo com artistas brasileiros. Não em versões, mas sim em inglês.

Miguel Vaccaro Netto era os disc-joquei paulista que tinha a maior audiência entre os jovens, através de seu programa Disque-Disco, transmitido pela antiga Rádio Panamericana, hoje Jovem Pan. Era sua especialidade apresentar os grandes sucessos internacionais importados, inéditos por aqui. Ele seria o veículo ideal para captar novos talentos que buscavam seu lugar ao sol, ansiosos para ser um novo Elvis, ou Tony Campello, Carlos Gonzaga, Sergio Murilo, Celly Campello, Wilson Miranda, Lana Bittencourt, entre outros que eram os artistas que lançavam músicas internacionais em versões para o português.

Bastaram dois ou três programas para termos nos corredores da Radio Panamericana um desfile de jovens, rapazes e garotas, candidatando-se para os testes. Outros foram vistos ou ouvidos em outros veículos.
The Avalons apresentaram-se cantando Bye Bye Love, dos Everly Brothers, em um programa da antiga TV Paulista (hoje Globo) produzido por David Conde.
Foram localizados e contratados.
Hamilton Di Giorgio cantou Peggy Sue, de Buddy Holly, no programa de Domingos Paulo Mamone, o Minguinho, parceiro do grande Archimedes Messina, na antiga Radio São Paulo.
The Avalons e Hamilton Di Giorgio, juntamente com Regiane (Regina Celia), formaram o trio de primeira linha do selo YOUNG.
O gupo The Avalons era formado pelos irmãos Dudu (guitarra) e Paulinho (bateria) com Daniel ao contra-baixo mais Solano e Passarinho (Nilton) nos vocais. Após as primeiras sessões de gravações, o asiático Bob foi incluído nos vocais do grupo.
Depois de um tempo, o trumpetista Masao juntou-se ao grupo.
Solano Ribeiro, ao deixar os Avalons, tornou-se um grande publicitário e foi o idealizador dos revolucionários festivais da Record, onde se revelaram Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina etc.
Daniel tornou-se o contrabaixo do excelente São Paulo Dixieland Band.

E o primeiro disco gravado pela YOUNG foi Valentina, “My Valentina”, com The Avalons.

Primeira gravação da cantora Regiane na Young em 1959.
Composição: (Neil Sedaka/Howard Greenfield)

Regiane com The Avalons -Tum Ba Lov

Regiane & The Avalons – Frankie (Young 45-106) 1959

Regiane & The Avalons – To Know Him Is To Love Him (Young 78-101) 1958

Toda esta historia da gravadora Young (para a qual daremos continuação em breve), me foi contada por Alfie Soares, que trabalhou como assistente de Miguel Vaccaro Neto e também como divulgador e produtor em algumas gravadoras, como ele mesmo escreveu:

BASTIDORES DA HISTORIA DA MÚSICA BRASILEIRA

“Primeiramente, meus cumprimentos pelo seus trabalhos. Você contribui enormemente com algo que sempre fez muita falta em nosso país, ou seja, cultuar a história e a memória. Os jovens de hoje precisam saber quais jovens de ontem abriram caminhos e portas para eles. Você faz isso muito bem.

Acompanhei sua entrevista com Hamilton Di Giorgio e notei que você perguntava muito sobre a Young. Eu estive lá do começo ao fim e posso contribuir com algumas curiosidades a respeito daquela pioneira gravadora.

Antes, se você me permitir, gostaria de apresentar um resumo de meus trinta anos trabalhando nos bastidores da música aí no Brasil, de forma resumida.

1959 – 1962 – Trabalhei como assistente de Miguel Vaccaro Netto, Rádio Panamericana (Jovem Pan), programa Disque Disco. Durante este período foi criada a Young. Também neste período trabalhei no Teatro Record, nas apresentações de atrações internacionais como Brenda Lee, Neil Sedaka, Paul Anka, Teddy Randazzo, Frankie Lymon, Johnny Restivo, Frankie Avalon e outros tantos.

1964 – 1969 – Trabalhei na Odeon, onde comecei como divulgador e terminei como produtor. Fiz trabalhos com Abílio Manoel, Silvio Cezar, Eduardo Araújo, Silvinha e outros. (Para você, uma Beatleóloga, uma curiosidade: Em 1966, recebi o troféu Chico Viola (TV Record) em nome dos Beatles (I Wanna Hold Your Hands) e eles, através da EMI, permitiram que eu ficasse com a estatueta). Quando mudei-me para os Estados Unidos em 1992, deixei o troféu com o filho de meus amigos Marcos e Rose. Ele era um pré-adolescente e gostava da estatueta. Seu nome é Marcos Vinicius Silvestre e vou tentar localiza-lo. Se ele ainda o tiver, vou pedir que o fotografe para mostrar a você.

1969 – 1970 – Fui produzir para Philips/Polygram. Gravei com Ronnie Von, Coisas de Agora, Tim Maia e outros.

1971 – 1979 – Contratado pela RCA Victor para tomar conta do Departamento Internacional e também produzir. Lá, voltei a trabalhar com Eduardo Araújo, Silvinha, meu amigo Demétrius e outros.

1980 – 1992 – Após rápida passagem pela gravadora Continental, parei de lidar com discos e fui para uma produtora de shows cujos donos eram Atílio Vanucci Jr. e Chico Anísio. Lá eu tive participação ativa nos shows de Kiss, Peter Frampton e Harlem Globetrotters. Dai fui com Claudio Liza para a Intershow, onde trabalhei novamente com Ronnie Von, Manolo Otero, Sarita Motiel e Fabio Jr. Passei a trabalhar exclusivamente com Fábio até 1991. Em 1992 mudei-me para Miami, onde estou até hoje.

Vale dizer que em 1962 escrevi minhas primeiras músicas com Hamilton Di Giorgio.
Depois, tive como parceiros Wagner Benatti, o Bitão dos Pholhas (Clube Atomico c/ Luiz Fabiano), Papi (What To Do c/ Vanusa), Tony Campello (Cada Coisa Em Seu Lugar). Depois, sozinho, escrevi musicas e versões para Eduardo Araújo, Silvinha, Celly Campello, Suzy Darlen, Joelma, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Os Incríveis, Os Pholhas, Julio Iglesias, Chris McClayton e alguns outros mais. Meu último trabalho, antes de mudar-me, foi para Zezé Di Camargo (Faz Eu Perder o Juizo).

Espero ter podido dar a você uma ideia de minha passagem pelos corredores do show business brasileiro, onde deixei muitos amigos e grandes recordações.

Por Alfie Soares (Afonso Soares de Azevedo)

Alfie Soares em 1960 fotografado por Joe Primo Moreschi. A foto foi feita no Studio Ritz, Avenida São João, 225.

Alfie Soares em 1960 fotografado por Joe Primo Moreschi.
A foto foi feita no Studio Ritz, Avenida São João, 225.

Uma análise da canção “Nós Dois”, composição de Renato Barros.

A canção “Nós Dois” faz parte do álbum de Renato e Seus Blue Caps lançado em 1971, o primeiro a não incluir versões de músicas internacionais.

Tomamos conhecimento hoje de uma análise perfeita sobre esta canção, feita pelo professor JV de Miranda Leão Neto, a qual transcrevo aqui para vocês também se emocionarem comigo diante da beleza e grande sensibilidade deste professor.

Uma música que expressa a saudade feliz do amor

Autor: Prof. JV de Miranda Leão Neto

Um momento mágico na antologia de composições de Renato Barros foi alcançado em 1971, com um disco genial que não obteve tanto sucesso quanto outros do Renato e seus Blue Caps.

Só quem viveu um grande amor poderá entender uma reflexão como esta, em torno de uma canção belíssima de um dos mais qualificados conjuntos de pop-rock brasileiro. Ela tem a singeleza das cantigas de ninar e a beleza das grandes óperas da era barroca, com uma poesia recheada do melhor e mais nobre dos sentimentos.

Refiro-me à música “Nós Dois”, que Renato Barros e seu excelente Renato e seus Blue Caps publicaram através do LP de 1971, considerado o mais “técnico” e melodioso da banda, entre os muitos que ela já havia lançado até à ocasião, desde o início dos chamados “Anos Dourados”. Há mesmo quem diga que aquele disco representou o start da maturidade musical plena do Grupo, a partir da qual já não eram mais possíveis jornadas aventureiras pelo rock mais ritmado dos primeiros discos, e muito menos pelas “rasgadas metálicas” de canções como “Dona do meu coração”, “Ana”, “Pra você não sou ninguém” e “Só faço com você”, embora o LP de 71 ainda trazia hits de impacto dançante, como “467723” e “Não é nada disso”.

Com efeito, com uma melhor atenção, o leitor poderá ver que se trata de uma composição até certo ponto simples, mas extremamente bela em sua “tristeza feliz”, contando com detalhes um romance aparentemente findo entre um casal que vive/viveu o amor verdadeiro, com uma mensagem captada ao longo do tempo em que durou a relação, e por isso mesmo penetrando no futuro que talvez não a destruiu ou jamais a destruirá, “porque os amores verdadeiros subsistem à morte”, já diziam os oráculos…

Do ponto de vista técnico, ela tem uma característica rara numa música popular (embora sua linha melódica seja “clássica” demais para ser chamada de popular) que é a sua “circularidade”, pois a canção começa e termina no mesmo ponto lógico, entre a decisão expressa na primeira frase e a última… E dizem os experts que a mesma circularidade subsiste na melodia, de tal maneira que se alguém mixasse o seu final com o seu início, ouviria algo como uma antiga cantiga escocesa com o espírito das gaitas de fole usadas em passeatas militares ou espetáculos circenses, cuja duração exigia um fundo musical reprisado sem se distinguir começo nem fim. E melhor: mesmo com sua circularidade não perde a beleza nem enfada, embora seja absolutamente “sem pressa” em sua cadência.

O que diz a sua letra-poesia? Vejamos:

“Eu hoje vou voltar pra ver,/Lugares onde fui feliz…/Vou rever nossa estrada/E aquela casa que eu te mostrava/E sonhei, pra nós dois!… – Eu hoje tenho que aprender…/A um só cigarro acender,/E no carro escutar a nossa canção,/Chorar com saudade…/De apertar, outra vez, sua mão!… – Eu hoje vou voltar pra ver,/Lugares onde fui feliz…/Pode ser que você também possa estar/No mesmo lugar, e assim nós dois/Vamos nos encontrar…”

Como percebe o leitor, estamos diante da sublime estética da simplicidade, tão importante na arte de se fazer boa música. Por isso, tudo aquilo que um comentário poderia adicionar à merecida lista de encômios que esta canção merece, nunca alcançaria beleza semelhante à sua linha melódica e letra, uma vez que esta traduz uma HISTÓRIA (certamente real) na vida do seu autor, ou próxima disso, ou na vida de alguém que a escutou… e curtiu… e chorou… e chorou de alegria e saudade, saudade do futuro que só a fé na sobrevivência da alma pode acalentar. E por contar uma história perfeitamente vivenciável e plausível, mereceria, isto sim, um filme Disney ou hollywoodiano dos mais tocantes, à moda “Cinderela” ou “Love Story”, como nos tempos em que Ali MacGraw encantava corações no mundo todo.

Este comentarista tentou “filmar” a música. É claro que dei ênfase à sua letra e entrelinhas, para cativar a atenção e cultivar a paixão do Petit Prince por sua flor, símbolo máxime do que pode sentir um coração humano, embora o principezinho fosse ‘extraterrestre’. O leitor poderá ver o making-of daquilo que chamei de “filme” “Neste link”.

Finalmente, meus alunos me perguntaram por que escolhi ESTA música do Renato e Seus Blue Caps, “quando a banda tem tanta coisa linda para se comentar” (?). É verdade. Renato Barros e os seus companheiros foram e são (até hoje) o que de melhor a Jovem Guarda produziu, do melhor de todos os tempos na música nacional. Respondi: “Seria lugar comum dizer que ela é a mais bela para meu coração, ao mesmo tempo que escrever sobre algum grande sucesso da banda seria também lugar comum, e lugares comuns não combinam com uma música que embala nossos sonhos justamente por revisitar lugares incomuns, lugares onde fui feliz”…

Link Original

Pois bem, diante de uma análise tão bonita, não tive dúvidas em ligar para o autor da canção, Renato Barros, e pedir a ele que me falasse sobre a sua composição “Nós Dois”.

Ele me contou então que sempre gostou de fazer música (melodia) e desde cedo não ouvia somente Rock, mas gostava também de ouvir Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho e Waldir Azevedo, entre outros.

Sérgio Bittencourt era filho de Jacob do Bandolim e fez a música “Naquela Mesa” para seu pai, como também compôs “Modinha”, e ele tinha um programa na Rádio Nacional do Rio, onde ele só tocava MPB.

Renato Barros sabia do gosto musical de Sérgio, e como queria participar do programa, começou a pensar em fazer uma música pra ele gostar… Renato conversava muito com Cid sobre o Sérgio Bittencourt e foi então que teve a ideia de fazer uma música cuja linha melódica lembrava um pouco as coisas que Sérgio fazia.
Renato e Cid foram ao programa de Sérgio Bittencourt e Renato pediu ao sonoplasta que separasse a canção “Nós Dois”, e a música foi tocada no programa…

Renato se recorda que Sérgio Bittencourt começou a ouvir e prestar atenção no que estava escutando…

A melodia lembrava “Because”, dos Beatles, porém na gravação de Renato e Seus Blue Caps foram colocados mais instrumentos; pensando em uma letra que pudesse ser o tipo que agradasse ao Sérgio Bittencourt, veio à mente a lembrança de seu pai, que havia falecido em 13 de dezembro de 1967; Renato começou a recordar das vezes em que passava com o pai no centro da cidade no Rio, costumavam passar em frente a uma casa muito bonita e o pai comentava que era linda aquela casa… e então Renato quando fez esta música, pensou muito nessas coisas de passar por algum lugar e recordar o que passou, lembranças boas que ficaram e que não voltam mais.

Dessa ideia dos lugares pelos quais passava com seu pai, transformou como se fossem as lembranças de um casal de enamorados que agora só têm lembranças…

Ouvi o Renato me contar tudo isso e em seguida li pra ele o que escreveu o professor. Ele ficou admirado com a percepção dessa pessoa e sentiu-se muito gratificado, tanto que gostaria até de poder agradecer a ele, que talvez tenha sido uma das poucas ou talvez a única pessoa a analisar com tamanha perfeição a canção que foi escrita por ele para poder participar do programa de Sérgio Bittencourt na Rádio Nacional do Rio, tendo colocado na letra as lembranças dos lugares pelos quais passou com seu pai…

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Neste disco de 1971 Renato deixa evidente em algumas canções a influência do guitarrista Santana, que havia estado no Brasil, o que deu ao LP uma sonoridade bem característica do início da década de 70.

Há outras canções lindas, como “Essa Noite não Sonhei Com Você”, e também a composição de Ed Wilson, intitulada “Não é nada disso”.
O maior sucesso foi a composição de Getúlio Côrtes, intitulada 46-77-23.